segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Correndo contra a corrente: devagar

Eu sabia que teria um semestre, no mínimo, atribulado pela frente. Que seria atividade demais para sono de menos, e que o sono de menos ia me matar aos poucos. Mas que eu iria dar conta, pois eu iria correr. É só esse o tempo que tenho para fazer tudo que quero, mesmo correndo - tenho repetido isso. Digo que no futuro quero correr de menos, ver o tempo passar de vez em quando, matar uma quarta à tarde sem peso na consciência, e deixar os fins de semana vazios. Quero esganar o tempo hoje para que ele sobre mais à frente.

E por isso na última semana eu já estava comendo às pressas (e ouvindo reclamações do estômago depois), principalmente o almoço. Cheguei a reclamar da fome e da refeição; se eu não precisasse parar para elas, seria bom. Se eu pudesse sentir menos sono, também. E por isso eu chegava para o almoço na casa da minha avó, e engolia o prato. Tinha de sair correndo porque tinha um compromisso imediato; ou porque, se corresse, eu poderia cochilar quarenta preciosos minutos e seguir para o compromisso logo na sequência. Comia rápido, conversava pouco, estava exausta na terça-feira, e dormindo de olhos fechados na quinta. Na sexta-feira eu já não sabia o que tinha acontecido, e a semana parecia ter durado um mês. E o mês, seis meses. Eu correndo.

Na quinta, de novo atropelei o tempo lá em voinha. Na sexta de madrugada, ela sofreu uma queda feia e grande, e foi para o hospital. Foi observada, cirurgiada, medicada, e mandada descansar. E agora ela se recupera aos poucos.

O acidente foi na sexta e eu, hoje, ainda não podia aceitar que ela não estivesse totalmente recuperada. Dizendo que é preciso olhar com mais cuidado esse pós-operatório, que tá se demorando demais. Mas é assim mesmo, dizem (dizem!). Não pode ser. Os dias estão passando e eu esperando a melhora completa que não vem. Só mais alguns dias de UTI, mais outros de hospital, e várias semanas em casa sob cuidados especiais e ausência de quedas, por favor. E aí deve levar meses, três ou quatro, para ficar tudo como antes. Que merda. Eu enforquei as semanas e os dias que era para fazer tudo (tudo o que, pois é), e também apertei os relógios por aqui. Eu estava a fim de superar meus limites. De fazer o máximo possível. Porque é preciso produzir, e ser eficiente, e ir mais rápido que os relógios.

E agora tenho de esperar meses para ter tudo como antes: o antes, aqueles dias em que eu estava correndo e as coisas iam bem, sem acidentes, tropeços nem desequilíbrios. Minha avó nem dizia para eu desacelerar. Porque tudo bem pra ela se eu corresse com a comida e os compromissos e com a vida da família; essas pessoas de hoje em dia são todas assim, ela devia ficar pensando. E aceitando.

Eu que tenho que desacelerar agora, nem que seja nas expectativas. E mudar a dimensão do tempo: ao invés de três expedientes por dia significando produtividade e avanço, saber que um tom de voz diferente e mais uma palavra bem articulada é o que pode significar alguma vitória. Algum limite superado, e objetivo alcançado, fazendo do dia um grande dia.

Não adiantou eu correr tanto se o que mais tenho raiva agora é de não poder recuperar momentos perdidos - porque corri durante eles. Não adiantou eu correr tanto se o que eu precisava aprender não era a ser rápida, mas a ter paciência e a viver com ela. Todos os dias.

Mas a gente olha e anda para a frente. Assim como os relógios, ainda bem. E o dia de amanhã eu torço para que seja produtivo novamente: uma palavra a mais, um hematoma a menos, e essas vitórias aí, melhores que o tempo, vitórias que a gente chama de vida.

Nenhum comentário: