terça-feira, 28 de outubro de 2014

Para pular o almoço

Depois que vovó morreu, o almoço perdeu o gosto, e almoçar não tem mais sentido nenhum. A comida não serve de nada, só preenche um buraco, e um buraco que pode ser grande como for, precisa de bem pouco pra se sentir cheio. "Tá bom, pode parar" o estômago fica dizendo depois de três ou quatro garfadas.

A comida é ruim, sendo boa como for. Me chega ruim na boca, na língua, passando pela garganta e chegando no estômago. É só um ritual que eu cumpro por motivos de saúde e de impaciência para a encheção de saco ('mas você precisa se alimentar', etc). Se eu pudesse, pularia. Mas eu passo mal depois, e por isso cumpro o ritual. O hábito. O almoço agora é só um hábito. Indispensável, chato, e que eu aperto em poucos minutos, pra não me demorar nesse negócio que ficou com jeito de ausência.

Almoçar agora é ausência. E sentir falta. E pedir que chegue logo o lanche e a janta e qualquer outra coisa, mas que o almoço passe rápido, porque se não posso almoçar com minha avó na casa dela, melhor que nem almoce, melhor que não exista mais almoço. Poderíamos suspender o almoço dos dias. E essa refeição não existir mais.

A ausência ia ficar. Mas eu ia senti-la bem menos. E o dia não teria essa pausa dramática e solitária que agora tem.

Sonhei com a morte

Eu estava na porta da casa onde eu estava morando. Casa estreita, fachada branca, portão de grades, portão também estreito - não havia garagem - e defronte uma rua larga de paralelepípedos. Igual a uma rua em que passo todos os dias. Igual a uma casa em que já passei na frente várias vezes.

Eu no batente da entrada e o pessoal ia entrando pra me visitar. Gente da minha família. Eu que nunca recebo visita de família nem de quase ninguém. Visita é um negócio difícil de lidar, eu acho. Só recebo amigo na minha casa, e só quando eles deixam de ser visita - são os grandes amigos. O pessoal ia entrando e falava que eu vinha com uma cara péssima. Eu dizia que não estava conseguindo comer nem dormir quase nada. Eu estava perturbada. Aquela casa me perturbava, eu senti, eu lembro de ter sentido no sonho, de ter sonhado que sentia, mas não disse nada no sonho. Nem quando acordei. O lugar me perturbando o juízo e os sentimentos todos.

Entramos no quarto e éramos uns cinco. Falei de não me sentir tão bem ali, de uma forma que fosse sutil e que não preocupasse ninguém. Eu estava preocupada comigo mas ligeiramente acomodada a isso. Eu, na vida real, vivo preocupada comigo mas ligeiramente acomodada com isso. Ou completamente acomodada com isso. A gente sonha com o que a gente é.

E lá no primeiro quarto do corredor, cenário igualzinho à da casa da minha avó. No sonho lembro de também sentir saudades da minha avó. A minha avó já tinha se ido, no meu sonho. A minha avó que partiu faz pouco tempo.

Duas camas dentro do quarto, uma em cada parede, uma delas dando exatamente de frente para a porta. Duas pessoas na cama de lá, três na cama de cá, eu estou na ponta, perto da porta. A gente falava da casa, de eu me sentir esquisita e de a casa não fazer bem de alguma maneira. Meu primo começa a contar da história que sabe: da moça que morrera ali dentro, que havia sido enterrada no quintal. Mas que história clichê. Não gosto. Eu acredito em tudo. No sonho, eu também começo a acreditar na história. Nos meus sonhos eu acredito em tudo também. A moça passou oito anos adoecendo; adoeceu fortemente três vezes. E no fim de oito anos, morreu ali.

Mas sim, ele começa a contar a história e todos prestam um pouco de atenção, mas o clima não é pesado pra eles. É só pra mim, que não estou bem. Estou bem ao lado da minha tia, perto da porta do quarto, perto do corredor. Escuto um barulho lá de dentro, lá da parte de trás da casa. Sou medrosa, acredito em tudo: mudo de posição. Não vou ficar perto da porta, eu não. O barulho é nítido. E se repete. Parece alguém que vem vindo. No último barulho, todos têm certeza: alguém - que não estava em casa - vinha vindo da parte de trás da casa. Todos olham para a corredor para ver o que é o barulho, descrentes de que verão algo: e então sou eu que passo em frente à eles, andando pelo corredor, em direção à sala. Ajeito o cabelo com a mão direita, olho para todos no quarto, e também estou vestindo a mesma roupa (vestido azul) que naquela hora. Eu olho assustada. Todos olham assustados. Eu entendo rápido. Eles entendem logo.

