quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Obsessão

Fiquei ouvindo poesia na hora do trabalho.
Comecei a ler um dos meus autores preferidos enquanto fingia que estava estudando.
Escrevi poemas bem ruins, fingindo esmero naquilo.
Me esforcei para escrever poemas bem bons que ficaram sem graça.
Escrevi textos sem graça.
Contei histórias desgraçadas.
Escrevi muito quando estive desgraçada.
Devaneei sobre o que poderia nos fazer rir. E ri.
Chorei enquanto lia o Galera.
Reli alguns do Galera. Outros não encostei nunca mais por ter medo de repetir: a loucura de tudo aquilo que senti.
Porque há livros que falam pelos cotovelos não deles, mas da gente. Por isso deixo eles calados na estante e meio escondidos.
Ninguém pega. Nem eu.
Fiquei ouvindo poemas e recitando poemas.
Fiquei lendo Rosa em voz alta, que foi uma das coisas mais bonitas que já consegui fazer.
Não porque era eu. Porque era ele.
É uma das coisas mais bonitas que alguém pode fazer em vida: ler Guimarães Rosa em voz alta.
Quero ter dois cachorros quando for morar numa casa: Guimarães e Rosa. Quero ter um vira-lata Riobaldo. Mas não quero dizer isso a ninguém para que não me imitem e para que quando eu for ter os meus não pensem que eu estou imitando os outros. Foi ideia minha.
Escrevi umas ideias minhas.
Escrevi umas ideias dos outros.
Parafraseei um monte de gente e nem disse.
Consegui ser falsa escrevendo.
Mas terminei sendo sincera em excesso. Aí fiz inimigos.
A principal inimiga que fiz fui eu mesma: porque fiquei espalhando história minha por aí.
Fofoqueira.
Queria ter outras criatividades. Queria ter mais criatividade.
Queria pensar mais e imaginar mais.
Às vezes eu deixo, mas paro. Porque penso no que não devo. Penso em quem não quero.
Aí começo a mentir: a melhor parte de escrever.
Minto felicidades - a melhor parte sobre a melhor parte de escrever, que é mentir.
Fico imaginando alegrias que nunca senti.
Escrevo tudo o que quero viver um dia.
A felicidade.

Eu vivo disso agora.
Larguei tudo. Só finjo que cuido das outras coisas. (Mas cuido.)

Nenhum comentário: