quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Quando as conversas se resumem a nada

Eu me pergunto o que aconteceu por aqui nos últimos dez anos. Faz mais de uma década que eu moro no mesmo prédio, e tenho praticamente os mesmos vizinhos. Eu lembro daquela velha história (e crônica e ideia comum) de que, no elevador, a gente faz um comentário banal sobre o tempo, a chuva, o calor desgraçado, dá boa tarde e segue com a vida. Eu não me lembro quando as pessoas pararam de fazer isso por aqui.

Dia desses eu saía do elevador, quando e menina entrou no elevador ao mesmo tempo, me atravessando todinha. Passou por dentro de mim e eu nem senti. Coisa estranha danada. Dizem que isso é coisa de "gente mal educada", entrar no elevador sem esperar que ninguém saia. Eu acho que é coisa impossível mesmo. Uma metafísica que se aconteceu! E depois que me atravessou, não me deu nem um bom dia, nem dois: o da chegada e o da saída.

Aí tem vezes que vem muita gente escapando pela porta do elevador e eu seguro aquela porta pesada, vejo o povo passar. E só vejo. As pessoas passam por mim como suecos: com a indiferença no rosto e a certeza absoluta de que o Cosmos e todo o Universo se organizaram para abrir e segurar aquela porta enquanto  eles passassem - eles e os seus pensamentos que só dizem respeito aos seus respectivos umbigos, imensos umbigos. De vez em quando eu tenho que gritar POR NADA, BOA TARDE PRA VOCÊ TAMBÉM. Tem quem diga que isso seja atrevimento com necessidade de demonstrar boa educação. Mas eu falo gritando assim que é só pra me certificar de que eu estou mesmo por ali. Às vezes tenho dúvida.

Sabe quem mais. Estava eu e outro senhor no elevador, ele no telefone celular, aquela conversa séria em que ele não parava de falar. A senhora entrou no elevador e olhou nos olhos dele e disse "olá", mesmo que ele não pudesse nunca responder a ela, pois não parava de falar, e tinha o rosto tenso, com atenção demais na conversa. Eu fiquei acuada na quina do elevador. De novo eu não sabia se era ali que eu tava. Se era sonho, o que era tudo aquilo.

Essa mesma senhora tava no supermercado, bem na minha frente, dia desses. Passou as frutas, as verduras, o amaciante, o pacote de Mentos da embalagem cor de rosa. Chamou a atendente de "minha linda". Logo depois eu despachei minhas compras. Chegamos no prédio ao mesmo tempo. Mas ela não me viu nem lá nem aqui; a pessoa que trabalha na casa dela, quando entrou no elevador, percebeu que eu tava dentro. E foi conversando comigo enquanto a gente subia os andares.

Hoje entrei no elevador e a moça já estava dentro dele, mas vinha dos andares de baixo. O que significa que provavelmente chamei o elevador no exato momento em que ela entrava nele, e por isso ela entrou e teve de subir os andares, e não esperar pela descida, na volta. Eu disse "bom dia" quando ela disse "boa tarde", ou foi o contrário. A hora do almoço e a hora do crepúsculo nos dão essas dúvidas nos cumprimentos - quando estes acontecem. Ela começou a rir e desandou a falar do sol quente, da quentura, da claridade na rua, aí a gente não sabe que horas são, aí a gente não sabe o que diz, porque, né, a gente acorda de manhã bem cedo e ainda tá é frio (mulher trabalhadora, que acorda tão cedo, que ainda está frio; eu quando acordo, já faz calor há horas), que não dá nem coragem de tomar banho, a gente se enfia num banho frio e quando sai na rua, ave maria, logo depois já tá é quente, num é?!, e passa o dia assim. E mais...

Ainda bem! Ainda se fala sobre o tempo dentro dos elevadores. É provável que nem tudo esteja perdido. A conversa, quando houve, falava disso aí: de nada. Isso é que é bom. Ruim é quando não tem conversa nenhuma, nessas horas que a gente está ali mas nem existe pro outro. A senhora desandava a falar sorrindo. E eu sorria muito mais que ela.

Tem umas bobagens que salvam meu dia. Umas bobagens que pra mim são grande coisa.

Nenhum comentário: