quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A gente só

Eu não. Eu tenho medo de gente sozinha. Eu olho pra ele, chegando na sala de aula, com cara de quem fala pouco o dia inteiro porque não tem com quem conversar. Eu tenho medo de gente que não tem muito com quem conversar. Não sei se essas pessoas se tornam pessoas desesperadas por falar demais e por serem sempre ouvidas. Ou se deixam de se importar com isso e com tudo o que isso implica - contato.

Tenho medo de quem não tem contato com os outros. De quem chega em casa e tem silêncio. Sai de casa e deixa silêncio. Deita pra dormir e só ouve o silêncio, e se acorda no meio da madrugada tem de lidar com o silêncio de novo. Um silêncio ensurdecedor das vozes reais. Só tem barulho se as vozes forem da música e da televisão. Não quero. Não dá. Tenho medo de quem ouve poucas vozes reais durante o dia porque acho que isso enlouquece um pouco.

Você almoçando e sem ter com quem falar. Você cortando as unhas do pé, de noite, depois do banho, e ninguém pra te ouvir reclamar que a vida é chata e que fica mais chata quando você tem que parar o que tem que fazer pra cortar as unhas dos pés. Eu ia terminar cortando os dedos no lugar das unhas. Sem querer.

Eu tenho medo de quem se acomoda e gosta disso e vive assim. E quando chega na aula está sozinho e calado, e quando eu vejo andando pela rua está sozinho e calado também. Quando chegar em casa, tudo igual. Os anos passando. A ausência de casamento e de filhos. Não tem casal nem tem criança nem tem nada além da pessoa, só. Da pessoa só. Só de sozinha.

Eu tenho medo de quem gosta de ser assim. De quem aprendeu a ser sozinho e que não se desespera nem enlouquece em ser assim.

Porque na verdade eu tenho medo é de ficar sozinha. E de enlouquecer - sem ter ninguém pra ver nem me escutar gritando de loucura.

Mas gritar é coisa de gente sozinha, Afonso Cruz disse.

Eu sinto vontade de gritar o tempo inteiro.

Um comentário:

Deyze Ferreira disse...

Algumas vezes, não há opção a não ser a de ser só