quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A partir de amanhã tem festival literário - mas parece que é segredo

Na aula de literatura, o professor comentava do que vinha lendo. Isso porque a gente fica interrompendo ele pra falar dos livros que a gente lê, muita literatura contemporânea a gente fala, eu falo, e ele diz que não conhece o livro mas ouve mesmo assim e discute bem com a gente. E diz que não tem lido literatura contemporânea. Já passou daquele limite difícil que a menor parte dos humanos enfrenta na vida, que é: assumir com convicção que não vai conseguir ler tudo o que quer. E aí escolhe. Ele tá lendo coisas das antigas. Faz bem. Eu tenho lido coisas de hoje, muita gente de hoje. É o que gosto.

E por sinal ele comenta que a literatura contemporânea deve andar bem das pernas, mas a gente não vê muito crítico literário falando dela. E aí a gente ficaria meio perdido. Os críticos e avaliadores não falam muita coisa; a gente só tem muita crítica e avaliação da literatura do passado. Eu o interrompi imediatamente pra gritar que Mas Isso É Ótimo! E a gente discutiu um pouco essa liberdade de viver sem crítico literário dando bola pro que a gente lê.

Eu tenho lido coisas incríveis na literatura contemporânea. E acho que isso começou de um jeito não muito convencional, mas num caminho que eu insisto ser um dos melhores para se mergulhar em literatura: quando eu passei a frequentar festivais literários.

Comecei a fazer isso na pré-adolescência, porque os meus pais frequentavam. Eu não entendia muita coisa do que os intelectuais falavam, mas eu ia e gostava, e do que eu entendia eu gostava mais ainda. Quando eu descobri que eles não eram bem intelectuais no sentido inalcançável da palavra, e quando eu passei a alcançar as palavras deles, quase todas, eu era adolescente e vibrava ainda mais com os eventos. E passei a ler os autores.

Muita gente só vai a evento ver o escritor que já conhece. Querendo ver de perto o cara que o leitor já conhece dos livros. Mas: o caminho contrário é tão bom quanto, ou mais. Fez muita diferença na minha leitura ouvir João Ubaldo antes de ler João Ubaldo. Conhecer Zuenir Ventura antes de vê-lo debruçado na comunidade de Vigário Geral, em Cidade Partida. Ouvir Daniel Galera contando o Intimidade, em voz alta, em voz livre, sem texto. E depois ler Barba Ensopada de Sangue. Assim como ver Joca Terron de perto, sentir um certo medo diante do cara, e descobrir como ele pode ser (incrivelmente) sensível falando de mendigos, travestis, dos caras cortando árvores na rua dele. E mais.

Fiz o caminho oposto outras vezes, é claro. Só vi Cuenca pessoalmente depois de devorar quase todos os livros dele. Esse dia foi legal: eu tinha muitos livros para serem autografados, e ele arregalou um pouco os olhos quando viu. Mais tarde ele me agradeceu "por eu ter comprado todos aqueles livros". Eu já podia agradecer por ele "ter escrito todos eles", porque eu já tinha vivido todos eles. Também li Ana Elisa Ribeiro antes de conhecê-la de perto e ver que ela é aquilo tudo ali, e mais um pouco. E até hoje nos falamos e nos vemos quando estamos na mesma cidade.

Tenho medo do que poderia ter acontecido se eu tivesse visto Saramago ou García Márquez algum dia na minha frente. E também não me responsabilizo sobre o que pode acontecer no dia que eu cruzar na rua com o Valter Hugo Mãe. Pessoas ficarão constrangidas com minha euforia. Eu sei que sim.

Ainda espero por mais escritores que já li e que quero vê-los e ouvi-los. Assim como não perco nenhuma chance de ver e de ouvir escritores que nunca li. Isso me fará lê-los, mais à frente. (Eu ainda acredito que vou conseguir ler tudo o que tenho vontade.)

E para a minha sorte, não tem faltado evento literário, nem festival literário dos grandes. Por aqui tem. Vai continuar tendo. O problema é que tem faltado gente, eu acho. Vejo pouca. Tem faltado divulgação. Tem faltado um pouco mais de carinho com a literatura, por parte do poder público. As festas e os shows de daqui a um mês são melhor divulgados (já há semanas) do que o festival literário que começa amanhã. Algumas pessoas não vão porque não sabem que vai ter festival literário. Algumas pessoas não vão porque ainda não descobriram como um festival literário pode ser bom.

Eu vou por lá amanhã. Porque eu já descobri esses dois segredos: o de que vai ter; e o de que é bom, de que vale à pena.

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