Me ponho a gritar em desespero sem que nenhum som saia da minha boca, como sempre acontece nos sonhos, quando a gente quer pedir socorro ou ter a liberdade de se desesperar. Passo a abocanhar as palavras e esbravejar as lágrimas que também não saem; ando e corro pelo quarto, olho nos olhos de todos eles, faço eles me verem e digo que vi, que estou vendo, que era eu, e eles sabem. Bato no peito gritando 'eu vi, eu vi', os sons não saem, não existe barulho, só pavor. E o que passa a doer mais não foi o que acabei de ver há poucos segundos, mas a impossibilidade de ficar desesperada como eu quero, como eu preciso ficar naquela hora.

Insisto em ferir minha garganta gritando silêncios, chacoalho os braços para que eles vejam o meu desespero sem som. Todos entendem. Todos sabem exatamente o que vai acontecer.

Oito anos. Eu já estava dentro deles. Já tinha começado a morrer.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sem parar

Não vai caber tudo dentro de vinte e quatro horas e já estou cansada antes de acordar, dormindo, ainda cansada, que não deu pra descansar tudo, a sequência do dia vai ser muita.
Não deu tempo de comprar nada pra comer no café da manhã hoje. Até porque supermercado toma muito tempo.
Pelo menos ainda tem café.
Já trabalho.
Já tenho raiva.
Olha que não dá pra fazer muita coisa ao mesmo tempo quando a maior parte das suas atividades depende de outras pessoas. Os chefes. Os chefes dão mais trabalho do que as pessoas que trabalham pros chefes. É sempre assim.
É sempre assim?
É gente demais pra me cobrar e pouca gente pra eu cobrar de volta. Essa balança tá mais injusta que minha equação entre atividades e tempo livre.
Não sei o que é tempo livre.
Cheguei atrasada de novo.
Fiz o texto antes de todo mundo, porque fiz sozinha.
É o que sempre digo. fazer tudo sozinho deixa o dia mais rápido, cabe mais coisa.
Mas eu não posso fazer tudo sozinha porque sempre tem alguém pra trabalhar junto comigo, só que atrapalhando. Aí acaba o dia e não faço nada. Aí acaba comigo também.
Aqueles trabalhos que não se movem. Trabalhos em grupo, claro.
Pelo menos isso aqui dá pra fazer sozinha.
Editorial.
Veja só, se dá pra escrever editorial à quatro mãos. Se dá pra escrever alguma coisa a quatro mãos. É impossível escrever em dupla. Escrever é atividade de gente só, é coisa pra se fazer sozinho.
Por isso que o artigo não sai. São seis mãos. Três cabeças. Três cabeças não pensam em nada, só em fazer todas as outras coisas que der pra fazer quando a cabeça estiver sozinha.
Corre o dia.
O café do corredor é tão ruim que se eu trouxer meu café pra vender aqui capaz de ficar rica.
E me estressar menos do que tendo de escrever trabalhos a quatro ou a seis mãos.
Minha dissertação é escrita a duas mãos, mas isso é mentira, porque são duas mãos e três cabeças.
Esses excessos não fazem bem.
Tudo que eu queria era ser indormível.
Mas o que eu queria mais ainda era dormir hoje.
Acordar e escrever sobre coisa nenhuma.
Comer devagar, porque almocei tão rápido que já esqueci o que tinha no meu prato.
Estava no caminho da escola e não era a escola, era outra. No caminho da outra, e tive que voltar pra casa. Não estava lá quem deveria estar.
Eu calculo por quantos minutos eu poderia ter dormido.
Eu imagino que no meu pescoço anda um crachá pendurado dizendo Adoro Trabalhar Me Chame Agora, e na minha testa uma tatuagem que só eu não vejo que diz Não Sei Dizer Não.
Aí eu vou fazendo tudo de muito, pouco de mim.
Resta quase nada meu no fim do dia.
Eu penso que gente otária vive mais cansada.
Eu vivo cansada demais.
O dia vai na metade. A sensação é de que ele é interminável.

E vai.
Ainda falta muito pra hoje. Hoje que vai até amanhã e depois. Sem parar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

V. H. Mãe

Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas. 
Quando empedernir, esquecido de toda a humanidade da vida, ficará entre as loiças, como inútil souvenir ou peça de mesa para uma festa que nunca acontecerá. 
Terei sempre pena dele. Estará como um animal antigo que perdeu a qualidade dos novos dias. Sem visitas. Será apenas a humilhação entristecedora de todos os afetos. 
Poderei, nas arrumações, preparando alguma partida, aligeirando os fardos, deixá-lo no lixo para que a natureza o recicle com as suas ganas aturadas de começar tudo. Até lá, a minha coragem assume apenas a evidência de que somos matéria morrendo. Começarei morrendo pelo coração. 
Gostarei sempre dele, como se gosta do que está extinto, sejam os dragões, os anjos ou as distâncias. Histórias de coisas que não voltam. 
O meu coração sem visitas perderá a memória, e, quando nos separarmos de vez, certamente será mais feliz. 
Se me perguntarem, direi que nasci sem ele. Jurarei e mentirei sempre. 
Talvez, depois de esquecido, sirva de ocarina e possa com ele tocar canções. Um coração por ocarina faria todo o sentido do mundo. 
Pudesse esse ser o destino de cada um, amadurecer assim o coração. De percussão a instrumento de sopro. Ensaiar uma melodia até o fim. Ter uma melodia por identidade e deixá-la a alguém que a aprendesse. Quando não existíssemos, estaríamos suficientemente no som. Bastaria o som para impedir que a morte fosse tão exagerada. Talvez quem aprendesse a canção pudesse também guardar-nos as paixões. Pousá-las ao pé de si. Dizer: esta ocarina é bonita. A morte seria só bonita. Uma coisa de ouvir contra o silêncio insuportável.

Antes de dormir

Mordia os pulsos durante a noite, antes de dormir, se mordia inteira. Mordia pulso e o braço, e toda a parte de dentro do antebraço, a parte mais clara, mais branca, sem pêlos, não queria morder os próprios pêlos. Fazia força segura e sustentava a mordida em intervalos cada vez maiores. Não olhava o tamanho dos sulcos que ficavam na hora: toda manhã era uma decepção - sobravam muito poucos. Então pensava nisso e mordia mais forte, e mordia por mais tempo.

Já tinha deixado de chorar havia meses. E à essa altura já se sentia tão sozinha que a solidão não incomodava mais. Sentia todas as dores, ainda, todas todas, via os arranhões externos e vermelhos que não sabia onde os tinha conseguido. E sentia as dores no peito e na garganta, dores de quem morre devagar, dores invisíveis aos olhos e ao espelho.

Mordia. As mordidas ardiam e o melhor momento era quando a dor era tanta que anestesiava. Como quando você se sente tão sozinha que não sente mais a solidão pesada, presente, real. Como quando você sente uma tristeza tão profunda que passa a se sentir tranquila carregando-a por dentro do corpo.

Mordia para sentir uma dor ainda mais forte, uma dor mais pesada e crua. E pensando em dores cruas pensava na sua própria carne sendo dilacerada, assim, noite a noite, mordida após mordida, com tristeza plácida e solidão que acompanhava. Era toda ela.

Mordia mais demorado. Dores maiores apagam qualquer infortúnio menor. Mordia mais firme. Pois se ferir é mais confortável do que ser ferido por outrem: dá pra saber quando vai vir, quando começa, por quanto tempo vai durar; você tem total controle de tudo. E ainda distrai, ela pensou. E ainda distrai de outras dores.

Mordia. Até adormecer, até faltaram-lhe os espaços limpos e brancos, até as veias parecerem reclamar e ficarem mais verdes e mais saltadas, até a dor ferir de um jeito que chamasse o próprio desespero. Nesse ápice, a dor fica branda, a dor cansa um pouco, e ela adormece.

