quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Deve ser nosso molde

Quando o dia tinha amanhecido chuvoso e frio outra vez. O despertador tinha tocado tanto, desesperado em me acordar, e eu desesperada em dormir, de novo. Tudo igual, mas do outro lado do oceano. Com outras expectativas e em um lugar bem diferente do nosso.

O café da manhã feito por você e tomado apressado por mim. As roupas apertando e tentando esquentar o que o tempo lá fora desafiava, um pouco. E meu humor desafiando o dia que viria pela frente. Era tudo diferente e igual, bom e ruim, hostil e amigável; acontecia tudo ao mesmo tempo, opostos se complementando naqueles dias. O lado positivo desses contrários vinha sempre de você.

E tínhamos mais esse dia esquisito pela frente; completamente alheio a tudo o que éramos e a tudo o que buscávamos. O dia passava sem nossa interferência. A vida corria sem que fizéssemos planos. Nada precisava nem dependia de nós dois. As coisas já são assim, eu sei. Mas longe de casa, as proporções desse contraste ficam maiores e piores.

E os dias iam passando desse jeito, alheios à nós dois e a tudo que queríamos deles. Muitas pessoas eram hostis; e quase todas, indiferentes. Muita chuva devia cair, ainda; muito frio fazendo me doerem as costas, os braços, a disposição também. Eu corria, me atrasava, o sapato doía, a mochila pesava de novo. Adoecia uma vez na semana. Engraçado não termos conseguido nos encaixar em nada daquilo.

Das coisas que mais me lembro é de como terminávamos muitas de nossas noites. Naquela pizzaria de quatro mesas, pequena e barata, perdida no meio da grande avenida no centro. Tudo ao redor fechava, enquanto a pizzaria permanecia aberta até mais tarde. Até depois de ficar escuro naquele verão de dias longos. Nas vezes em que estivemos na rua sob noite escura, muitas vezes era ali que estávamos, que parávamos, sentávamos para aquela pizza de massa fina e pouco recheio. E falávamos sobre o que sentíamos ali, sobre o que pensávamos daquelas pessoas ao nosso redor, daqueles planos que tinham nos abandonado, e dos planos que tínhamos abandonado deliberadamente. Falávamos de nós muito propriamente, muito deliberadamente. Sem queixas acompanhando, ficávamos um diante do outro, comendo uma fatia após a outra, esperando a cidade adormecer ainda mais, enquanto o pizzaiolo aturava nossa português por mais uma noite.

Consigo lembrar de tudo e imaginar uma câmera que nos filma de fora da porta de vidro e se distancia à medida que a conversa não cessa. Mostrando os dois sofás circundando as quatro mesas, as cadeiras defronte os sofás, o balcão e o pizzaiolo por trás dele. Poucos metros quadrados de cenas repetidas. De conversas diferentes, que terminavam e antecipavam aqueles dias esquisitos que a gente vivia. Enquanto eu vejo isso, toca alguma música para embalar a cena. Para que eu me veja falando e você ouvindo, você sorrindo e eu comendo lentamente a pizza repetida. Nossos dias iguais e diferentes.

Tudo para depois terminarmos naquele quarto que não era nosso, naquela cama de casal onde outros casais já deveriam ter estado, e para de novo eu pôr meus pés gelados colados em você, porque eu só poderia aguentar o frio se fosse assim, com você toda noite.

Eu vejo essas imagens com uma trilha sonora que não consigo identificar, ainda. No caso, escolher. Vejo a cena se repetir de um jeito cinematográfico, como disse, e por saber o que aqueles dias significavam, o que eu e você pensávamos vivendo aquelas semanas atípicas em Dublin, fico resumindo tudo a uma situação em que estava mais ou menos tudo errado, e mais ou menos tudo certo também. Uns encaixes que não eram perfeitos, e também com desencaixes que pareciam sob encomenda pra nós dois.

Um todo mais ou menos pelo avesso, mais ou menos errado. E exatamente por ser daquele jeito: parece estar completamente certo. Me pego pensando que o amor só deve de ser isso. Essa coisa disforme que é molde. Que é nosso. Que se encaixa.

Se amor não for isso, também não faço a mínima ideia do que seja. Nem vou querer saber. Prefiro mesmo ficar com o que temos hoje. E com essa câmera e música que põem o foco em nós dois, nesses dias nossos, iguais e diferentes.

Nenhum comentário: