quarta-feira, 16 de julho de 2014

O que vai na bagagem

Foi o que aprendi nos meus primeiros dias longe de casa. O que significa que os primeiros dias valeriam a pena por si só, valeriam a viagem.

É difícil explicar de um modo lógico, e ainda mais difícil explicar de um jeito que não seja piegas. Mas fica fácil se eu falar de forma direta e sem vergonha (sentido literal, não figurado). O exterior não é melhor do que o nosso país, nem nunca vai ser. O exterior tem suas vantagens, mas não é um lugar melhor que o Brasil, nem nunca vai ser. (Espero que meus três leitores estejam sempre cientes de que isso é só um post qualquer de um blog qualquer, e não a redação de um artigo de opinião: porque eu não acho que vou conseguir argumentar à altura. Nem defender meu ponto de vista logicamente. Uma vergonha.)

Vergonha foi o que senti nos primeiros dias. De ter falado mal da gente, de ter tido vontade de fugir, de ter imaginado que era só dar um pulo do outro lado do oceano para sentir um mundo melhor. Me arrependi e me envergonhei de tudo isso. E isso aconteceu por causa de confrontos dúbios com os quais tive de lidar: tapas na cara bons e ruins.

O tapa na cara bom: é o brasileiro falando bem de Natal, com orgulho e satisfação de ter pisado lá, e com orgulho e satisfação de conhecer alguém com esse sotaque distinto (em todos os sentidos). Outro tapa na cara bom: o brasileiro que fala bem de onde vem, e afirma que, sim, ama o lugar onde vive, apesar de todos os problemas. "Apesar de todos os problemas": o que indubitavelmente nos diz o quão bom é o lugar de onde viemos. Tem mais tapa na cara bom: o estrangeiro que nos admira, única e exclusivamente por sermos... brasileiros. O tapa na cara bom é aquele que nos acorda no susto, mas logo dá uma notícia boa. A gente abre os olhos, ouve a notícia, e sorri (envergonhado).

Tapa na cara ruim que me deram: estrangeiro com preconceito contra brasileiro; brasileiro com preconceito contra nordestino (e eu achava que isso era História). Mais: estrangeiro hostil, estrangeiro frio, professor gelado. E a certeza convicta de que você não importa para ninguém - quando você não está no seu país. Tapas na cara óbvios que os depoimentos omitem: mendigos, miséria, drogas, muitas drogas, furtos e roubos, impostos altos, especulação imobiliária, população descontente com governo, população de mãos atadas, a política também sendo um (grande) problema. E mais.

Fiquei com vergonha de mim mesma nos primeiros dias. Mas me recuperei logo do susto: e meu orgulho surgiu rápido, surgiu maior, e passou a ser como o de outros brasileiros que estão por aqui - e como o de nenhuma outra nacionalidade que eu conheci até agora.

Não existe país como o nosso. Não só porque "é nosso", e sim porque é Brasil, eu chuto. Eu aposto. Nos lugares fora do Brasil onde já estive (são poucos), não me senti bem vinda em nenhum deles. E, por vezes, sujeitos fizeram questão de deixar isso bem claro (crianças irlandesas nos atiraram bexigas d'água enquanto voltávamos para casa - e os pais delas assistiam à tudo com naturalidade). No meu país: todo mundo é bem vindo, todo mundo faz parte ou pode fazer parte dele*. Porque a gente gosta de gente, e gosta de receber, de sorrir, de olhar nos olhos, de ser passional (e por isso eu não culpo os fanáticos do futebol - os fanáticos saudáveis). Vou forçar a barra: a gente é mais humano, em certa medida. (Eu avisei.) E é por isso que os bons tapas na cara vieram: porque há pessoas lá fora que reconhecem isso, e que ficam felizes de nos terem por perto, de verdade.

E esse parágrafo aí soa mentiroso e romântico em excesso, porque, é claro, temos deixado tudo isso ir embora, e a troco de nada. Temos olhado menos para os outros: os outros que somos nós. Temos amado menos o país e a cidade, e o estado da gente. É claro que sim. Tá difícil cuidar do Brasil, a gente sabe, mas fica mais difícil quando todo mundo quer fugir. E fica terrível quando quem vai embora diz pra gente que: lá fora é melhor.

Aí, então: estão faltando os tapas na cara, os olhos arregalados depois do sonho. Ou da cegueira. A gente não vai mudar o Brasil, é provável. A gente não vai reformar a cidade para um futuro novo, ou voltar a um passado distante, quando "tudo era melhor". Mas a gente é que pode ser um pouco melhor. Ou bem melhor. Se começarmos e sentir mais orgulho e a abrir mais os olhos: é no Brasil que a gente fica, e é só dele que a gente cuida.

Depois de quarenta dias longe, eu só consigo pensar que o Brasil é o melhor lugar do mundo. "Mesmo com todos os problemas?" Mesmo com todos os problemas. O que só prova, é muito claro: que ele deve mesmo ser o melhor lugar que existe.







*Sobre conseguir fazer parte do Brasil: eu sei que o termo termina evocando população vulnerável e marginalizada; evocando a pobreza e a miséria que não fazem parte do Brasil - ou que fazem parte do Brasil do jeito errado. Mas o texto não é bem sobre isso. No final, na verdade, eu quis evocar o olhar para dentro do país pensando nessas questões óbvias também. Mas a frase lá do * tenta não remeter a esse tema.
Sem confusões.

2 comentários:

Deyze Ferreira disse...

Tenho pensado bastante sobre isso. Tô vendo tanta gente "desgostosa", indo embora. E os que ficam sonham também em ir. Tô feliz por sempre querer ir com data certa pra voltar :)

Állika disse...

Senti o mesmo quando viajei, Bia, e acredite: já fui criticada por ser uma pessoa que não quer sair do Brasil, me chamaram de "sem ambição". E há ambição maior na vida do que querer ser feliz? Beijinhos