quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Senhoras de si

Eu estava na sala de espera do consultório médico, gastando horas do meu dia esperando para ser atendida. Lia um livro e de vez em quando levantava a cabeça para dar uma olhada nas pessoas, na televisão, na cor do dia lá fora. Dá pena ficar enclausurada dentro de um consultório médico em dias assim, como o que hoje amanheceu.

Já passava das nove da manhã quando desce, do primeiro andar da clínica, uma senhora idosa acompanhada de sua filha, ou de sua cuidadora, não sei bem dizer. E que diferença faz esses dois termos agora, sabendo que eles são tão intercambiáveis nessa situação. A senhora vestia uma saia e uma blusa em seus tons pastéis; era um "conjunto", uma roupa lindíssima, de tecido fino e bom, de costura bem feita, e perfeita em seu corpo de senhora. Tinha um colar de pérolas bonito e nada berrante. Chamava a atenção, mas não era chamativo. O rosto era bonito, plácido, a pele bem alva, os olhos brilhavam um pouco. O sorriso também.

Era uma senhora linda, que desceu as escadas sorrindo, e sentou-se na cadeira para esperar quem a vinha buscar. Precisava de ajuda para andar; não lembro se usava uma bengala ou só o auxilio da pessoa que estava com ela. Não reparei. Não consegui reparar. Porque eu não me cansava de reparar no sorriso que ela trazia e na simplicidade em estar ali, em uma simples quarta-feira, vestida como que para uma festa, para um coquetel, para um almoço importante. No tempo dela, acho que as mulheres cultuavam estar sempre assim: bem vestidas, com uma roupa cheia de classe, e com os rostos sempre traduzindo boa expressão (e boa impressão também). Minha avó é assim: a roupa combinando, sempre saia e blusa de botões, o sapato bonito e confortável, obrigatoriamente; o cabelo bem penteado e um sorriso grande no rosto. Imagens que só podem dizer: a vida é muito boa, e estar viva para vê-la é melhor ainda. Veja como eu aproveito meu dia, vestindo minha melhor roupa, usando colar de pérolas, arrumando o cabelo e sorrindo para quem eu vejo. Hoje não é um dia qualquer. Nunca é.

Uma hora depois lá vinha outra senhora, agora entrando na clínica, também acompanhada da filha. Dava para eu vê-las pela porta de vidro, mesmo que ainda estivessem um pouco longe. Ela também vestia uma roupa bonita e do tipo "conjunto", com saia e camisa estilo tailleur, ambas em cor cinza. E sapatos confortáveis, também. Não precisava de ajuda para andar, mas andava devagar. E aproveitou seu movimento mais lento para observar o que tinha na sua frente: as rosas plantadas na mureta da clínica.

Eu nunca tinha reparado que ali havia planta alguma. Quanto mais flores. Quanto mais flores brancas. Nunca tinha visto nem me aproximado delas. E foi o que essa senhora fez: chegou perto e falou algo sobre a flor para a filha; pegou com a mão direita, enquanto com a esquerda segurava a bolsa preta, falou mais alguma coisa para a filha, que respondeu e logo sorriu. Na sequência, cheirou a flor. Sem cerimônias, sem vergonha, com a destreza de quem faz aquilo todos os dias. Eu devo ter cheirado pouquíssimas flores na minha vida; e se chegar a sentir cheiro de flor em algum lugar, não vou prontamente saber dizer do que é.

E acho que ela sentiu o cheiro e contou alguma história à filha; lembrou-se de algo importante para dizer ali. Ou só disse se cheiravam bem, que flores eram aquelas. Lembrou-me instintivamente a roseira que meu avô cultivava no jardim de casa: que dava rosas brancas bem abertas, um branco capaz de iluminar o jardim à noite. Ainda mais a noite dele, o período do dia que ele mais parecia gostar, e que mais parecia gastar admirando a roseira. Nunca o vi cheirando rosa nenhuma. Mas aposto que ele fazia isso escondido da gente.

Mãe e filha entraram na clínica. A senhora arrumada e contente entrou sorrindo, deu bom dia aos desconhecidos sentados perto da porta, e depois à recepcionista, e depois seguiu seu dia. Enquanto eu fui para minha consulta, autorizei meus exames, e saí da clínica com pressa. Sem olhar pra rosa alguma.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sonhos e ausência de lembrança

Eu estava dirigindo há algum tempo, era noite alta, escura e silenciosa já. Devia ser madrugada. De repente eu estava no meio de vielas e ladeiras muito íngremes e muito estreitas. Ruas cheias de buracos, ladeiras cheias de buracos, tudo o que me obrigava a passar a primeira marcha e acelerar (o máximo possível) o meu carro - que de tão fraco parece de plástico. O carro dos sonhos era o mesmo do da vida real (uma deixa para os publicitários, olha aí). As ladeiras ficavam mais íngremes à medida que eu dirigia, também mais esburacadas, tudo mais escuro, e não havia ninguém nas ruas. Mas havia carros estacionados - em lugares estreitíssimos, onde mal caberia um carro, quanto mais dois. E eu tinha de acelerar com força e ter muita destreza em desviar dos buracos e dos carros ao mesmo tempo. Nesse momento eu já sentia um medo absurdo.

O sonho parecia pesadelo, é claro. Eu enfrentava uma solidão perigosa, e a cena que consigo lembrar beira o assustador, mas ainda com muito suspense. Eu não sei dizer para onde estava indo, e acho que no sonho também não saberia. E claramente eu não fazia ideia de por onde seguir, mas seguia. E a sequência do meu caminho era sempre para cima, para cima. Subi muitas ladeiras (não desci nenhuma); todas esburacadas e sombrias. Desviei dos carros vazios, estacionados naquelas ruas que estavam em silêncio absurdo - tenho tanto medo do silêncio pesado quando da escuridão. Até que comecei a repetir que Nossa Senhora estava comigo.

Que não parece, mas eu sou religiosa, às vezes até com certo excesso. Acredito piamente em milagres e em destino reservado, ao mesmo tempo que tenho um medo absurdo dessa história de vida póstuma. Não consigo acreditar que ela exista - e caso ela exista, tenho medo de ser castigada por não ter acreditado, veja. Eu repetia que Nossa Senhora estava comigo enquanto as ladeiras ficavam mais íngremes, mais esburacadas, e o silêncio e o escuro seguiam me assustando. Não parava de repetir isso, até que cheguei ao fim da pior ladeira, acelerando o carro com exagero, desviando no último segundo do carro estacionado à minha esquerda (um Gol branco), até chegar no topo. O medo alto, o pior momento até então.

Quando cheguei lá em cima, estava dentro de uma igreja de pedra, sem porta, parecia a construção em ruínas, parecia uma igreja pela metade: parte do chão e teto estavam ali, e paredes também, justo na parte que circunda o altar, que abriga o altar. Da metade "para fora" não tinha construção. Podia ser uma igreja devastada. Uma igreja sem portas. Uma ruína conservada. Ainda estava escuro, e a única luz que havia no lugar era azul, bem azul. Existia uma aura ainda amedrontadora mas que conseguia ser reconfortante: havia pessoas rezando, havia uma missa acontecendo, e a missa e as pessoas aconteciam por causa de Nossa Senhora. A luz azul, única luz ali, era também por conta dela.

Naquela escuridão azulada onde eu já não estava dentro do carro (sem nunca ter realmente saído de dentro dele, até ali), eu tinha medo e paz, ao mesmo tempo. Nos últimos momentos do sonho, eu tinha a sensação de que já tinha vivido aquilo antes. Desde as últimas ladeiras e a frase que eu repetia, até a chegada na igreja de pedra. Mas quando acordei não consegui lembrar se eu já tive esse sonho antes, parecido ou igual (isso me acontece, de vez em quando). Não deu tempo de me certificar, ao acordar, se eu estava viva, mas eu estava. Estou. Foi que saí muito rápido para a segunda-feira. E enquanto eu dirigia, agora de manhã, na vida real e sob o sol, me lembrei de ter esquecido (!) de fazer isso; porque era um possível significado do sonho. Quem sabe.

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Uma vez eu sonhei com minha tia avó (religiosíssima) me avisando que ia morrer bem em breve, e afirmando peremptoriamente: agora é que a minha vida vai ficar boa, agora é que vou ter a vida que mereço, que vou ser recompensada por tudo; agora, sim, minha vida vai começar, e será o meu momento. E ela falava isso com certeza e tranquilidade impressionantes. Consigo lembrar a sensação de tranquilidade que ela até transmitia ao dizer aquilo: na varanda de casa, em pé, escorada no portal da porta, com a mão esquerda para trás das costas e a mão  direita apoiada sobre o peito, para mostrar a convicção.