Quando amanhecer, vai conferir quantos sulcos sobraram pela pele.

Estranhices

O cara pedalava a bicicleta e seguia rápido no trânsito pela direita. Ele só tinha uma perna, e no braço esquerdo ainda conseguia segurar sua muleta - dessas grandes, quase do tamanho de uma pessoa. Ele ia rápido, era hora de trânsito pesado, era avenida Prudente de Morais.

Eu até hoje não aprendi a andar de bicicleta.

A aluna na sala de aula leva a filha para assistir aula com ela, a filha criança. A aluna passa a aula todinha no celular, também chega atrasada, também demora a voltar do intervalo. A filha criança volta do intervalo antes que a mãe. A filha criança não paga a disciplina.

O livro maravilhoso terminou de um jeito terrível. Valter Hugo Mãe assassinou meu coração e eu segurei o choro.

Tenho vontade de chorar o tempo todo. E choro quase todas as vezes em que tenho vontade.

Tenho vontade de fumar a maior parte do tempo. Não fumo.

A moça entrou no restaurante onde não tinha quase ninguém. Sentou em cinco mesas diferentes, de cada uma das mesas fazia uma pergunta à garçonete. Não fazia o pedido. Mudava de mesa. Tinha os cabelos embaraçados, louros, opacos, soltos como se estivessem revoltados. Ela claramente não se importava com os cabelos revoltados nem com muita coisa ao seu redor. Mudava de lugar novamente. Fazia outra pergunta. Parecia normal, à primeira vista. Me deixou inquieta e fez a garçonete se perguntar por quanto tempo ela continuaria fazendo aquilo.

Tenho um medo e um desejo absurdos de estar sozinha.

Meus pesadelos envolvem a sucessão presidencial, e não sei se me sinto finalmente adulta quando lembro disso.

Se começar a chover agora, eu vou me sentir melhor. Não sei dizer por quê.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Acostuma-se

Como se eu tivesse acordado com uma tristeza simplória. Simplória e infinita. Leve e minha, toda minha, como se aquele peso todo já fosse eu. Já devo ser mesmo. Mas pesando menos, ou mais acostumada ao peso grande.

A gente se acostuma a tudo. A tudo mesmo. Foi como se eu tivesse me acostumado ao tamanho da dor e a tudo que ela representa. A todos os caminhos da cidade que me fazem assim e a todas as lembranças que estão aí mais presentes do que meu presente inteiro. A gente se acostuma a tudo. Até a nossa tristeza, até a tristeza grande demais, firme demais.

E leveza que passou a existir, mesmo bem triste, parece a garantia de ter aceitado. O que aconteceu e o que continua a acontecer - momentos que incluem estar assim, sôfrega. Como se sofrer não incomodasse tanto mais, como se a dor contínua no peito desse lugar a uma melancolia serena, bem minha e bem própria. Como se eu já estivesse sendo tudo isso.

Já estou sendo tudo isso, e faz tempo. Agora aceitei mais. Agora as coisas assentaram-se, os vazios continuam vazios, mas ocupando seus respectivos lugares como espaços de direito. Porque vazios estarão eles por ainda mais tempo, talvez para sempre.

Talvez eu fique assim para sempre. Talvez. Mas a gente se acostuma a tudo, até a ser triste, até a ter vazios, a ter pedaços faltando. Os pedaços que faltam me desesperam menos.

Como se houvesse um modo de ser feliz e triste ao mesmo tempo, triste e feliz ao mesmo tempo. Existe.

