sábado, 29 de novembro de 2014

Ei, coisinha, vá devagar

Eu fico assustada com tanta gente pedindo para que o ano acabe logo. Para que o mês acabe logo. Para que a sexta-feira chegue de uma vez e a segunda-feira não chegue nunca. A gente se encontra no bar e de repente a pessoa diz como estamos velhos, como está velha, como o tempo passa rápido, meu Deus, como era bom ser jovem e não ter já vinte e cinco anos (pois é).

E é bem assim mesmo.

A única vez em que pedi para o ano acabar logo foi em 2012. Porque 2012 levou cinco anos, na minha vida, para terminar. Porque eu fazia algo que não gostava e que me fazia sofrer muito. Porque eu vinha tentando me recuperar de males que nunca resolvi por inteiro. Porque eu nem sabia o que seria de 2013, mas queria que ele viesse mesmo assim, já que 2012 era o fim de um ciclo difícil demais de cumprir. Pedi mesmo.

No outro ano, quando comecei a fazer o que gostava: passei a pedir que o tempo passasse devagar. Em 2014, já estou fazendo praticamente tudo que gosto, mas ainda não gosto de tudo o que faço. Tem umas etapas por concluir: essas eu quero concluir duma vez, num logo. Mas não quero que o tempo passe rápido por causa delas, de jeito nenhum.

Os anos acabam e eu levo sustos. Meu aniversário chega e eu levo sustos de novo. As pessoas morrem e eu me desespero porque: a vida passa rápido demais. O tempo é ligeiro demais. E me irrita todos quererem que 2014 acabe, que 2015 chegue logo, para no ano que vem fazerem a mesma coisa - o ano inteiro.

Eu já acho que a gente vive muito pouco. Me pego pensando nos livros que quero ler durante a vida, e tenho certeza: não vai dar tempo. A gente deveria viver uns 200 anos, pelo menos. Me lembro da minha avó que partiu de repente, e também digo: mas ela merecia mais cem anos pela frente. Assim como me vejo fazendo tudo o que sempre quis (mas que só descobri que queria há alguns anos), e desejo em silêncio: a vida deveria durar muito mais, é claro, para eu poder ter mais tempo de literatura cotidiana. Era tudo que eu queria.

Quando eu comecei a fazer tudo que gostava e queria, tive a sensação real de que a vida tinha acabado de começar - foi ano passado. E ela segue muito bem, mesmo faltando bastante para completar os cem por cento. Eu não quero que ela acelere de jeito nenhum. Por mim, o tempo pode ir devagar. Mesmo que haja coisas que eu queira acelerar, eu prefiro que o tempo continue sem pressa. E as pessoas também.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Olhando pra dentro e pra fora

Parei no sinal vermelho e do outro lado começa a atravessar pela faixa de pedestres um velho barbudo, bem barbudo. Um papai noel atemporal. A barba branquíssima e comprida, os cabelos muito alvos escondidos num chapéu. A roupa toda azul. Um conjunto. A calça e a camisa faziam um conjunto. Infelizmente me lembrava roupa de hospital, depois me lembrava um pijama, depois me disse que isso não importa, o que importava era um senhor tão velho e tão disposto andando por aí com a roupa que quisesse e ostentando aquela barba. Aquela velhice viva. A bengala que ia junto. Os passos que eram ágeis, apesar de ele ser bem velho - mas pouco envelhecido. Uma imagem de gente que dá para se lembrar pra sempre, penso eu.

No canteiro esquerdo, um aleijado em cima de um skate balança os braços em desespero para pedir uma esmola. O carro alto, grande, imponente. O aleijado pobre e cansado, as pernas atrofiadas. Já diminuído na vida, por que não dizer, já não sendo enxergado pelo povo todo, pela sociedade inteira, que faz questão de esquecer que ainda há quem passe dificuldades do tipo impossíveis. Ele levantava os braços e acho até que queria gritar. Mas se gritasse não conseguiria esmola nenhuma. Continuava exasperado chamando a atenção do motorista: alto e distante dele. É só uma imagem condensada desse filme longo e antigo.

Ele disse que o livro era bobo. Silly. Não acrescenta. Ele repetiu depois que o livro era bobo, que tinha achado bobo, como se não entendesse a minha insistência em fazê-lo ler. Fiquei confusíssima. Aquele livro tinha mudado a minha vida. Talvez eu tenha lido na época certa e ele não. Eu li quando era adolescente. E tudo o que eu precisava na minha adolescência era um Holden Caulfield pensando os meus pensamentos, falando os meus pensamentos, colocando meus confusos pensamentos em palavras. E fazendo uma mágica com tudo isso. Não sei exatamente o que aconteceu, mas sei que eu era outra, completamente diferente, quando terminei a última página. O que lamento mais foi ter dado o livro de presente à ele e não à mim, para reler, porque a única vez que li o Apanhador, era um livro emprestado.

As pessoas são diferentes. As pessoas lêem de jeitos diferentes. Eu gosto do meu jeito.

Meu lugar preferido na cidade muda de cor e de jeito todo dia. Hoje havia muita gente em horário atípico. Dirigi devagar atrás de um carro que fazia o mesmo. Cheguei a usar só um dos braços, enquanto músicas que eu escolhia tocavam no som. Eu tinha verde à direita e azul à esquerda. Hoje o mar estava azul esverdeado. Há dias em que está bem verde. Há dias em que fica meio cinza. Depende da quantidade de nuvens no céu, depende da hora do dia, depende da estação do ano, depende do acaso, depende do meu humor. As cores mudam. A paisagem é uma a cada dia. Dirigi devagar olhando pra ela, como se estivesse olhando pra mim.

Acho que é isso que ando fazendo pela vida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Obsessão

Fiquei ouvindo poesia na hora do trabalho.
Comecei a ler um dos meus autores preferidos enquanto fingia que estava estudando.
Escrevi poemas bem ruins, fingindo esmero naquilo.
Me esforcei para escrever poemas bem bons que ficaram sem graça.
Escrevi textos sem graça.
Contei histórias desgraçadas.
Escrevi muito quando estive desgraçada.
Devaneei sobre o que poderia nos fazer rir. E ri.
Chorei enquanto lia o Galera.
Reli alguns do Galera. Outros não encostei nunca mais por ter medo de repetir: a loucura de tudo aquilo que senti.
Porque há livros que falam pelos cotovelos não deles, mas da gente. Por isso deixo eles calados na estante e meio escondidos.
Ninguém pega. Nem eu.
Fiquei ouvindo poemas e recitando poemas.
Fiquei lendo Rosa em voz alta, que foi uma das coisas mais bonitas que já consegui fazer.
Não porque era eu. Porque era ele.
É uma das coisas mais bonitas que alguém pode fazer em vida: ler Guimarães Rosa em voz alta.
Quero ter dois cachorros quando for morar numa casa: Guimarães e Rosa. Quero ter um vira-lata Riobaldo. Mas não quero dizer isso a ninguém para que não me imitem e para que quando eu for ter os meus não pensem que eu estou imitando os outros. Foi ideia minha.
Escrevi umas ideias minhas.
Escrevi umas ideias dos outros.
Parafraseei um monte de gente e nem disse.
Consegui ser falsa escrevendo.
Mas terminei sendo sincera em excesso. Aí fiz inimigos.
A principal inimiga que fiz fui eu mesma: porque fiquei espalhando história minha por aí.
Fofoqueira.
Queria ter outras criatividades. Queria ter mais criatividade.
Queria pensar mais e imaginar mais.
Às vezes eu deixo, mas paro. Porque penso no que não devo. Penso em quem não quero.
Aí começo a mentir: a melhor parte de escrever.
Minto felicidades - a melhor parte sobre a melhor parte de escrever, que é mentir.
Fico imaginando alegrias que nunca senti.
Escrevo tudo o que quero viver um dia.
A felicidade.

Eu vivo disso agora.
Larguei tudo. Só finjo que cuido das outras coisas. (Mas cuido.)

Quando agora

Eu tenho muita coisa importante pra fazer. Mas só tenho vontade de fazer coisas desimportantes agora. Como se eu tivesse esse direito mesmo sem ter o tempo de ter esse direito.

O tempo passando rápido. E eu como que não me importando.

Eu não me importo tanto mais. Eu aprendi a não me importar tanto depois que percebi: a gente inventa o que fazer e inventa que é importante. Existe um tanto a mais por aí. Que a gente esquece. Nem vê. O tempo corre mesmo assim, e a gente sem vontade de fazer coisas desimportantes.

Demorei mais penteando os cabelos e olhando pra mim e querendo saber o que eu pensava de hoje, queria pra hoje, faria ainda hoje. Nada. Deixei o vazio flanar por aqui, e ficamos juntos.

Eu só tenho vontade de fazer coisas desimportantes agora.

O importante tem pouco espaço. O tempo ocupa o espaço todo: porque corre. E eu já perdi tempo demais me importando em excesso com o que não me fazia tão bem.

O menos importante me faz melhor agora.

sábado, 22 de novembro de 2014

.

Ouvia que era muito egoísta, já que não aceitava fazer o que não quisesse, e ouvia que tinha de fazer o que não gostasse, sim, quando fosse para ajudar os outros. Passou a ajudar os outros e a fazer o que não gostava. As pessoas passaram a exigir que fizesse o que lhe desgostasse só para receberem ajuda. Ninguém ajudava de volta. Vivia de ser sozinha.
Passou a achar que quanto melhor que fosse, mais as pessoas pisariam sobre seus pés. Passou a achar que as pessoas não faziam muito sentido.
Não sabia até onde conseguiria ir. Já se sentia meio morta.
Sentia de novo que pisavam sobre seus pés. E que não se incomodavam se ela caísse por conta disso.
Via que as pessoas humilhavam umas às outras e não entendia por que tinham necessidade de fazer isso.
Sentia que o amor podia salvar, e o amor a abandonara.
Foi viver de ser sozinha.
Se sentia meio morta o tempo inteiro. Achava que ajudar os outros poderia ser caminho para boa sorte. E quanto melhor era para alguém, pior eram para ela mesma. Ficou sem entender esse reciprocidade ao avesso.
Ficou sozinha e cheia de silêncios, sem acreditar mais no que as pessoas lhe diziam.
Me engaram, pensava. Me engaram quando me acusavam de egoísta, me mandando ajudar os outros. Só queriam que eu me doasse.
De tanto se doar, ficou com a solidão e os silêncios. E amor nenhum. Porque não havia mais gente por perto.

domingo, 16 de novembro de 2014

Preconceito cego e surdo - que segue

1. Nos últimos anos, a rua em que moro se transformou em um estacionamento público-privado ligeiramente institucionalizado: há um flanelinha para cada dez carros, e eles começam a trabalhar, rigorosamente, às sete horas da manhã todos os dias da semana. Param quase às seis da noite. Eles já devem ter decorado os rostos e os carros dos moradores do meu prédio, inclusive o meu, e um deles sempre está próximo da garagem; quando eu saio de casa, meu olhar quase sempre cruzava com o dele - afinal eu tenho de prestar atenção aos pedestres para não atropela-los.

No primeiro dia que ele me viu sair a pé pelo portão, disparou um "bom dia" meloso, com a entonação da voz bem trabalhada, naquele intuito de parecer uma cantada explícita. Na segunda vez que saí a pé, ele fez o mesmo. Para cada "bom dia" ou "olá" que ele disparava em voz cantada, uma olhada nada discreta para toda e qualquer parte do meu corpo. Se quando eu estava no carro ele me olhava nos olhos, quando ele me via na rua ele olhava para tudo que estivesse abaixo do pescoço. No dia em que saí pelo portão de mãos dadas com meu namorado, e passei quase ao lado dele, ele fez silêncio pesado e fingiu não ter passado ninguém ali. E nos outros dias em que estive acompanhada, e em que olhei-o nos olhos, mesmo com ele virando o rosto logo em seguida, ele repetiu o silêncio fingindo normalidade.

2. Quando paro no sinal, peço ao cara que não limpe meu pára-brisa. Ele limpa. Quando paro no sinal e não vejo um cara querendo limpar meu para-brisa, ele mete o rodo no vidro traseiro. Quando paro no sinal, e meu namorado tá no banco do passageiro, e peço ao cara que não limpe o para-brisa, e Otávio repete o meu ato, o cara não limpa e sai de perto. Quando paro no sinal, e estamos eu e minha mãe no carro: pedimos que ele não passe o rodo no pára-brisa, e então ele faz questão de jogar água e sabão e deixar tudo bem sujo, e sair gritando algum palavrão - sem limpar o vidro.

3. A moça tinha batido no meu carro e ela e sua mãe começaram e me constranger no meio da rua. Ela bateu atrás, ela passou no sinal amarelo, ela dirigia em alta velocidade mesmo estando com a mãe idosa e o filho criança dentro do carro. Eu estava sozinha e elas me humilharam por eu exigir a perícia. E me insinuaram que eu "já estava acostumada a me envolver em acidentes" - eu havia comentado que era a segunda vez em seis meses que batiam no meu carro. Que - batiam - no - meu - carro. E depois que meu namorado chegou no lugar do acidente, para que eu não ficasse muito tempo sozinha resolvendo tudo: elas não insinuaram nem me humilharam mais; elas passaram e me tratar com mais respeito e consideração.

A corretora de seguros da culpada pela batida falou comigo no telefone. Também me humilhou, e desligou o telefone na minha cara. No dia seguinte, na perícia da seguradora, ela fingiu que eu não estava ali. E hoje me pergunto se ela teria feito o mesmo se eu não fosse eu: se eu fosse um homem, pois sim.


O feminismo tem sido encarado como uma rebeldia sem controle e sem propósito. Como uma histeria. Como se eu não tivesse o direito de me indignar quando vejo que as pessoas me tratam de uma forma quando estou sozinha, e de uma forma diametralmente oposta quando estou acompanhada. Nem todo mundo concorda com o argumento do último evento, quando a mulher se questiona de "será que teria ocorrido assim se eu fosse um homem?". Mas seria, no mínimo, hipócrita, não considerar a diferença que existe entre as situações de quando estou sozinha (ou com outra mulher) e as situações de quando estou com um homem. Como se eu precisasse de um homem para me proteger do machismo. E pensar isso só torna tudo ainda mais absurdo.

Quando absurdo é ter de ser feminista em pleno século vinte e um. Claro que é. Não deveria mais haver necessidade de ser feminista. Não deveria mais ser aceitável lidar com desconhecidos olhando para o meu corpo como objeto de desejo (reparem na palavra 'objeto' - obrigada). Como também não deveria mais ser aceitável que um homem só aceitasse o meu não quando eu estivesse com um homem do meu lado concordando comigo: dizendo não para o outro homem. E menos aceitável ainda deveria ser mulheres me tratando de forma diferenciada: como se eu ao lado de um homem merecesse mais respeito. E a gente ser obrigada a seguir assim sem gritar. O feminismo não é uma histeria, mas já deveria ser.

Na última semana fui obrigada (pela minha consciência) a ler e ouvir comentários preconceituosos e alienados sobre o mesmo tema. Quase todos julgando uma mulher sob uma ótica despropositadamente machista. De  novo. Sendo bem sincera, não sei se fariam os mesmos comentários se fosse um homem no lugar dela; não sei se a intenção dela era só chocar e chamar a atenção, ou se ela tinha uma mensagem (acredito mais nessa última); não sei se aquilo é arte ou não (eu sou um pouco ignorante para arte, infelizmente). Mas nada disso importa.

A manifestação serviu muito mais para reforçar o tamanho da ignorância e do machismo de uma sociedade que se diz não ser assim: a sociedade universitária. Se a intenção dela era nos fazer refletir sobre seus atos, fez pouco isso. O que aconteceu muito mais foi o reforço do preconceito - e era sobre isso que os falantes deveriam ter pensado antes de falar ou enquanto falavam.

Essa consequência é o que agora mais importa; foi produzida não intencionalmente pelo público, e por isso deixa de importar a forma da arte, as intenções do artista, os tabus envolvidos e a hora do dia. O que deveria produzir reflexão são os comentários ignorantes de supostos não ignorantes. O problema é que justo esses sujeitos não viram isso, não olharam para o resultado que eles próprios produziram. Mas os preconceituosos não ouvem o que dizem, são só falantes surdos.

E enquanto isso o machismo segue como essa forma velada de ser covarde - e plenamente aceita por quase todo mundo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Vozes

Você devia namorar com ele. Você não deveria ligar tanto pra ele assim. Você devia saber com quem ele namorava antes. Eu prefiro nunca saber. Não saiba. Não pergunte. Não faça muitas perguntas. Pergunte mais, procure saber! Não deixe que te façam de otária.

E a faculdade, como vai? Eu disse que você não fizesse esse curso, não tem nada a ver com você. Você deveria ter feito outra coisa. Você deveria trancar. Você tem que ir até o fim, começou, termine. Você não sabe o que quer? É normal não saber o que quer. Não é possível que você não saiba o que você quer. Você pode fazer outra coisa depois. Se você fizer outro curso depois, vai faltar tempo no final da sua vida. Tempo passa rápido. A vida também. A gente não pode perder tempo porque não sabe o que quer.

Você deveria fazer um concurso público. Saiu o edital, você já olhou? Você deveria fazer esse concurso para psicólogo. Não quer ser psicólogo? Mas isso não é questão de escolha, veja o salário. Você deveria fazer esse concurso. Você não deveria fazer o que as pessoas te mandam. Você não precisa fazer concurso só porque todo mundo faz. Você deveria ser feliz. A gente nasceu para ser feliz.

Você tinha que pensar mais no futuro. Você deveria pensar mais no seu presente, você vive pensando lá na frente. Assim você não aproveita nada! E o namoro, como vai? Eu sabia. Eu disse que ele não tinha muito a ver com você. Vocês não vão ser felizes. Vocês vão ser felizes. Vai dar tudo certo. No final, dá tudo certo.

Mas você deveria se cuidar um pouco mais, olha pra você, toda cansada e feia. Você tá ficando feia. Você devia fazer menos exercício. Isso é vaidade. Você é muito vaidosa. Isso faz mal. Cuide mais da sua cabeça e menos do seu corpo. Cuide mais do seu corpo. Você vive lendo. Onde você acha que vai parar com isso?

Já estudou hoje. Você estuda demais, né? Você não está aproveitando a vida. É, porque você só pensa nesse futuro. Você acha que vai casar? Você deveria casar, já está na hora. Esse tempo todo e nem estão noivos. Eu hein. Você quer ter filhos? Ah, sim, todo mundo tem que ter filhos, principalmente quem consegue se casar. Mas você vai ter filhos mesmo que não case? Sei não, hein. Não deveria. Você não deveria se casar.

Você podia viajar sozinha, seria bom pra você. Você precisa esquecer essas coisas e viver outra vida. Viver uma vida melhor. Sua vida não tá boa. Olha só sua cara de cansada e de quem passa o tempo todo trancada dentro de um quarto. Você devia ir pro mundo. Não, viajar sozinha não, isso é muito perigoso.

Você é machista. Você é feminista. Você tem frescura demais.

Você ronca. Você é linda quando acorda. Você ainda tá namorando? Mas você nunca fica solteira. Você sofre demais. Você sofre pouco quando precisa sofrer muito. Você tinha que sofrer um pouco mais, às vezes, e sofrer menos para outras coisas. Você não sabe nem sofrer direito.

Já comeu alguma coisa? Senta aí. Ajeita o cabelo, me dá um sorriso. Você é muito chata. Você tinha que sorrir mais. Olha, que cara de cansaço. Pára de escrever tanto. Você tá falando demais.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Outras mulheres

Conheci pessoas de outras partes do mundo enquanto estive em Dublin. Na minha sala de aula, nas primeiras semanas, estive com uma menina e um rapaz da Arábia Saudita, uma brasileira de Natal (sim), venezuelana, coreana, húngara. Professores irlandeses.

Lembro de sempre olhar para a menina árabe com uma expressão de discreta interrogação no meu rosto. Eu até tenho uma amiga com essa ascendência; mas ela é ocidental pura e simplesmente. Pelo menos eu acho que seja, eu a vejo dessa forma.

Mas a interrogação no meu rosto era apenas porque eu não via seus cabelos. Nunca vi. E por não ver os cabelos, parecia que eu mal conseguia vê-la, como se eu não visse seu rosto por completo. Ela também não mostrava braços e pernas. Apenas mãos, pés e rosto ficavam à mostra. Ela tinha traços finos no rosto, traços de menina. Era baixa e magra, um pouco mais baixa e um pouco mais magra do que eu. Mas eu me sentia incapaz de vê-la e lembrar sua imagem, porque o véu parecia encobrir o todo. Minha Gestalt (!) não trabalhava.

Não achei que o cabelo, em si, fosse fazer tanta diferença quando eu conhecesse uma muçulmana. E eu me sentia ridícula em olhar para ela todos os dias e em me esforçar para decorar seu rosto. Se eu a visse pela rua, não a cumprimentaria: eu me sentia incapaz de reconhecê-la.

Uma colega da turma, Natália (brasileira, natalense) um dia comentou em sala já ter ido a um jantar na casa da nossa colega árabe, Alanu – era o nome dela, ou como se pronunciava o nome dela. Alanu, anfitriã, e muitas de suas amigas estavam lá, sem véus, em calças jeans e camisetas (Natália jurou), comendo qualquer coisa de muito gostosa.

A professora logo perguntou sobre como era o cabelo da nossa colega de classe. A descrição de Natália não convinha com o que eu imaginava. E isso dificultou ainda mais que eu memorizasse os traços daquela mulher que tinha a minha idade e uma vida tão diferente da minha, que estava morando na mesma cidade que eu, criando um filho e cultivando um casamento, enquanto eu só tinha saudade de Natal e pensava que o melhor de Dublin era tomar cerveja. E era só. Passei a me sentir meio vazia quando olhava para ela e para tudo o que ela significava, desse jeito que, pra mim, era tão enigmático.


Sinto que faço dessa digressão um discurso bobo que só. De gente que se assusta com gente diferente. Eu me assusto demais com o diferente, todos os dias, e estar em Dublin rodeada de gente de várias partes do mundo significava estar rodeada de vários mundos. Mais que isso: a insegurança de lidar com culturas como a árabe, a japonesa, a russa, me deixavam assustada todo dia. No sentido positivo. Em todos os sentidos positivos.


Semanas depois, eu estava em Umea, no apartamento da Fernanda, dentro da cidade universitária. Eu segurava Benjamin no colo de frente da janela. Ele em pé no peitoril, olhando as árvores e o céu bem azul, sentindo um mínimo de vento que se podia passar por ali. Fazia muito calor. Benjamin pedia frio. Brasileiro nascido no inverno sueco.

A cidade universitária é repleta de prédios baixos, de dois e três andares. Cada um dos andares é um longo corredor feito varanda, na parte da frente. E na parte de trás são só um monte de janelas. Eu segurava Benjamin na janela defronte para a varanda. Olhava para o prédio da frente e para o restante da cidade universitária. Era verão. Férias na Suécia. Faz sol o tempo inteiro nesse lugar gelado de gente gelada: então não havia ninguém nos arredores da universidade.

No prédio exatamente em frente de onde eu estava, apareceu uma mulher por trás da janela: os vidros fechados e cortinas abertas (não sei como isso era possível, naquele calor), e pelo vidro ela olhava para as ruas vazias da cidade universitária. E por esse mesmo vidro eu podia vê-la com clareza. Os cabelos soltos e bem escuros, recém penteados, sendo arrumados e envoltos em um... lenço.

Era uma mulher muçulmana e no exato segundo em que ela terminou de pôr o lenço cobrindo seus cabelos, eu tive a sensação de ter visto algo que não deveria. De a ter visto pelada ou algo do tipo. De ter ouvido um forte segredo seu. Não acho que seja exagero. No mesmo instante, ela arregalou os olhos e afastou-se da janela. Não a vi mais nos meus últimos dias em Umea. E se a tivesse visto, não conseguiria reconhece-la novamente.

Também me afastei da janela e voltei logo para a sala com Benjamin nos braços.

Sou só sins

Me pediu que eu esperasse, e eu disse sim.
E que eu esperasse muito, e eu que tudo bem, não tinha problema.
Mas tinha. Esperei.
Me pediu que não demorasse, e eu corri. Não deveria, mas corri.
Me pediu que fizesse tudo com calma, e eu fiz, e me apressou mais, e eu apressei também. Eu não queria calma nem pressa; queria meu tempo. Não tive.
E me pediu tempo e eu dei.
Me pediu companhia e eu fiquei mais.
Mas quando estive sozinha, foi embora cedo.
Me deixou sozinha por tempo demais.
Me abraçava quando ficava feliz, só, e eu deixava. Eu precisava de abraços e ficava calada se achasse que não deveria pedir por eles.
Chorei em silêncio absoluto. Ninguém nunca soube. Ninguém nunca me viu chorar.
Disse que eu era chata demais e me mandou sorrir. Gargalhei com as feridas sangrando.
Me pediu mais trabalho, e fiz. Me deu trabalho, e eu não podia, mas aceitei e fiz também.
Fiz mais, fiz tudo.
Faltou comigo.
Não faltei com ninguém.
Atrasou meu dia. Não atraso o dia de ninguém.
Falou que o prazo era ontem, eu voltei no tempo e fui.
Falei que o prazo era amanhã. Nunca mais me respondeu.

Morri engasgada com todos os "nãos" que não disse.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A partir de amanhã tem festival literário - mas parece que é segredo

Na aula de literatura, o professor comentava do que vinha lendo. Isso porque a gente fica interrompendo ele pra falar dos livros que a gente lê, muita literatura contemporânea a gente fala, eu falo, e ele diz que não conhece o livro mas ouve mesmo assim e discute bem com a gente. E diz que não tem lido literatura contemporânea. Já passou daquele limite difícil que a menor parte dos humanos enfrenta na vida, que é: assumir com convicção que não vai conseguir ler tudo o que quer. E aí escolhe. Ele tá lendo coisas das antigas. Faz bem. Eu tenho lido coisas de hoje, muita gente de hoje. É o que gosto.

E por sinal ele comenta que a literatura contemporânea deve andar bem das pernas, mas a gente não vê muito crítico literário falando dela. E aí a gente ficaria meio perdido. Os críticos e avaliadores não falam muita coisa; a gente só tem muita crítica e avaliação da literatura do passado. Eu o interrompi imediatamente pra gritar que Mas Isso É Ótimo! E a gente discutiu um pouco essa liberdade de viver sem crítico literário dando bola pro que a gente lê.

Eu tenho lido coisas incríveis na literatura contemporânea. E acho que isso começou de um jeito não muito convencional, mas num caminho que eu insisto ser um dos melhores para se mergulhar em literatura: quando eu passei a frequentar festivais literários.

Comecei a fazer isso na pré-adolescência, porque os meus pais frequentavam. Eu não entendia muita coisa do que os intelectuais falavam, mas eu ia e gostava, e do que eu entendia eu gostava mais ainda. Quando eu descobri que eles não eram bem intelectuais no sentido inalcançável da palavra, e quando eu passei a alcançar as palavras deles, quase todas, eu era adolescente e vibrava ainda mais com os eventos. E passei a ler os autores.

Muita gente só vai a evento ver o escritor que já conhece. Querendo ver de perto o cara que o leitor já conhece dos livros. Mas: o caminho contrário é tão bom quanto, ou mais. Fez muita diferença na minha leitura ouvir João Ubaldo antes de ler João Ubaldo. Conhecer Zuenir Ventura antes de vê-lo debruçado na comunidade de Vigário Geral, em Cidade Partida. Ouvir Daniel Galera contando o Intimidade, em voz alta, em voz livre, sem texto. E depois ler Barba Ensopada de Sangue. Assim como ver Joca Terron de perto, sentir um certo medo diante do cara, e descobrir como ele pode ser (incrivelmente) sensível falando de mendigos, travestis, dos caras cortando árvores na rua dele. E mais.

Fiz o caminho oposto outras vezes, é claro. Só vi Cuenca pessoalmente depois de devorar quase todos os livros dele. Esse dia foi legal: eu tinha muitos livros para serem autografados, e ele arregalou um pouco os olhos quando viu. Mais tarde ele me agradeceu "por eu ter comprado todos aqueles livros". Eu já podia agradecer por ele "ter escrito todos eles", porque eu já tinha vivido todos eles. Também li Ana Elisa Ribeiro antes de conhecê-la de perto e ver que ela é aquilo tudo ali, e mais um pouco. E até hoje nos falamos e nos vemos quando estamos na mesma cidade.

Tenho medo do que poderia ter acontecido se eu tivesse visto Saramago ou García Márquez algum dia na minha frente. E também não me responsabilizo sobre o que pode acontecer no dia que eu cruzar na rua com o Valter Hugo Mãe. Pessoas ficarão constrangidas com minha euforia. Eu sei que sim.

Ainda espero por mais escritores que já li e que quero vê-los e ouvi-los. Assim como não perco nenhuma chance de ver e de ouvir escritores que nunca li. Isso me fará lê-los, mais à frente. (Eu ainda acredito que vou conseguir ler tudo o que tenho vontade.)

E para a minha sorte, não tem faltado evento literário, nem festival literário dos grandes. Por aqui tem. Vai continuar tendo. O problema é que tem faltado gente, eu acho. Vejo pouca. Tem faltado divulgação. Tem faltado um pouco mais de carinho com a literatura, por parte do poder público. As festas e os shows de daqui a um mês são melhor divulgados (já há semanas) do que o festival literário que começa amanhã. Algumas pessoas não vão porque não sabem que vai ter festival literário. Algumas pessoas não vão porque ainda não descobriram como um festival literário pode ser bom.

Eu vou por lá amanhã. Porque eu já descobri esses dois segredos: o de que vai ter; e o de que é bom, de que vale à pena.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sobre publicar um livro assim

Aqui dá pra ser sincera. Só tenho três pessoas que lêem meu blog - essa história já é velha. Pouca gente vem aqui ver se tem algo que preste na tela. Aqui tudo bem.

Eu vinha vendo muita gente escrevendo coisa sem graça e ganhando aplauso. Fiquei com despeito e com inveja e com raiva e com vontade de fazer o meu. O meu talvez fosse tão ruim quanto, talvez fosse um pouquinho melhor. Não custava nada tentar. As redes sociais fizeram todo mundo perder a vergonha na cara, e em outras partes do corpo também, e deixaram todo mundo fazer o que quisesse com suas palavras e seus talentos. Ou com a falta de palavras e a falta de talentos. Enfim. Tinha coisa ruim por aí. Tinha coisa muito boa. O que importa era que tinha gente demais publicando os escritos e isso estava ok.

Lembrei que só tenho três pessoas me lendo (uma delas sou eu). Pensei por que não, não existe não, só existe sim, vai que pode ser. Sentei a bunda na cadeira e li num rompante dezenas de publicações. Fui selecionando algumas, cortando outras, selecionando mais, e mais, e isso durou uma noite rápida. Poucas horas e o livro já tava pronto.

Quando me dei conta, o livro se dividia, sozinho, em duas partes bem distintas. Eu vinha despedaçada em uma - lembro da época. Eu estava inteira na outra - sei dessa época. Então ele vai ficar assim, dividido. E o título também vai. Tá pronto.

Fiz uma coisa horrível artisticamente, achando que as palavras bastavam. Que basta escrever, basta ler o que tá escrito, e isso é a obra. Mandei um pdf lacrado para uns dez amigos. Todos ficaram felizes. Eu fiquei surpresa com tanta felicidade simples assim.

E a coisa andou a andar. Um amigo de longa data (um dos três que lê o blog) fez a capa. Claro, tava um negócio horrível, preto no branco, só as palavras sozinhas. E um amigo visionário me fez acreditar que era preciso lançar de verdade o e-book.

Lançamos. Deu certo. Não sei se deu tão certo assim. Talvez tenha saído um pouco dos planos.

A verdade é que a preparação chamou mais atenção do que o livro em si. A entrevista teve mais curtida do que o livro teve de downloads. E me pergunto se é tão fantástico assim ver alguém falando sobre o livro, quando na verdade o livro é que deveria ter algo de melhor do que isso. E eu nem sei falar direito. Aliás, já me convenci e estou convencendo todos ao meu redor de que fui obrigada a me expôr daquele jeito.

Penso agora no que o Gregório falava sábado: basta uma crônica pro leitor saber exatamente quem você é; o ator é um tímido, ele se esconde em personagens, apesar de todos acharem o ator um exibicionista; o autor, não, esse se mostra, esse é ele mesmo enquanto escreve, quando publica.

Lá tô eu, no livro, e por isso com vergonha de me mostrar demais à gente demais. Não tenho a menor coragem de fazer propaganda. Porque eu não faço propaganda de mim mesma. Nunca fiz. Nada contra - tenho até amigos que são assim, etc - mas eu vou no sentido contrário. Adoro estar despercebida. Talvez também goste de ter um blog lido por pouca gente. Posso me mostrar sem estar me exibindo. E isso às vezes frustra mas às vezes te dá uma liberdade saudável - mais saudável do que aquela de quem se esconde nas gavetas.

A sensação de dar um pouco errado e de fracassar um pouco era iminente. Agora é real. Ou um pouco real. É assustador descobrir que você anda se exibindo por aí - e aí você pára de se exibir e sente vergonha de divulgar o livro mas ao mesmo tempo se sente triste por o livro não alcançar tanta gente quanto você gostaria.

Apesar da dúvida inteira, a única coisa que me sobra desse processo confuso é vontade de escrever. Acho que dá pra fazer melhor. Olhando daqui pra frente, daqui pra frente.