terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sonhei com a morte

Eu estava na porta da casa onde eu estava morando. Casa estreita, fachada branca, portão de grades, portão também estreito - não havia garagem - e defronte uma rua larga de paralelepípedos. Igual a uma rua em que passo todos os dias. Igual a uma casa em que já passei na frente várias vezes.

Eu no batente da entrada e o pessoal ia entrando pra me visitar. Gente da minha família. Eu que nunca recebo visita de família nem de quase ninguém. Visita é um negócio difícil de lidar, eu acho. Só recebo amigo na minha casa, e só quando eles deixam de ser visita - são os grandes amigos. O pessoal ia entrando e falava que eu vinha com uma cara péssima. Eu dizia que não estava conseguindo comer nem dormir quase nada. Eu estava perturbada. Aquela casa me perturbava, eu senti, eu lembro de ter sentido no sonho, de ter sonhado que sentia, mas não disse nada no sonho. Nem quando acordei. O lugar me perturbando o juízo e os sentimentos todos.

Entramos no quarto e éramos uns cinco. Falei de não me sentir tão bem ali, de uma forma que fosse sutil e que não preocupasse ninguém. Eu estava preocupada comigo mas ligeiramente acomodada a isso. Eu, na vida real, vivo preocupada comigo mas ligeiramente acomodada com isso. Ou completamente acomodada com isso. A gente sonha com o que a gente é.

E lá no primeiro quarto do corredor, cenário igualzinho à da casa da minha avó. No sonho lembro de também sentir saudades da minha avó. A minha avó já tinha se ido, no meu sonho. A minha avó que partiu faz pouco tempo.

Duas camas dentro do quarto, uma em cada parede, uma delas dando exatamente de frente para a porta. Duas pessoas na cama de lá, três na cama de cá, eu estou na ponta, perto da porta. A gente falava da casa, de eu me sentir esquisita e de a casa não fazer bem de alguma maneira. Meu primo começa a contar da história que sabe: da moça que morrera ali dentro, que havia sido enterrada no quintal. Mas que história clichê. Não gosto. Eu acredito em tudo. No sonho, eu também começo a acreditar na história. Nos meus sonhos eu acredito em tudo também. A moça passou oito anos adoecendo; adoeceu fortemente três vezes. E no fim de oito anos, morreu ali.

Mas sim, ele começa a contar a história e todos prestam um pouco de atenção, mas o clima não é pesado pra eles. É só pra mim, que não estou bem. Estou bem ao lado da minha tia, perto da porta do quarto, perto do corredor. Escuto um barulho lá de dentro, lá da parte de trás da casa. Sou medrosa, acredito em tudo: mudo de posição. Não vou ficar perto da porta, eu não. O barulho é nítido. E se repete. Parece alguém que vem vindo. No último barulho, todos têm certeza: alguém - que não estava em casa - vinha vindo da parte de trás da casa. Todos olham para a corredor para ver o que é o barulho, descrentes de que verão algo: e então sou eu que passo em frente à eles, andando pelo corredor, em direção à sala. Ajeito o cabelo com a mão direita, olho para todos no quarto, e também estou vestindo a mesma roupa (vestido azul) que naquela hora. Eu olho assustada. Todos olham assustados. Eu entendo rápido. Eles entendem logo.

Me ponho a gritar em desespero sem que nenhum som saia da minha boca, como sempre acontece nos sonhos, quando a gente quer pedir socorro ou ter a liberdade de se desesperar. Passo a abocanhar as palavras e esbravejar as lágrimas que também não saem; ando e corro pelo quarto, olho nos olhos de todos eles, faço eles me verem e digo que vi, que estou vendo, que era eu, e eles sabem. Bato no peito gritando 'eu vi, eu vi', os sons não saem, não existe barulho, só pavor. E o que passa a doer mais não foi o que acabei de ver há poucos segundos, mas a impossibilidade de ficar desesperada como eu quero, como eu preciso ficar naquela hora.

Insisto em ferir minha garganta gritando silêncios, chacoalho os braços para que eles vejam o meu desespero sem som. Todos entendem. Todos sabem exatamente o que vai acontecer.

Oito anos. Eu já estava dentro deles. Já tinha começado a morrer.

Nenhum comentário: