segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Outras mulheres

Conheci pessoas de outras partes do mundo enquanto estive em Dublin. Na minha sala de aula, nas primeiras semanas, estive com uma menina e um rapaz da Arábia Saudita, uma brasileira de Natal (sim), venezuelana, coreana, húngara. Professores irlandeses.

Lembro de sempre olhar para a menina árabe com uma expressão de discreta interrogação no meu rosto. Eu até tenho uma amiga com essa ascendência; mas ela é ocidental pura e simplesmente. Pelo menos eu acho que seja, eu a vejo dessa forma.

Mas a interrogação no meu rosto era apenas porque eu não via seus cabelos. Nunca vi. E por não ver os cabelos, parecia que eu mal conseguia vê-la, como se eu não visse seu rosto por completo. Ela também não mostrava braços e pernas. Apenas mãos, pés e rosto ficavam à mostra. Ela tinha traços finos no rosto, traços de menina. Era baixa e magra, um pouco mais baixa e um pouco mais magra do que eu. Mas eu me sentia incapaz de vê-la e lembrar sua imagem, porque o véu parecia encobrir o todo. Minha Gestalt (!) não trabalhava.

Não achei que o cabelo, em si, fosse fazer tanta diferença quando eu conhecesse uma muçulmana. E eu me sentia ridícula em olhar para ela todos os dias e em me esforçar para decorar seu rosto. Se eu a visse pela rua, não a cumprimentaria: eu me sentia incapaz de reconhecê-la.

Uma colega da turma, Natália (brasileira, natalense) um dia comentou em sala já ter ido a um jantar na casa da nossa colega árabe, Alanu – era o nome dela, ou como se pronunciava o nome dela. Alanu, anfitriã, e muitas de suas amigas estavam lá, sem véus, em calças jeans e camisetas (Natália jurou), comendo qualquer coisa de muito gostosa.

A professora logo perguntou sobre como era o cabelo da nossa colega de classe. A descrição de Natália não convinha com o que eu imaginava. E isso dificultou ainda mais que eu memorizasse os traços daquela mulher que tinha a minha idade e uma vida tão diferente da minha, que estava morando na mesma cidade que eu, criando um filho e cultivando um casamento, enquanto eu só tinha saudade de Natal e pensava que o melhor de Dublin era tomar cerveja. E era só. Passei a me sentir meio vazia quando olhava para ela e para tudo o que ela significava, desse jeito que, pra mim, era tão enigmático.


Sinto que faço dessa digressão um discurso bobo que só. De gente que se assusta com gente diferente. Eu me assusto demais com o diferente, todos os dias, e estar em Dublin rodeada de gente de várias partes do mundo significava estar rodeada de vários mundos. Mais que isso: a insegurança de lidar com culturas como a árabe, a japonesa, a russa, me deixavam assustada todo dia. No sentido positivo. Em todos os sentidos positivos.


Semanas depois, eu estava em Umea, no apartamento da Fernanda, dentro da cidade universitária. Eu segurava Benjamin no colo de frente da janela. Ele em pé no peitoril, olhando as árvores e o céu bem azul, sentindo um mínimo de vento que se podia passar por ali. Fazia muito calor. Benjamin pedia frio. Brasileiro nascido no inverno sueco.

A cidade universitária é repleta de prédios baixos, de dois e três andares. Cada um dos andares é um longo corredor feito varanda, na parte da frente. E na parte de trás são só um monte de janelas. Eu segurava Benjamin na janela defronte para a varanda. Olhava para o prédio da frente e para o restante da cidade universitária. Era verão. Férias na Suécia. Faz sol o tempo inteiro nesse lugar gelado de gente gelada: então não havia ninguém nos arredores da universidade.

No prédio exatamente em frente de onde eu estava, apareceu uma mulher por trás da janela: os vidros fechados e cortinas abertas (não sei como isso era possível, naquele calor), e pelo vidro ela olhava para as ruas vazias da cidade universitária. E por esse mesmo vidro eu podia vê-la com clareza. Os cabelos soltos e bem escuros, recém penteados, sendo arrumados e envoltos em um... lenço.

Era uma mulher muçulmana e no exato segundo em que ela terminou de pôr o lenço cobrindo seus cabelos, eu tive a sensação de ter visto algo que não deveria. De a ter visto pelada ou algo do tipo. De ter ouvido um forte segredo seu. Não acho que seja exagero. No mesmo instante, ela arregalou os olhos e afastou-se da janela. Não a vi mais nos meus últimos dias em Umea. E se a tivesse visto, não conseguiria reconhece-la novamente.

Também me afastei da janela e voltei logo para a sala com Benjamin nos braços.

Um comentário:

Bia Araújo disse...

O velho e necessário não quando o bom e agradável sim é pesado demais. Parabéns pelo texto!