sábado, 11 de outubro de 2014

São loucos

Ela dizia repetidamente que não, que surtar não era loucura nenhuma, que gritar os gritos e os demônios do corpo não era ruim nem era loucura feita nem era enlouquecer, que ficar louco era totalmente diferente disso, era muito longe disso também, ela disse que loucura era ser normal demais, o que a gente chama de normal demais, ela disse, o que vocês acham que é normal demais, que é sempre normal, na verdade é ser louco, isso de fazer tudo igual todos os dias do ano por muitos anos, muitos anos!, sempre de oito às doze e de duas às seis e depois chegar em casa e fazer tudo igual novamente, e no outro dia, de novo, de novo, de novo, uma vida inteira assim, repetindo, fingindo que vive quando na verdade nada faz, nada faz!, nem existe, nem sequer existe, isso que é loucura, isso que é estar louco, e sabe o que mais, sabe o que confirma que isso é loucura, é que quem faz isso acha que isso é normal e bom, que é pra ser assim, porque só um louco pensa no que faz como sendo algo normal, que é esse caso, quando a pessoa nem pensa mais no que faz de tão normal que já acha que é, tá vendo, isso é loucura, e ficaram com medo de mim porque comecei a gritar muito alto e a correr abrindo a boca pra tomar a chuva, só porque eu queria sentir o gosto da água suja que a chuva pode ter, é o que a chuva pode ser, e porque comecei a correr em círculos e a gritar pro chão, porque pra cima vinha a chuva descendo e eu não queria interromper a chuva, então comecei a gritar para o chão mais alto e mais alto e todos começaram a dizer que eu estava louca. 

Quando terminei, eu estava feliz.
E depois que terminei, eles voltaram a fazer tudo igual ao que estavam fazendo antes, tudo igual ao que vão fazer para o resto da vida. Loucuras. Foram fazer loucuras. 

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