terça-feira, 28 de outubro de 2014

Para pular o almoço

Depois que vovó morreu, o almoço perdeu o gosto, e almoçar não tem mais sentido nenhum. A comida não serve de nada, só preenche um buraco, e um buraco que pode ser grande como for, precisa de bem pouco pra se sentir cheio. "Tá bom, pode parar" o estômago fica dizendo depois de três ou quatro garfadas.

A comida é ruim, sendo boa como for. Me chega ruim na boca, na língua, passando pela garganta e chegando no estômago. É só um ritual que eu cumpro por motivos de saúde e de impaciência para a encheção de saco ('mas você precisa se alimentar', etc). Se eu pudesse, pularia. Mas eu passo mal depois, e por isso cumpro o ritual. O hábito. O almoço agora é só um hábito. Indispensável, chato, e que eu aperto em poucos minutos, pra não me demorar nesse negócio que ficou com jeito de ausência.

Almoçar agora é ausência. E sentir falta. E pedir que chegue logo o lanche e a janta e qualquer outra coisa, mas que o almoço passe rápido, porque se não posso almoçar com minha avó na casa dela, melhor que nem almoce, melhor que não exista mais almoço. Poderíamos suspender o almoço dos dias. E essa refeição não existir mais.

A ausência ia ficar. Mas eu ia senti-la bem menos. E o dia não teria essa pausa dramática e solitária que agora tem.

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