quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Um dia inteiro antes do fim

Acordei carregada de uma certeza desconhecida de que daria tudo certo para mim agora. De que eu superaria as novas dores velhas de uma vez, de que isso passaria em breve. Acordei confiante e pus música para tocar. Repeti a música. Escrevi uns textos na cabeça.

Dirigi até a Via Costeira quando me deparei com a proibição de seguir. Mais um desmoronamento. Mais chuva. Mais gente pobre sendo confundida com saco de nada e perdendo suas coisas outra vez. Foi isso? Os ricos iam e vinham em seus veículos grandes; eram os únicos autorizados a passarem por ali para entrarem e saírem de seus apartamentos luxuosos. Dei a volta. Perdi tempo.

Cheguei com atraso na aula. A primeira aula foi dispensável - como a maior parte das aulas dessa disciplina. No começo da segunda aula caí em choro copioso e tive de ir embora quase que correndo.

Desabafei em prantos e me acalmei. E não resolveu nem resolvi nada. Segui. Tinha sessão com a psicóloga pela frente; era preciso economizar umas lágrimas e lamúrias. A supervisora dela pode estar precisando de uma agitação no meio da semana. (Se ela tiver supervisora.)

O suco de laranja da padaria estava pior do que qualquer suco de laranja que eu já fiz na vida. Só que nunca fiz nenhum, não.

Na escola tudo correu bem. Milagrosamente. Terminei a tarde satisfeita e com vontade de chorar novamente. O fim do dia está produzindo melancolia e estado moribundo também - por isso melhor que eu sempre esteja pela rua nesse horário.

Desci até a Ribeira para saber do meu pai o que ele tinha para me contar hoje. Mais cansado que o normal. Depois de cinquenta anos escrevendo diariamente, as pessoas ficam assim. Ficam? Me faltam quarenta. Mas como não escrevo a sério nem nada sério, tenho de ter pelo menos mais cem para ficar cansada como ele.

Li diários de viagens dos meus escritores preferidos. Estou carente das histórias que eles contam. Já li tudo. Quero novos romances e novas palavras que só eles sabem escrever. Penso em como as pessoas banalizam os autores contemporâneos e como só vão lê-los daqui a oitenta anos, quando eles estiverem mortos. E penso nos professores de literatura que existirão daqui a oitenta anos dizendo, em sala de aula, como eles foram "grandes caras", "grandes escritoras", e mais. Tenho pena de todos. Menos de mim que os leio com tesão.

Quero livros para me perder dentro deles.

E agora me resta a matéria para a prova de amanhã. Aula da manhã cancelada. Dia mais longo. Sono mais comprido. Alívio.

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