quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Dia de despedida

A madrugada estava em silêncio absoluto, interrompido por carros freando de vez em quando (ainda não entendo porque isso acontece tanto de madrugada por aqui).
Saí de casa perto de nove horas, e os flanelinhas já estavam ocupadíssimos aqui na rua, guiando outras pessoas ocupadíssimas que chegavam ou saíam de consultas médicas e fisioterapia.
Muita gente andando pela rua. Muita gente dirigindo pelas ruas.
Fez muito calor. Fez sol. Foi um dia bonito. Um irlandês teria repetido centenas de vezes como o dia estava bonito hoje.
Quase não olhei para o céu.
Vi poucas pessoas olhando para o céu.

E os sujeitos iam para os seus trabalhos, para as escolas. Foram ao banco. Pagaram contas inúteis. Pagaram contas importantes. Buzinaram e fizeram alvoroço nas grandes avenidas. Os motoqueiros furaram filas de carros. Costuraram o trânsito.
Algumas pessoas chegaram atrasadas no trabalho. Poucas pessoas chegaram mais cedo ao trabalho.
Um monte de gente assistiu aula. Um monte de gente riu hoje. Muita gente franziu o rosto para o dia. Se sentiu incompreendido em algum momento.
Alguém sentiu-se mal.
Alguém começou a namorar hoje.
Alguém lembrou do ex e chorou.
Alguns fizeram aniversário.
Quase ninguém dirigiu à esmo, pensando na vida. Pouca gente escreveu.
Muita gente leu notícias. Milhares viram fotos atuais.
Alguns pensaram no passado.
Bebês nasceram, claro.
Telefones tocaram sem parar - a maior parte deles no silencioso.
Diversas pessoas não se olharam nos olhos, mesmo tendo passado horas juntas.
Diversas pessoas trabalharam por mais um dia inteiro, sem se perguntarem por que estavam fazendo aquilo - nem por quem.
Algumas pessoas se sentiram frustradas consigo próprias hoje.
Alguém se queixou de como o tempo passa rápido.

Depois o céu ficou escuro. O trânsito ficou intenso. Dezessete de setembro de dois mil e quatorze se encerrava: que foi um dia comum para quase todas as pessoas que vi, ouvi, pensei sobre. Um dia comum para quase todas as pessoas que não conheço e que nunca vou conhecer. Um dia comum no mundo inteiro.

O dia em que tive de me despedir de voinha, no sentido prático e não espiritual da palavra. O dia em que nenhuma outra coisa fez sentido em haver, acontecer, se repetir. E que tive consciência de como ficamos alheios ao mundo inteiro quando temos uma despedida definitiva para atravessar.
Tudo acontece; e nada importa. A dor da saudade retira qualquer sentido que um dia como o de hoje pode guardar. E me martelou o dia inteiro: eu nunca falei a voinha que eu a amo.

E quando me dei conta disso, o dia de hoje e todos os anteriores fizeram menos sentido ainda.

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