quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Antes de dormir

Mordia os pulsos durante a noite, antes de dormir, se mordia inteira. Mordia pulso e o braço, e toda a parte de dentro do antebraço, a parte mais clara, mais branca, sem pêlos, não queria morder os próprios pêlos. Fazia força segura e sustentava a mordida em intervalos cada vez maiores. Não olhava o tamanho dos sulcos que ficavam na hora: toda manhã era uma decepção - sobravam muito poucos. Então pensava nisso e mordia mais forte, e mordia por mais tempo.

Já tinha deixado de chorar havia meses. E à essa altura já se sentia tão sozinha que a solidão não incomodava mais. Sentia todas as dores, ainda, todas todas, via os arranhões externos e vermelhos que não sabia onde os tinha conseguido. E sentia as dores no peito e na garganta, dores de quem morre devagar, dores invisíveis aos olhos e ao espelho.

Mordia. As mordidas ardiam e o melhor momento era quando a dor era tanta que anestesiava. Como quando você se sente tão sozinha que não sente mais a solidão pesada, presente, real. Como quando você sente uma tristeza tão profunda que passa a se sentir tranquila carregando-a por dentro do corpo.

Mordia para sentir uma dor ainda mais forte, uma dor mais pesada e crua. E pensando em dores cruas pensava na sua própria carne sendo dilacerada, assim, noite a noite, mordida após mordida, com tristeza plácida e solidão que acompanhava. Era toda ela.

Mordia mais demorado. Dores maiores apagam qualquer infortúnio menor. Mordia mais firme. Pois se ferir é mais confortável do que ser ferido por outrem: dá pra saber quando vai vir, quando começa, por quanto tempo vai durar; você tem total controle de tudo. E ainda distrai, ela pensou. E ainda distrai de outras dores.

Mordia. Até adormecer, até faltaram-lhe os espaços limpos e brancos, até as veias parecerem reclamar e ficarem mais verdes e mais saltadas, até a dor ferir de um jeito que chamasse o próprio desespero. Nesse ápice, a dor fica branda, a dor cansa um pouco, e ela adormece.

Quando amanhecer, vai conferir quantos sulcos sobraram pela pele.

Um comentário:

Maíra D disse...

"E sentia as dores no peito e na garganta, dores de quem morre devagar, dores invisíveis aos olhos e ao espelho."

arre.