quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sem parar

Não vai caber tudo dentro de vinte e quatro horas e já estou cansada antes de acordar, dormindo, ainda cansada, que não deu pra descansar tudo, a sequência do dia vai ser muita.
Não deu tempo de comprar nada pra comer no café da manhã hoje. Até porque supermercado toma muito tempo.
Pelo menos ainda tem café.
Já trabalho.
Já tenho raiva.
Olha que não dá pra fazer muita coisa ao mesmo tempo quando a maior parte das suas atividades depende de outras pessoas. Os chefes. Os chefes dão mais trabalho do que as pessoas que trabalham pros chefes. É sempre assim.
É sempre assim?
É gente demais pra me cobrar e pouca gente pra eu cobrar de volta. Essa balança tá mais injusta que minha equação entre atividades e tempo livre.
Não sei o que é tempo livre.
Cheguei atrasada de novo.
Fiz o texto antes de todo mundo, porque fiz sozinha.
É o que sempre digo. fazer tudo sozinho deixa o dia mais rápido, cabe mais coisa.
Mas eu não posso fazer tudo sozinha porque sempre tem alguém pra trabalhar junto comigo, só que atrapalhando. Aí acaba o dia e não faço nada. Aí acaba comigo também.
Aqueles trabalhos que não se movem. Trabalhos em grupo, claro.
Pelo menos isso aqui dá pra fazer sozinha.
Editorial.
Veja só, se dá pra escrever editorial à quatro mãos. Se dá pra escrever alguma coisa a quatro mãos. É impossível escrever em dupla. Escrever é atividade de gente só, é coisa pra se fazer sozinho.
Por isso que o artigo não sai. São seis mãos. Três cabeças. Três cabeças não pensam em nada, só em fazer todas as outras coisas que der pra fazer quando a cabeça estiver sozinha.
Corre o dia.
O café do corredor é tão ruim que se eu trouxer meu café pra vender aqui capaz de ficar rica.
E me estressar menos do que tendo de escrever trabalhos a quatro ou a seis mãos.
Minha dissertação é escrita a duas mãos, mas isso é mentira, porque são duas mãos e três cabeças.
Esses excessos não fazem bem.
Tudo que eu queria era ser indormível.
Mas o que eu queria mais ainda era dormir hoje.
Acordar e escrever sobre coisa nenhuma.
Comer devagar, porque almocei tão rápido que já esqueci o que tinha no meu prato.
Estava no caminho da escola e não era a escola, era outra. No caminho da outra, e tive que voltar pra casa. Não estava lá quem deveria estar.
Eu calculo por quantos minutos eu poderia ter dormido.
Eu imagino que no meu pescoço anda um crachá pendurado dizendo Adoro Trabalhar Me Chame Agora, e na minha testa uma tatuagem que só eu não vejo que diz Não Sei Dizer Não.
Aí eu vou fazendo tudo de muito, pouco de mim.
Resta quase nada meu no fim do dia.
Eu penso que gente otária vive mais cansada.
Eu vivo cansada demais.
O dia vai na metade. A sensação é de que ele é interminável.

E vai.
Ainda falta muito pra hoje. Hoje que vai até amanhã e depois. Sem parar.

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