sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Olhando pra dentro e pra fora

Parei no sinal vermelho e do outro lado começa a atravessar pela faixa de pedestres um velho barbudo, bem barbudo. Um papai noel atemporal. A barba branquíssima e comprida, os cabelos muito alvos escondidos num chapéu. A roupa toda azul. Um conjunto. A calça e a camisa faziam um conjunto. Infelizmente me lembrava roupa de hospital, depois me lembrava um pijama, depois me disse que isso não importa, o que importava era um senhor tão velho e tão disposto andando por aí com a roupa que quisesse e ostentando aquela barba. Aquela velhice viva. A bengala que ia junto. Os passos que eram ágeis, apesar de ele ser bem velho - mas pouco envelhecido. Uma imagem de gente que dá para se lembrar pra sempre, penso eu.

No canteiro esquerdo, um aleijado em cima de um skate balança os braços em desespero para pedir uma esmola. O carro alto, grande, imponente. O aleijado pobre e cansado, as pernas atrofiadas. Já diminuído na vida, por que não dizer, já não sendo enxergado pelo povo todo, pela sociedade inteira, que faz questão de esquecer que ainda há quem passe dificuldades do tipo impossíveis. Ele levantava os braços e acho até que queria gritar. Mas se gritasse não conseguiria esmola nenhuma. Continuava exasperado chamando a atenção do motorista: alto e distante dele. É só uma imagem condensada desse filme longo e antigo.

Ele disse que o livro era bobo. Silly. Não acrescenta. Ele repetiu depois que o livro era bobo, que tinha achado bobo, como se não entendesse a minha insistência em fazê-lo ler. Fiquei confusíssima. Aquele livro tinha mudado a minha vida. Talvez eu tenha lido na época certa e ele não. Eu li quando era adolescente. E tudo o que eu precisava na minha adolescência era um Holden Caulfield pensando os meus pensamentos, falando os meus pensamentos, colocando meus confusos pensamentos em palavras. E fazendo uma mágica com tudo isso. Não sei exatamente o que aconteceu, mas sei que eu era outra, completamente diferente, quando terminei a última página. O que lamento mais foi ter dado o livro de presente à ele e não à mim, para reler, porque a única vez que li o Apanhador, era um livro emprestado.

As pessoas são diferentes. As pessoas lêem de jeitos diferentes. Eu gosto do meu jeito.

Meu lugar preferido na cidade muda de cor e de jeito todo dia. Hoje havia muita gente em horário atípico. Dirigi devagar atrás de um carro que fazia o mesmo. Cheguei a usar só um dos braços, enquanto músicas que eu escolhia tocavam no som. Eu tinha verde à direita e azul à esquerda. Hoje o mar estava azul esverdeado. Há dias em que está bem verde. Há dias em que fica meio cinza. Depende da quantidade de nuvens no céu, depende da hora do dia, depende da estação do ano, depende do acaso, depende do meu humor. As cores mudam. A paisagem é uma a cada dia. Dirigi devagar olhando pra ela, como se estivesse olhando pra mim.

Acho que é isso que ando fazendo pela vida.

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