domingo, 16 de novembro de 2014

Preconceito cego e surdo - que segue

1. Nos últimos anos, a rua em que moro se transformou em um estacionamento público-privado ligeiramente institucionalizado: há um flanelinha para cada dez carros, e eles começam a trabalhar, rigorosamente, às sete horas da manhã todos os dias da semana. Param quase às seis da noite. Eles já devem ter decorado os rostos e os carros dos moradores do meu prédio, inclusive o meu, e um deles sempre está próximo da garagem; quando eu saio de casa, meu olhar quase sempre cruzava com o dele - afinal eu tenho de prestar atenção aos pedestres para não atropela-los.

No primeiro dia que ele me viu sair a pé pelo portão, disparou um "bom dia" meloso, com a entonação da voz bem trabalhada, naquele intuito de parecer uma cantada explícita. Na segunda vez que saí a pé, ele fez o mesmo. Para cada "bom dia" ou "olá" que ele disparava em voz cantada, uma olhada nada discreta para toda e qualquer parte do meu corpo. Se quando eu estava no carro ele me olhava nos olhos, quando ele me via na rua ele olhava para tudo que estivesse abaixo do pescoço. No dia em que saí pelo portão de mãos dadas com meu namorado, e passei quase ao lado dele, ele fez silêncio pesado e fingiu não ter passado ninguém ali. E nos outros dias em que estive acompanhada, e em que olhei-o nos olhos, mesmo com ele virando o rosto logo em seguida, ele repetiu o silêncio fingindo normalidade.

2. Quando paro no sinal, peço ao cara que não limpe meu pára-brisa. Ele limpa. Quando paro no sinal e não vejo um cara querendo limpar meu para-brisa, ele mete o rodo no vidro traseiro. Quando paro no sinal, e meu namorado tá no banco do passageiro, e peço ao cara que não limpe o para-brisa, e Otávio repete o meu ato, o cara não limpa e sai de perto. Quando paro no sinal, e estamos eu e minha mãe no carro: pedimos que ele não passe o rodo no pára-brisa, e então ele faz questão de jogar água e sabão e deixar tudo bem sujo, e sair gritando algum palavrão - sem limpar o vidro.

3. A moça tinha batido no meu carro e ela e sua mãe começaram e me constranger no meio da rua. Ela bateu atrás, ela passou no sinal amarelo, ela dirigia em alta velocidade mesmo estando com a mãe idosa e o filho criança dentro do carro. Eu estava sozinha e elas me humilharam por eu exigir a perícia. E me insinuaram que eu "já estava acostumada a me envolver em acidentes" - eu havia comentado que era a segunda vez em seis meses que batiam no meu carro. Que - batiam - no - meu - carro. E depois que meu namorado chegou no lugar do acidente, para que eu não ficasse muito tempo sozinha resolvendo tudo: elas não insinuaram nem me humilharam mais; elas passaram e me tratar com mais respeito e consideração.

A corretora de seguros da culpada pela batida falou comigo no telefone. Também me humilhou, e desligou o telefone na minha cara. No dia seguinte, na perícia da seguradora, ela fingiu que eu não estava ali. E hoje me pergunto se ela teria feito o mesmo se eu não fosse eu: se eu fosse um homem, pois sim.


O feminismo tem sido encarado como uma rebeldia sem controle e sem propósito. Como uma histeria. Como se eu não tivesse o direito de me indignar quando vejo que as pessoas me tratam de uma forma quando estou sozinha, e de uma forma diametralmente oposta quando estou acompanhada. Nem todo mundo concorda com o argumento do último evento, quando a mulher se questiona de "será que teria ocorrido assim se eu fosse um homem?". Mas seria, no mínimo, hipócrita, não considerar a diferença que existe entre as situações de quando estou sozinha (ou com outra mulher) e as situações de quando estou com um homem. Como se eu precisasse de um homem para me proteger do machismo. E pensar isso só torna tudo ainda mais absurdo.

Quando absurdo é ter de ser feminista em pleno século vinte e um. Claro que é. Não deveria mais haver necessidade de ser feminista. Não deveria mais ser aceitável lidar com desconhecidos olhando para o meu corpo como objeto de desejo (reparem na palavra 'objeto' - obrigada). Como também não deveria mais ser aceitável que um homem só aceitasse o meu não quando eu estivesse com um homem do meu lado concordando comigo: dizendo não para o outro homem. E menos aceitável ainda deveria ser mulheres me tratando de forma diferenciada: como se eu ao lado de um homem merecesse mais respeito. E a gente ser obrigada a seguir assim sem gritar. O feminismo não é uma histeria, mas já deveria ser.

Na última semana fui obrigada (pela minha consciência) a ler e ouvir comentários preconceituosos e alienados sobre o mesmo tema. Quase todos julgando uma mulher sob uma ótica despropositadamente machista. De  novo. Sendo bem sincera, não sei se fariam os mesmos comentários se fosse um homem no lugar dela; não sei se a intenção dela era só chocar e chamar a atenção, ou se ela tinha uma mensagem (acredito mais nessa última); não sei se aquilo é arte ou não (eu sou um pouco ignorante para arte, infelizmente). Mas nada disso importa.

A manifestação serviu muito mais para reforçar o tamanho da ignorância e do machismo de uma sociedade que se diz não ser assim: a sociedade universitária. Se a intenção dela era nos fazer refletir sobre seus atos, fez pouco isso. O que aconteceu muito mais foi o reforço do preconceito - e era sobre isso que os falantes deveriam ter pensado antes de falar ou enquanto falavam.

Essa consequência é o que agora mais importa; foi produzida não intencionalmente pelo público, e por isso deixa de importar a forma da arte, as intenções do artista, os tabus envolvidos e a hora do dia. O que deveria produzir reflexão são os comentários ignorantes de supostos não ignorantes. O problema é que justo esses sujeitos não viram isso, não olharam para o resultado que eles próprios produziram. Mas os preconceituosos não ouvem o que dizem, são só falantes surdos.

E enquanto isso o machismo segue como essa forma velada de ser covarde - e plenamente aceita por quase todo mundo.

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