terça-feira, 22 de julho de 2014

Viva o nosso brasileiro

Quando ouvi falar de João Ubaldo pela primeira vez, eu era criança. Quando vi João Ubaldo pela primeira vez, eu tinha uns dezenove anos, e ele tinha vindo a Natal para um evento de escritores. Quando o vi pela segunda vez, eu tinha vinte anos; foi em uma edição da Flipipa. Viva os festivais literários. E viva meus pais, que, por terem o privilégio de serem amigos dele, me deram o privilégio de conhecê-lo e de vê-lo falar. E de ouvi-lo falar.

E ouvi-lo falar é do que mais guardo comigo. Por causa da voz poderosa e memorável, do timbre grave de dar medo e de não esquecer. De nunca esquecer. É possível evocar o som da voz dele a qualquer momento: e, em se tratando de um escritor, isso é muito singular, e tem efeitos incomparáveis. Porque podemos lê-lo e ouvi-lo ao mesmo tempo. Lê-lo e vê-lo falar, e bater um papo, e ficar de conversa com o escritor, que conta aquela história só pra você, que é pra fazer com que você, além de ler, possa ouvi-la também. A gente ouve a voz dele dentro dos nossos ouvidos enquanto o lemos. Por isso mais vivas aos festivais literários. Mais vivas aos meus pais.

Eu guardava alguns livros na estante para autógrafos futuros. Era para eu ter levado a penca de livros para o restaurante aquele dia, aquele primeiro encontro. Marcaria o inconveniente mesmo. Ao invés da sobremesa, haveria os autógrafos. Meus pais ficariam com vergonha, e eu ficaria cheia de autógrafos, mesmo antes de ter lido aqueles livros.

Vou ter de lê-los sem dedicatórias. Mas lerei ouvindo a voz, ouvindo o timbre. E os livros serão mais meus por causa disso; serão mais especiais. Viva o meu privilégio, viva os festivais literários, que trazem as vozes dos livros para perto da gente. Viva o nosso grande escritor brasileiro, e nossa sorte de o termos tido. E de o termos sempre. Porque, ainda bem que o mundo pode ser justo: escritores são imortais. E João Ubaldo já é eterno faz tempo.