quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Histórias que fazem falta

Até pensei em escrever pra ele e dizer que, olha, eu queria um livro novo seu, porque já li todos, já li as colunas do jornal, já reli os contos do pdf também. Ele ia pensar que isso só pode ser castigo; gente desconhecida enviando e-mail pedindo livro novo. Uma encheção de saco, como se escrever livro fosse fácil como escrever um e-mail enchendo o saco dos outros.

Falei pro Otávio esses dias: vou ter que reler algum dos livros, então. Não tem livro novo, já li tudo, já li o que foi pros jornais. Ele saiu dos jornais (não sei até quando). E ao mesmo tempo eu não queria repetir os livros. Porque a experiência de lê-los foi mais singular e extrema do que quase toda a literatura que eu já li: ler de novo aqueles livros seria ler de novo coisas minhas que eu venho fazendo questão de esquecer (ou de só contar para mim mesma).

Mas fui reler Até o Dia em que o Cão Morreu, na desculpa de que eu tinha uns textos sob encomenda pela frente. Comecei a ler e anotei algumas coisas. Comecei a ler e me perdi e me encontrei dentro do livro - como da outra vez, como com os outros livros.

Lembrei do desespero solitário que senti lendo O Cão na primeira vez. E de como isso se repetiu. E de como essa solidão, ao longo da história, me soa mais natural do que estar acompanhado e em busca de algo. De como eu me sentia melhor acolhida dentro do apartamento vazio (e de tudo que isso possa significar) do que pertencendo a um lugar qualquer.

Aconteceu parecido quando estive assistindo à história de Mãos de Cavalo. Eu lendo aquela espécie de solidão elevada (é assim que chamo, é como entendo e como não consigo explicar, paciência), uma ilusão de ter tudo e uma certeza de não ter absolutamente nada, ou uma certeza de ter tudo e de não saber o que fazer com isso. A etapa posterior à realização do desejo: o vazio. Mais vazio. Li esse livro durante uma viagem, longe de casa, em lugar frio (em todos os sentidos), e lembro de ter me sentido melhor com o livro no colo. Como se o livro me ajustasse melhor no mundo - se é que isso existe. Como se a empatia de alguém que não me conhece me transmitisse uma real tranquilidade.

E quando li o Barba, sentia que podia ouvir aquela história para sempre. A história que o personagem contava pra mim. Você sabe que, nos melhores livros, a gente não lê muita coisa. A gente senta de frente ou bem ao lado do personagem e fica ouvindo a história que ele conta. A voz que ele tem. A presença que ele vai deixando, ao longo da história e depois dela. Eu me sobrava dentro dele, podendo entender aquele universo como se fosse meu, e desejando e tendo medo de viver tudo aquilo também. Se é que eu não já vinha vivendo algo parecido.

A experiência mais chocante e intensa tive com o Cordilheira. Depois de lê-lo, não consegui escrever nada sobre o livro, nem me aproximar, nem manuseá-lo novamente. Me assustei em todos os capítulos, e devo ter sublinhado parágrafos inteiros, comentado páginas à mão livre, arregalado os olhos em algumas passagens e sufocado algum grito de "Ei!, quem pensou isso fui eu". A confiança na fuga e o desejo desespero de ter um bebê; querer especificamente o que nunca se teve, sem saber se esse é um desejo genuíno ou não. Dias depois, meu namorado falou no café da manhã: no meio da noite, achei que você tinha parado de respirar; quase não dava pra perceber sua respiração. E até hoje ele se assusta. Diz que, enquanto durmo, ele encosta o ouvido nas minhas costas para sentir minha respiração - quase nula durante o sono. Anita. Anita.

E nunca vivi nada parecido com isso tudo em livro nenhum, em autor nenhum. Nem em filme, nem em arte, que eu não sou tão sensível assim pra arte nem pra música, e o último filme que me identifiquei foi o de uma menina que queria ser escritora mas que era péssima e que ninguém queria lê-la. Minhas interpretações não vão muito além disso. E por isso sinto falta de livros como esses, do que acontece comigo enquanto os leio.

Por isso pensei em escrever e pedir um livro novo para breve. Para logo. Como se as palavras e as histórias dele me faltassem. Como se eu precisasse de mais personagens pensando "os mesmos pensamentos que eu". Como se eu precisasse desses personagens que são espelhos de mim, espelhos não superficiais.

Mas talvez esse seja um problema de narcisismo que eu precise resolver. Não vou escrever pra ninguém não.

Se bem que: hoje o professor falou que vai cair um conto dele na próxima prova. É uma boa desculpa. "Você não sabe! Vai cair um conto seu na minha prova [que novidade, minha filha], legal, né? [não sei, quem vai fazer a prova é você]." E aí eu perguntava por um livro novo, quando que sai, e se tem volta pro jornal, estou sentindo falta do que você escreve, nossa!, olha... Não, melhor não.

Vão vocês ler Daniel Galera. Mesmo que não caia na prova semana que vem.

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