segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tal pai, tal pai.

Era uma das primeiras aulas da primeira disciplina de leitura e produção de texto. Ler e escrever, ler e escrever, o que a gente supostamente fazia por ali. Eu cheguei atrasada depois do trânsito típico das obras da Copa, e a professora tinha acabado de completar a chamada. Perguntou meu nome, para pôr a presença. Eu acho que disse só o primeiro nome (não devia ter outra Beatriz na turma), mas ela olhou meu sobrenome e na mesma hora perguntou, antes que eu me sentasse, inclusive: se eu era parenta do meu pai. "Sou filha", respondi. Ela fez uma cara de quem recebeu uma notícia semi-impressionante. Uma cara que até hoje não sei necessariamente o que queria dizer.

Passou.

Semanas depois, a professora começou uma maratona de produção de texto. Finalmente. Porque, até então, com a professora anterior, a gente só tinha visto teoria teórica! A mulher de agora botava a gente pra escrever. Na sala de aula ou em casa.

Ela estava num congresso quando eu escrevi um conto, à mando dela, e enviei logo por e-mail, na data combinada. Ela elogiou meu trabalho, disse que eu escrevia bem. E fez questão de complementar algo sobre meus genes, minha herança genética, como se fossem estas as responsáveis por um texto bem escrito.

Semanas depois, ela premiaria com livros os melhores contos na turma. O meu ficou em 4º lugar. Eu nem merecia receber livro, já que 4º lugar é 4º lugar. Mas enfim. Acho mesmo é que ela queria me dar o livro que fala de trabalhos anteriores do meu pai, livro escrito por ela. Mas as motivações dela não me interessam. De novo, eu voltava para a cadeira, e, ainda em pé, ela elogiou meu trabalho novamente, e fez questão de dizer outra vez: mas também, sendo filha de quem é. Disse isso com um sorriso no rosto, sem deboche, sendo felizmente sincera, mesmo.

Eu gostava bastante dessa professora. E ainda gosto. Mas tive de ficar pelo menos ofendida a cada vez que ela disse isso. Lembro da Ana Elisa Ribeiro falando para uma turma de estudantes do ensino médio: que esquecessem essa história de que escrever é 'dom', que todo mundo devia escrever, sim, porque boa escrita é resultado de trabalho. Ana disse em seguida: quando alguém fala que eu tenho o 'dom' de escrever, eu sinto que essa pessoa está menosprezando meu trabalho, porque eu escrevo todos os dias.

Às vezes eu escondo que sou filha do meu pai. Pelo menos quando sei que um comentário desse pode surgir. Porque eu também escrevo todos os dias. E apesar de achar que não escrevo nada de excepcionalmente bom, tenho certeza de que o que sai melhor não é por causa dele, mas por causa do que eu faço, todos os dias, sozinha, só ouvindo meu silêncio. Eu quis dizer à professora que não são meus genes que escrevem os textos, só minha cabeça ruim e minha disposição mesmo. Mas passou.

E eu lembrei dessa história comprida e chata quando olhava, ontem, a lista dos deputados federais eleitos pelo estado da gente. Eleitos pelo povo que vive aqui, que mora aqui. Milhares de pessoas pensam igual à minha professora: os filhos são feito os pais, são quase que a mesma coisa, por isso vamos manter todo mundo em seu lugar, vamos respeitar a sucessão hereditária. Somos capitania hereditária, pois bem.

Não é necessário pensar se o que o descendente faz é trabalho dele; aliás, não é necessário buscar qual é o trabalho dele. Porque o pai já fez. No meu caso, pelo menos, a professora leu o conto, deu uma olhada no meu trabalho, e só os créditos é que foram dados de forma meio errada. No caso de ontem, não sei sinceramente qual o conceito de trabalho e de crédito que os eleitores se valeram.

O problema: é que a professora tentava me elogiar, mesmo que de um modo torto, porque ela acha que meu pai faz um bom trabalho. O problema maior: é que sobre os pais e os filhos que milhares elegem para nos representar, eu não acho que deva dizer a mesma coisa.

2 comentários:

Júlio Cézar disse...

MEU DEUS QUE TEXTO ÓTIMO POR QUE VOCÊ AINDA FAZ PSICOLOGIA AI AI AI

Maria Augusta disse...

Texto maravilhoso!