segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sonhos e ausência de lembrança

Eu estava dirigindo há algum tempo, era noite alta, escura e silenciosa já. Devia ser madrugada. De repente eu estava no meio de vielas e ladeiras muito íngremes e muito estreitas. Ruas cheias de buracos, ladeiras cheias de buracos, tudo o que me obrigava a passar a primeira marcha e acelerar (o máximo possível) o meu carro - que de tão fraco parece de plástico. O carro dos sonhos era o mesmo do da vida real (uma deixa para os publicitários, olha aí). As ladeiras ficavam mais íngremes à medida que eu dirigia, também mais esburacadas, tudo mais escuro, e não havia ninguém nas ruas. Mas havia carros estacionados - em lugares estreitíssimos, onde mal caberia um carro, quanto mais dois. E eu tinha de acelerar com força e ter muita destreza em desviar dos buracos e dos carros ao mesmo tempo. Nesse momento eu já sentia um medo absurdo.

O sonho parecia pesadelo, é claro. Eu enfrentava uma solidão perigosa, e a cena que consigo lembrar beira o assustador, mas ainda com muito suspense. Eu não sei dizer para onde estava indo, e acho que no sonho também não saberia. E claramente eu não fazia ideia de por onde seguir, mas seguia. E a sequência do meu caminho era sempre para cima, para cima. Subi muitas ladeiras (não desci nenhuma); todas esburacadas e sombrias. Desviei dos carros vazios, estacionados naquelas ruas que estavam em silêncio absurdo - tenho tanto medo do silêncio pesado quando da escuridão. Até que comecei a repetir que Nossa Senhora estava comigo.

Que não parece, mas eu sou religiosa, às vezes até com certo excesso. Acredito piamente em milagres e em destino reservado, ao mesmo tempo que tenho um medo absurdo dessa história de vida póstuma. Não consigo acreditar que ela exista - e caso ela exista, tenho medo de ser castigada por não ter acreditado, veja. Eu repetia que Nossa Senhora estava comigo enquanto as ladeiras ficavam mais íngremes, mais esburacadas, e o silêncio e o escuro seguiam me assustando. Não parava de repetir isso, até que cheguei ao fim da pior ladeira, acelerando o carro com exagero, desviando no último segundo do carro estacionado à minha esquerda (um Gol branco), até chegar no topo. O medo alto, o pior momento até então.

Quando cheguei lá em cima, estava dentro de uma igreja de pedra, sem porta, parecia a construção em ruínas, parecia uma igreja pela metade: parte do chão e teto estavam ali, e paredes também, justo na parte que circunda o altar, que abriga o altar. Da metade "para fora" não tinha construção. Podia ser uma igreja devastada. Uma igreja sem portas. Uma ruína conservada. Ainda estava escuro, e a única luz que havia no lugar era azul, bem azul. Existia uma aura ainda amedrontadora mas que conseguia ser reconfortante: havia pessoas rezando, havia uma missa acontecendo, e a missa e as pessoas aconteciam por causa de Nossa Senhora. A luz azul, única luz ali, era também por conta dela.

Naquela escuridão azulada onde eu já não estava dentro do carro (sem nunca ter realmente saído de dentro dele, até ali), eu tinha medo e paz, ao mesmo tempo. Nos últimos momentos do sonho, eu tinha a sensação de que já tinha vivido aquilo antes. Desde as últimas ladeiras e a frase que eu repetia, até a chegada na igreja de pedra. Mas quando acordei não consegui lembrar se eu já tive esse sonho antes, parecido ou igual (isso me acontece, de vez em quando). Não deu tempo de me certificar, ao acordar, se eu estava viva, mas eu estava. Estou. Foi que saí muito rápido para a segunda-feira. E enquanto eu dirigia, agora de manhã, na vida real e sob o sol, me lembrei de ter esquecido (!) de fazer isso; porque era um possível significado do sonho. Quem sabe.

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Uma vez eu sonhei com minha tia avó (religiosíssima) me avisando que ia morrer bem em breve, e afirmando peremptoriamente: agora é que a minha vida vai ficar boa, agora é que vou ter a vida que mereço, que vou ser recompensada por tudo; agora, sim, minha vida vai começar, e será o meu momento. E ela falava isso com certeza e tranquilidade impressionantes. Consigo lembrar a sensação de tranquilidade que ela até transmitia ao dizer aquilo: na varanda de casa, em pé, escorada no portal da porta, com a mão esquerda para trás das costas e a mão  direita apoiada sobre o peito, para mostrar a convicção.

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Uma vez me fantasiaram da mãe do menino Jesus, nas vestes brancas e azuis de sempre, e me fizeram carregar um boneco de plástico no meio do auditório, entre crianças fantasiadas de anjos e de outros personagens. Vejo as fotos. Não tenho a menor lembrança disso.

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