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Uma vez me fantasiaram da mãe do menino Jesus, nas vestes brancas e azuis de sempre, e me fizeram carregar um boneco de plástico no meio do auditório, entre crianças fantasiadas de anjos e de outros personagens. Vejo as fotos. Não tenho a menor lembrança disso.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

De mim para mim

Não me deixe sem escrever, que eu me falto. Que eu fico com a cabeça e o coração cheio de coisas pra dizer - o coração mais do que a cabeça. Coisas bonitas e feias. Fico cheia de histórias velhas que eu gostaria de repetir, de contar tudo de novo. Ou de contar tudo de novo, mas diferente. Tem umas histórias velhas que eu repito o tempo todo, mas mudo os finais - que mesmo assim são sempre abruptos e ruins. Mas eu não paro. Não paro de contá-las. Nem posso.

São meus pedaços, as palavras,  devem ser. Preenchi quase um dia inteiro de trabalho e nenhum de palavra. Me faltaram. Fiquei muda por toda a semana; os dedos fazendo esforços vãos para coisas menos importantes (trabalho e estudo). Chegaram a doer, dia desses. Eu me faltando.

Palavra demais e tempo de menos. Tempo de menos me dando a impressão de pouca palavra também. Mas tem; elas ficam todas aqui. Só precisam do nosso fim de noite (meu com elas), a mesma música de sempre, o silêncio leve, não grave, nada grave por perto, e a cabeça em outro lugar. Outros lugares. Outras e mesmas histórias.

Não posso parar. Não me deixe ficar sem escrever.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Correndo contra a corrente: devagar

Eu sabia que teria um semestre, no mínimo, atribulado pela frente. Que seria atividade demais para sono de menos, e que o sono de menos ia me matar aos poucos. Mas que eu iria dar conta, pois eu iria correr. É só esse o tempo que tenho para fazer tudo que quero, mesmo correndo - tenho repetido isso. Digo que no futuro quero correr de menos, ver o tempo passar de vez em quando, matar uma quarta à tarde sem peso na consciência, e deixar os fins de semana vazios. Quero esganar o tempo hoje para que ele sobre mais à frente.

E por isso na última semana eu já estava comendo às pressas (e ouvindo reclamações do estômago depois), principalmente o almoço. Cheguei a reclamar da fome e da refeição; se eu não precisasse parar para elas, seria bom. Se eu pudesse sentir menos sono, também. E por isso eu chegava para o almoço na casa da minha avó, e engolia o prato. Tinha de sair correndo porque tinha um compromisso imediato; ou porque, se corresse, eu poderia cochilar quarenta preciosos minutos e seguir para o compromisso logo na sequência. Comia rápido, conversava pouco, estava exausta na terça-feira, e dormindo de olhos fechados na quinta. Na sexta-feira eu já não sabia o que tinha acontecido, e a semana parecia ter durado um mês. E o mês, seis meses. Eu correndo.

Na quinta, de novo atropelei o tempo lá em voinha. Na sexta de madrugada, ela sofreu uma queda feia e grande, e foi para o hospital. Foi observada, cirurgiada, medicada, e mandada descansar. E agora ela se recupera aos poucos.

O acidente foi na sexta e eu, hoje, ainda não podia aceitar que ela não estivesse totalmente recuperada. Dizendo que é preciso olhar com mais cuidado esse pós-operatório, que tá se demorando demais. Mas é assim mesmo, dizem (dizem!). Não pode ser. Os dias estão passando e eu esperando a melhora completa que não vem. Só mais alguns dias de UTI, mais outros de hospital, e várias semanas em casa sob cuidados especiais e ausência de quedas, por favor. E aí deve levar meses, três ou quatro, para ficar tudo como antes. Que merda. Eu enforquei as semanas e os dias que era para fazer tudo (tudo o que, pois é), e também apertei os relógios por aqui. Eu estava a fim de superar meus limites. De fazer o máximo possível. Porque é preciso produzir, e ser eficiente, e ir mais rápido que os relógios.

E agora tenho de esperar meses para ter tudo como antes: o antes, aqueles dias em que eu estava correndo e as coisas iam bem, sem acidentes, tropeços nem desequilíbrios. Minha avó nem dizia para eu desacelerar. Porque tudo bem pra ela se eu corresse com a comida e os compromissos e com a vida da família; essas pessoas de hoje em dia são todas assim, ela devia ficar pensando. E aceitando.

Eu que tenho que desacelerar agora, nem que seja nas expectativas. E mudar a dimensão do tempo: ao invés de três expedientes por dia significando produtividade e avanço, saber que um tom de voz diferente e mais uma palavra bem articulada é o que pode significar alguma vitória. Algum limite superado, e objetivo alcançado, fazendo do dia um grande dia.

Não adiantou eu correr tanto se o que mais tenho raiva agora é de não poder recuperar momentos perdidos - porque corri durante eles. Não adiantou eu correr tanto se o que eu precisava aprender não era a ser rápida, mas a ter paciência e a viver com ela. Todos os dias.

Mas a gente olha e anda para a frente. Assim como os relógios, ainda bem. E o dia de amanhã eu torço para que seja produtivo novamente: uma palavra a mais, um hematoma a menos, e essas vitórias aí, melhores que o tempo, vitórias que a gente chama de vida.

sábado, 9 de agosto de 2014

Como sempre

Estava tudo nos conformes. Eu tomava café e comia o pão de ontem, falando sobre tudo que aconteceu ontem e hoje e o que talvez aconteça amanhã também. Preciso contar as novidades (que são só tudo o que aconteceu, nada de realmente interessante) e falar mal de algumas pessoas. E precisamos combinar a noite de hoje e o dia de amanhã e o último final de semana do mês, já tem compromisso.

Tudo como antes. Eu terminava o café e falava outra história sem futuro que deveria ser interessante, pois afinal era eu quem estava contando. Mas eu só dizia uma bobagem bem grande - pode-se dormir sem ouvi-la. Queria atenção e excesso de compreensão, como sempre; minha carência é tanta.

Estava tudo como sempre. Enquanto eu falava de uma conversa importante de antes de ontem, uma ideia nova, um plano para mais adiante. E outro plano. Umas estratégias que, quem sabe, podem fazer tudo dar certo. Eu fingindo que não tenho nenhuma expectativa com isso e ele fingindo que acredita totalmente na minha falta de expectativa. Tudo como sempre.

Foi uma frase certa com uma interpretação errada que nos colocou pelo avesso, e, nunca mais. Ou uma frase errada com a minha interpretação certa. Veja, eu tenho que estar com a razão todas as vezes (como sempre). Menos de meia dúzia da palavras e o que era conforme virou escândalo, que virou absurdo, que absurdo, foi só uma interpretação errada, mentira, foi só uma frase errada, uma ideia que não tem nada a ver, você não deveria ter dito isso desse jeito, não é possível que tu pense assim, eu não sei o que ainda tô fazendo aqui ouvindo e discutindo isso, vou embora, por todo o fim de semana, por favor.

E fui. Por causa de quase nada, ficou tudo errado. Pelo avesso. Disforme. Remexido e dolorido sem necessidade. E cada um abraça seu orgulho por uns dias - ou para sempre. Como sempre.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Quando as conversas se resumem a nada

Eu me pergunto o que aconteceu por aqui nos últimos dez anos. Faz mais de uma década que eu moro no mesmo prédio, e tenho praticamente os mesmos vizinhos. Eu lembro daquela velha história (e crônica e ideia comum) de que, no elevador, a gente faz um comentário banal sobre o tempo, a chuva, o calor desgraçado, dá boa tarde e segue com a vida. Eu não me lembro quando as pessoas pararam de fazer isso por aqui.

Dia desses eu saía do elevador, quando e menina entrou no elevador ao mesmo tempo, me atravessando todinha. Passou por dentro de mim e eu nem senti. Coisa estranha danada. Dizem que isso é coisa de "gente mal educada", entrar no elevador sem esperar que ninguém saia. Eu acho que é coisa impossível mesmo. Uma metafísica que se aconteceu! E depois que me atravessou, não me deu nem um bom dia, nem dois: o da chegada e o da saída.

Aí tem vezes que vem muita gente escapando pela porta do elevador e eu seguro aquela porta pesada, vejo o povo passar. E só vejo. As pessoas passam por mim como suecos: com a indiferença no rosto e a certeza absoluta de que o Cosmos e todo o Universo se organizaram para abrir e segurar aquela porta enquanto  eles passassem - eles e os seus pensamentos que só dizem respeito aos seus respectivos umbigos, imensos umbigos. De vez em quando eu tenho que gritar POR NADA, BOA TARDE PRA VOCÊ TAMBÉM. Tem quem diga que isso seja atrevimento com necessidade de demonstrar boa educação. Mas eu falo gritando assim que é só pra me certificar de que eu estou mesmo por ali. Às vezes tenho dúvida.

Sabe quem mais. Estava eu e outro senhor no elevador, ele no telefone celular, aquela conversa séria em que ele não parava de falar. A senhora entrou no elevador e olhou nos olhos dele e disse "olá", mesmo que ele não pudesse nunca responder a ela, pois não parava de falar, e tinha o rosto tenso, com atenção demais na conversa. Eu fiquei acuada na quina do elevador. De novo eu não sabia se era ali que eu tava. Se era sonho, o que era tudo aquilo.