E a gente se acostuma a ser assim também.

sábado, 11 de outubro de 2014

São loucos

Ela dizia repetidamente que não, que surtar não era loucura nenhuma, que gritar os gritos e os demônios do corpo não era ruim nem era loucura feita nem era enlouquecer, que ficar louco era totalmente diferente disso, era muito longe disso também, ela disse que loucura era ser normal demais, o que a gente chama de normal demais, ela disse, o que vocês acham que é normal demais, que é sempre normal, na verdade é ser louco, isso de fazer tudo igual todos os dias do ano por muitos anos, muitos anos!, sempre de oito às doze e de duas às seis e depois chegar em casa e fazer tudo igual novamente, e no outro dia, de novo, de novo, de novo, uma vida inteira assim, repetindo, fingindo que vive quando na verdade nada faz, nada faz!, nem existe, nem sequer existe, isso que é loucura, isso que é estar louco, e sabe o que mais, sabe o que confirma que isso é loucura, é que quem faz isso acha que isso é normal e bom, que é pra ser assim, porque só um louco pensa no que faz como sendo algo normal, que é esse caso, quando a pessoa nem pensa mais no que faz de tão normal que já acha que é, tá vendo, isso é loucura, e ficaram com medo de mim porque comecei a gritar muito alto e a correr abrindo a boca pra tomar a chuva, só porque eu queria sentir o gosto da água suja que a chuva pode ter, é o que a chuva pode ser, e porque comecei a correr em círculos e a gritar pro chão, porque pra cima vinha a chuva descendo e eu não queria interromper a chuva, então comecei a gritar para o chão mais alto e mais alto e todos começaram a dizer que eu estava louca. 

Quando terminei, eu estava feliz.
E depois que terminei, eles voltaram a fazer tudo igual ao que estavam fazendo antes, tudo igual ao que vão fazer para o resto da vida. Loucuras. Foram fazer loucuras. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sou

Sou bicho podre e sozinho. Bicho podre de carne crua carne exposta.
Sou bicho mudo e triste, que grita por dentro do estômago e se sufoca.
Bicho vazio e doente.
Que fala sozinho e fala baixo, e murmura o tempo inteiro.
Sou o resto de facadas mal dadas no pescoço, facadas dadas para soltar choro preso.
A garganta ferida.
Sou bicho dos olhos aguados.
Sou bicho de morte. Bicho que morre todo dia, sem fome, sem cor de nenhuma coisa.
Na agonia da morte lenta.
Sou bicho que se mata aos poucos. E vai.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A gente só

Eu não. Eu tenho medo de gente sozinha. Eu olho pra ele, chegando na sala de aula, com cara de quem fala pouco o dia inteiro porque não tem com quem conversar. Eu tenho medo de gente que não tem muito com quem conversar. Não sei se essas pessoas se tornam pessoas desesperadas por falar demais e por serem sempre ouvidas. Ou se deixam de se importar com isso e com tudo o que isso implica - contato.

Tenho medo de quem não tem contato com os outros. De quem chega em casa e tem silêncio. Sai de casa e deixa silêncio. Deita pra dormir e só ouve o silêncio, e se acorda no meio da madrugada tem de lidar com o silêncio de novo. Um silêncio ensurdecedor das vozes reais. Só tem barulho se as vozes forem da música e da televisão. Não quero. Não dá. Tenho medo de quem ouve poucas vozes reais durante o dia porque acho que isso enlouquece um pouco.

Você almoçando e sem ter com quem falar. Você cortando as unhas do pé, de noite, depois do banho, e ninguém pra te ouvir reclamar que a vida é chata e que fica mais chata quando você tem que parar o que tem que fazer pra cortar as unhas dos pés. Eu ia terminar cortando os dedos no lugar das unhas. Sem querer.

Eu tenho medo de quem se acomoda e gosta disso e vive assim. E quando chega na aula está sozinho e calado, e quando eu vejo andando pela rua está sozinho e calado também. Quando chegar em casa, tudo igual. Os anos passando. A ausência de casamento e de filhos. Não tem casal nem tem criança nem tem nada além da pessoa, só. Da pessoa só. Só de sozinha.

Eu tenho medo de quem gosta de ser assim. De quem aprendeu a ser sozinho e que não se desespera nem enlouquece em ser assim.

Porque na verdade eu tenho medo é de ficar sozinha. E de enlouquecer - sem ter ninguém pra ver nem me escutar gritando de loucura.

Mas gritar é coisa de gente sozinha, Afonso Cruz disse.

