segunda-feira, 22 de setembro de 2014

De segunda

Eu já devia estar assistindo aula há pelo menos seis horas ininterruptas, quando olhei pro relógio e descobri que ainda eram nove da manhã. A aula tinha começado às sete. Mas no meu caso teria começado ontem à noite, quando me forcei a dormir cedo e enfrentei uma insônia ridícula, que só me dizia que eu não sou forte o suficiente para adormecer antes da meia-noite. Por isso o tempo hoje não passava. Meus olhos abertos desde às cinco e meia.

Tinha de colocar alguma comida na barriga e me forcei a tomar um suco. Meu setor de aulas não tem mais uma cantina decente faz muito tempo, só temos ambulantes. A fila do ambulante sofisticado (mesa larga, salgados variados, uma pessoa para pegar no dinheiro, outra para pegar na comida - luxo) estava grande demais. Fui na moça sem fila. Que pega o dinheiro e a comida com a mesma mão e tudo. Tem suco? Tem, de limão e de maracujá. Não queria nenhum dos dois. Pedi o de limão. 

Sentei no batente em frente à sala de aula e fiquei vendo o dia e as pessoas passarem pelo corredor. Lembro de ter uma visão mais romântica da universidade assim que entrei lá (faz um tempo). E que hoje sei que todos estão ali só cumprindo a tabela da vida - alguns, muito mal. Reparo também que hoje em dia a gente vai muito mais desarrumado para a universidade, principalmente no meu setor de aulas. Não julgo. Ainda mais considerando que muitos chegaram ali eram sete horas dessa madrugada. 

Vejo Clara passar, uma das melhores professoras que tive na vida, uma das melhores professoras da faculdade de Psicologia (são duas). Lembro de como me dói lembrar da Psicologia, às vezes. De como eu evito essas memórias porque de alguma forma elas ainda me fazem mal. Mas nessa hora também penso em como alguns professores podem salvar um dia, um semestre, quase um curso inteiro. Clara foi uma dessas professoras, que faziam a ida à universidade valer à pena. 

Olho de novo para as pessoas passando no corredor sem muita motivação estampada no rosto. E lembro de novo de como eu tinha uma ideia diferente da universidade. Ou de como eu vejo as coisas diferentes agora. Talvez tudo continue romantizado como antes e eu não consiga mais ver dessa forma. Talvez nada mais tenha importância mesmo. Porra nenhuma tem importância, na verdade; é a conclusão que a gente sempre chega se pensar demais na vida. 

Meu joelho estala alto e dói pra caralho e eu penso até quando essa dor vai me acompanhar. "Pro resto da vida" foi mais ou menos o que o médico disse. E penso que depois da aula vou seguir pra fisioterapia e isso me dá mais sono. Nessa hora eu já estava dormindo - de olhos abertos. 

Penso que a semana vai ser punk.

Penso na minha avó, e lembro de ela dizendo, na cama do hospital, às vezes lúcida às vezes não, de que queria viajar. (Minha avó nunca gostou de viajar.) Eu perguntei para onde ela queria ir e ela disse que para uma praia, para uma praia bem bonita. Penso se não deveria sair dali agora e ir para uma praia. 

Enquanto isso tomo consciência de que a anestesia do luto se dissolve. E os problemas antigos ficam todos nítidos de novo. É a continuação dos dias. E uma forma meio ruim de fazê-los continuar. 

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