Essa mesma senhora tava no supermercado, bem na minha frente, dia desses. Passou as frutas, as verduras, o amaciante, o pacote de Mentos da embalagem cor de rosa. Chamou a atendente de "minha linda". Logo depois eu despachei minhas compras. Chegamos no prédio ao mesmo tempo. Mas ela não me viu nem lá nem aqui; a pessoa que trabalha na casa dela, quando entrou no elevador, percebeu que eu tava dentro. E foi conversando comigo enquanto a gente subia os andares.

Hoje entrei no elevador e a moça já estava dentro dele, mas vinha dos andares de baixo. O que significa que provavelmente chamei o elevador no exato momento em que ela entrava nele, e por isso ela entrou e teve de subir os andares, e não esperar pela descida, na volta. Eu disse "bom dia" quando ela disse "boa tarde", ou foi o contrário. A hora do almoço e a hora do crepúsculo nos dão essas dúvidas nos cumprimentos - quando estes acontecem. Ela começou a rir e desandou a falar do sol quente, da quentura, da claridade na rua, aí a gente não sabe que horas são, aí a gente não sabe o que diz, porque, né, a gente acorda de manhã bem cedo e ainda tá é frio (mulher trabalhadora, que acorda tão cedo, que ainda está frio; eu quando acordo, já faz calor há horas), que não dá nem coragem de tomar banho, a gente se enfia num banho frio e quando sai na rua, ave maria, logo depois já tá é quente, num é?!, e passa o dia assim. E mais...

Ainda bem! Ainda se fala sobre o tempo dentro dos elevadores. É provável que nem tudo esteja perdido. A conversa, quando houve, falava disso aí: de nada. Isso é que é bom. Ruim é quando não tem conversa nenhuma, nessas horas que a gente está ali mas nem existe pro outro. A senhora desandava a falar sorrindo. E eu sorria muito mais que ela.

Tem umas bobagens que salvam meu dia. Umas bobagens que pra mim são grande coisa.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Conversa comprida

Escrevi um longo e-mail contando que eu sentia falta das longas conversas. Acho que ninguém mais escreve e-mail hoje em dia, não com esses propósitos de saudade. Ninguém mais escreve longos e-mails. Eu escrevi um, contando que sentia falta de conversa longa, de coisa de horas.

Escrevi num desabafo semi-desesperado, mas contido e conformado. Acostumada com os silêncios, literais e figurados, reais e representados por aqui. Silêncios. Nosso barulho de hoje é o celular vibrando, e os pins e pius das outras redes sociais por aqui. Tudo apita, vibra, e chama meus olhos (ouvidos se usa para pouca coisa, agora) por uns segundos. E passa logo.

Eu falei que essa saudade de prosa comprida chegava a me dar saudade da faculdade. Porque como não gostávamos do curso, nos sobrava ainda mais tempo para falar da vida. De tudo. De nada. Nos tornamos especialistas em conversar sobre coisa alguma, por horas, e no meio das horas meter algum assunto importante (nossas vidas) por ali. Mas era só pra matar o tempo.

Pra ouvir as palavras, pra desabafar a troco de nada, a fim da catarse, de um conhecer o outro, de se surpreender, de pensar mais sobre tudo e sobre nada. Sobre as coisas que vinham atropelando a gente. Sobre o curso que a gente não gostava, e a vida que a gente tinha. O medo que às vezes nos dava quando a gente se dava conta de que estávamos, realmente, com nossa vida nas mãos. E o futuro vindo. E o presente: uma conversa bem longa, desafiando o tempo acelerado.

O tempo que venceu a gente, e atropelou nossas horas de palavras. Eu sinto tanta falta. Por esses dias me dei conta: as melhores amizades são as que preenchem as horas e os silêncios só com isso mesmo, as palavras. Conversas sem pressa. Conversas sem propósito. Conversas absurdas em meio a uma ressaca moral, ou em meio a uma embriaguez imoral. Acontecem. É o que justifica sermos amigos, e assim permanecermos para o tempo que vem à frente.

Aí terminei dizendo que sinto medo desse tempo que vem à frente. Porque se as conversas minguam agora, eu não sei o que pode vir adiante. Eu disse que tenho um medo danado, que não estou preparada.

Não sei quando ele vai poder responder o e-mail. Nem quando poderemos conversar longamente sobre isso aqui, sobre tudo e sobre nada. Eu sinto falta. E um medo.