Eu sinto vontade de gritar o tempo inteiro.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Solidão continuada

Um silêncio que não foi pedido. Um passado que não esqueci. Um presente que não me dou conta que tenho. Presentes que não me dou conta que tenho, que ganho. Ausências premiadas. Universos distantes, mais silêncio. Saudades de outros passados. Dos barulhos e conversas. E-mails que não são respondidos. Cartas que nunca foram enviadas. As mensagens que guardei. O ano que acaba e a saudade que paira. Vem mais pela frente. Mais silêncio e menos respostas, mais ausência.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

VHMãe

Sente-se como uma dor de estômago mais a fundo. Como se o estômago estivesse a descer e a querer sair pernas abaixo. O meu pai perguntou: a morte. E eu respondi: não. As flores das mulheres. O sangue apodrece e cheira mais forte. Corre dentro como um bocado de fogo raivoso, porque me arde. Expliquei assim. Mas o meu pai não conversou mais nada. Teve vergonha. A minha mãe disse que era um pequeno vulcão. São as flores das mulheres. São de sangue. São de lume. Magoam. Todos me falavam de passar a ser mulher e sobre o que isso significava de perigo e condenação. Ser mulher, explicavam, era como ter o trabalho todo do que respeita à humanidade. Que os homens eram para tarefas avulsas, umas participações quase nenhumas. Serviam para quase nada. Como se fossem traves de madeira que se usavam momentaneamente para segurar um teto que ameaçasse cair. Se não valessem pela força, nunca valeriam por motivo algum, porque de coração estavam sempre mal feitos. Eram gulosos, pouco definidos, mudavam com facilidade os desejos, não conheciam a lealdade passional, concebiam apenas engenharias e mediam até os amores pelo lado prático da beleza, gostavam sempre de quem lhes parecesse dar mais jeito, como se procurassem empregadas ao invés de esposas, como se precisassem de precaver os seus próprios defeitos mais do que as virtudes livres das mulheres.

Valter Hugo Mãe.
A desumanização.

Tal pai, tal pai.

Era uma das primeiras aulas da primeira disciplina de leitura e produção de texto. Ler e escrever, ler e escrever, o que a gente supostamente fazia por ali. Eu cheguei atrasada depois do trânsito típico das obras da Copa, e a professora tinha acabado de completar a chamada. Perguntou meu nome, para pôr a presença. Eu acho que disse só o primeiro nome (não devia ter outra Beatriz na turma), mas ela olhou meu sobrenome e na mesma hora perguntou, antes que eu me sentasse, inclusive: se eu era parenta do meu pai. "Sou filha", respondi. Ela fez uma cara de quem recebeu uma notícia semi-impressionante. Uma cara que até hoje não sei necessariamente o que queria dizer.

Passou.

Semanas depois, a professora começou uma maratona de produção de texto. Finalmente. Porque, até então, com a professora anterior, a gente só tinha visto teoria teórica! A mulher de agora botava a gente pra escrever. Na sala de aula ou em casa.

Ela estava num congresso quando eu escrevi um conto, à mando dela, e enviei logo por e-mail, na data combinada. Ela elogiou meu trabalho, disse que eu escrevia bem. E fez questão de complementar algo sobre meus genes, minha herança genética, como se fossem estas as responsáveis por um texto bem escrito.

Semanas depois, ela premiaria com livros os melhores contos na turma. O meu ficou em 4º lugar. Eu nem merecia receber livro, já que 4º lugar é 4º lugar. Mas enfim. Acho mesmo é que ela queria me dar o livro que fala de trabalhos anteriores do meu pai, livro escrito por ela. Mas as motivações dela não me interessam. De novo, eu voltava para a cadeira, e, ainda em pé, ela elogiou meu trabalho novamente, e fez questão de dizer outra vez: mas também, sendo filha de quem é. Disse isso com um sorriso no rosto, sem deboche, sendo felizmente sincera, mesmo.

Eu gostava bastante dessa professora. E ainda gosto. Mas tive de ficar pelo menos ofendida a cada vez que ela disse isso. Lembro da Ana Elisa Ribeiro falando para uma turma de estudantes do ensino médio: que esquecessem essa história de que escrever é 'dom', que todo mundo devia escrever, sim, porque boa escrita é resultado de trabalho. Ana disse em seguida: quando alguém fala que eu tenho o 'dom' de escrever, eu sinto que essa pessoa está menosprezando meu trabalho, porque eu escrevo todos os dias.

Às vezes eu escondo que sou filha do meu pai. Pelo menos quando sei que um comentário desse pode surgir. Porque eu também escrevo todos os dias. E apesar de achar que não escrevo nada de excepcionalmente bom, tenho certeza de que o que sai melhor não é por causa dele, mas por causa do que eu faço, todos os dias, sozinha, só ouvindo meu silêncio. Eu quis dizer à professora que não são meus genes que escrevem os textos, só minha cabeça ruim e minha disposição mesmo. Mas passou.

E eu lembrei dessa história comprida e chata quando olhava, ontem, a lista dos deputados federais eleitos pelo estado da gente. Eleitos pelo povo que vive aqui, que mora aqui. Milhares de pessoas pensam igual à minha professora: os filhos são feito os pais, são quase que a mesma coisa, por isso vamos manter todo mundo em seu lugar, vamos respeitar a sucessão hereditária. Somos capitania hereditária, pois bem.

Não é necessário pensar se o que o descendente faz é trabalho dele; aliás, não é necessário buscar qual é o trabalho dele. Porque o pai já fez. No meu caso, pelo menos, a professora leu o conto, deu uma olhada no meu trabalho, e só os créditos é que foram dados de forma meio errada. No caso de ontem, não sei sinceramente qual o conceito de trabalho e de crédito que os eleitores se valeram.

O problema: é que a professora tentava me elogiar, mesmo que de um modo torto, porque ela acha que meu pai faz um bom trabalho. O problema maior: é que sobre os pais e os filhos que milhares elegem para nos representar, eu não acho que deva dizer a mesma coisa.

sábado, 4 de outubro de 2014

Ainda bem que deu errado

Esse livro é dedicado a tudo que deu errado, foi o que li no livro, no livro de poesias, a dedicação e agradecimento a tudo que deu errado. Tudo que deu errado terminou naquelas palavras, nas estrofes tortas, e no tudo que veio depois.

Ainda bem que deu errado. Depois que demos errado, depois do profundo nada, depois das dores matadoras, depois que a gente se esbarrou e se espancou enquanto pensava se amar. O depois me deu sóis.

Conheci países. Pessoas. Amores. Tive amor novo, grande, sadio: o meu próprio. Fotografei com os olhos lugares novos, e tirei novas fotografias dos lugares velhos que conheci com você. Escrevi. Escrevi você nos papéis, nas paredes, no meu teto. Passei uma tinta lilás por cima das palavras onde te escrevi. Deixei meu teto na minha cor preferida. E fui olhar pela janela de novo.

Deu tudo errado. E eu inventei pelo menos quinze ou vinte novas histórias em que tudo dava certo. Inventei outras quinze onde tudo dava errado, de novo, mas de um jeito diferente. Há várias formas de darmos errado, e só havia uma de dar certo (a que tentei com você), porque as outras que inventei eram bem mentirosas.

Ainda bem que deu tudo errado. Apesar do passado assombrando, da obsessão complexa e fria, apesar da memória me maltratar, o tudo errado me deu um presente maior e melhor do que imaginei ter. Esse agora. Nosso amor não é mais protagonista.

Ganhei o papel principal.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

exorcismos

ou solta e corre pro lado oposto
porque o desgosto
já não pode aguentar.

corre,
corre, tão pouco.
corre.

Há gosto
quando o nosso começou

E outubro
ou nada

O que restou de nós dois.

~~


não pense
que foi pouco

Foi tudo que já tive.

~~

Quando estive viva:

só não pense que foi pouco
os dias longos
os poucos meses

por algumas semanas,
tudo que tive.
por muitos anos depois,
também.

e nem é mais meu.
mas é tudo que tive,
que tenho,
até ontem.

~~

dentro do livro
de contos
as contas
que perdi
desde quando o escrevi em mim.

~~

escrevi você em mim
você se inscreveu em mim

~~

escrever é exercício,
ela disse.
escrever é exorcismo.
exorcizo.

me inscrevo.

~~

As partes em itálico foram transcritas do livro de Sinhá, Na Veste Dos Peixes As Palavras de Ontem.
As partes que não estão em itálico foi o que o livro dela me fez escrever. Sem filtro. No susto.