domingo, 14 de dezembro de 2014

Um futuro de presente

É como se eu já soubesse como vão ser os caminhos e como vai ser quando chegarmos lá. Eu já sei que não vai ser nada fácil, mas que vai ser bom mesmo assim: o durante o depois. E o durante do depois - vai ser a melhor parte, talvez?

Como se eu já soubesse como serão os cômodos e as cores da casa. A luz entrando sem vacilar. Os móveis poucos e os livros muitos. Os barulhos que vamos ouvir durante o dia e o silêncio que pode estar durante as noites e durante os domingos. Os domingos iguais e desse jeito que queremos mesmo: um igual sossegado. Nossos dias de sossego.

Como se eu já soubesse as vozes que as crianças podem ter. As cores dos cabelos e as gargalhadas que serão regra. E os abraços e os sorrisos e as palavras. Teremos uma vida cheias de palavras. As minhas, as suas, as deles, as nossas todas. Porque vivemos de conversar, isso a gente sabe, e eu não paro com os livros e as estantes cheias. A coleção de cadernos. E tudo o que ouvimos e guardamos e repetimos e dizemos olhando uns nos olhos do outro. As coisas boas, principalmente.

Como se já soubesse que virão Natáis e Carnavais e festas nossas para fotografar não muito - porque estaremos ocupados demais em estarmos juntos. Em abraçar e em rir um pouco mais. A rotina repetindo e os anos passando, e o medo do fim dessa vida inteira, meio atrapalhada e simples. A nossa.

Parece que já sei como vai ser. E isso me traz calma. E uma felicidade.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Falta de respostas

Eu acho que o celular vibra o tempo todo, toca mesmo estando no silencioso, me chama lá de dentro ou esquecido dentro da bolsa. Olho. Tem mensagem. Olho, não tem. Olho, tem mais mensagem. Olho, nada. O e-mail não chega. O e-mail ninguém responde. O que mandei ninguém lê. O que li ninguém sabe sobre. 

Fiz tantas perguntas em uma só mensagem que só voltou uma resposta. Fiz duas perguntas em umas duas mensagens e não voltou resposta nenhuma. Cancelei a rede social. Desliguei o celular. Desativei a internet. Aguentei uns minutos. Dias.

Quis escrever e não consegui porque eu esperava respostas. E conversas. Também acho que fica difícil escrever quando se conversa menos. E agora eu fico em casa assistindo entrevistas. Pois é: esse é o tamanho da loucura. Como se os diálogos ao vivo me fizessem falta. Como se os diálogos virtuais suprissem isso, mas eles não existem mais. Existem muito pouco. Insisto e desisto depois de muito insistir. Desisto das pessoas todos dias, cinco vezes. Amanhã fico carente de novo, e o ciclo se repete. 

Quis parar de escrever muito porque não tinha resposta nenhuma para os envios que fiz. Ninguém pra me dizer que eu sou muito ruim ou médio ruim, menos ainda pra me dizer isso e me justificar em seguida. Então foi como se dissessem que eu sou um médio ruim que não vale a pena ler. Não fiquei triste. Só tive pena da energia que gastei com a expectativa. 

Fiquei em silêncio fingindo que não existia mais. Já que as pessoas não estavam tão por perto assim - isso é o mesmo que não existir, ou que existir muito pouco. Até li menos. Pensando, achando e sentindo que as palavras fazem menos sentido também. Que estão fracas - e que as minhas tinham morrido todas. 

Até que discordei e decidi que o silêncio dos outros me deixa pelo menos falar sozinha, sem interrupção; me deixa escrever em excesso, tudo muito ruim, sem as vaias no final. (Já que tudo é silêncio.) Deixei por isso mesmo. Monólogos em som alto e poesias escritas sem vergonha. O começo da solidão foi o começo da loucura. Aceitar a solidão é só o fim desse desespero longo. 

De novo

É porque eu só vinha fugindo, eu disse. Porque tudo que me poderia fazer lembrar eu afastei para não lembrar. Não queria lembrar nunca mais.
E não funcionou, ela disse.
Não. O filme se repete o dia inteiro, a semana inteira. Eu lembro de tudo, eu disse. Eu consigo lembrar de tudo, eu disse.
E se você parar de fugir, ela perguntou afirmando.
Eu vou lembrar ainda mais, eu disse.
Você vai começar a esquecer, ela disse. Se você parar de fugir e aceitar sofrer tudo isso, ela disse.
De novo?, eu perguntei, dizendo com raiva, você quer que eu sofra tudo de novo e lembre tudo de novo, eu disse, você é louca, eu disse, completamente louca, repeti.
Você não sofreu ainda, ela disse. Você fugiu, ela disse. Escondeu de todo mundo.
Escondi para que não me achassem louco, eu disse.
Louco você já está. De tanto fugir. Ela disse.
Não tem remédio, eu disse.
Não esconda mais, ela disse.
E vão pensar que eu sou louco, eu disse, querendo berrar. Só disse.
Só vão achar que você amou demais, ela disse.
Ainda amo demais. Eu disse. Ainda amo demais.
Ainda, ela disse.
Ainda, repeti.
E não existe loucura com mais razão do que essa, ela disse. Aceite. E vamos começar pelo começo, ela disse.
Tudo outra vez, eu disse. Comecei.

Ele de novo

O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós. O Camilo sorriu e disse: não compreendo nada, só queria dizer que gosto da Teresa e que os meus amigos de quinze anos, como eu, estão todos a arranjar namoradas, Gostava de arranjar uma namorada para frente.


E vêm mais quatro livros dele por aí,
de presentes.

O Valter Hugo Mãe.

Não são férias

Eu tinha parado de escrever pra ir trabalhar porque a sensação que tenho é de que passei o ano todo sem trabalhar e gastando tempo escrevendo.
Mas eu trabalhei muito. Só que menos do que devia e aí queria tirar o atraso de dois anos de um trabalho mal feito e sem futuro - a pós graduação.

Não aguentei cinco dias. (Escrevi escondida em todos eles.)

Acho melhor virar vagabunda.
Digo, voltar a escrever.
O que talvez dê no mesmo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A minha questão do feedback

Foi importante pra mim, no último ano, ler o texto do Terron sobre a questão do feedback: http://www.blogdacompanhia.com.br/2014/02/a-questao-do-feedback/

Mudou algumas coisas, é fato. Fiquei menos ansiosa. Fiquei menos preocupada. Fiquei mais relaxada com o fato de ter pouca gente me lendo e tudo bem com isso. Tudo bem mesmo. Sinto até certa liberdade de falar qualquer coisa aqui, porque sei que pouquíssima gente vai ler. E essa pouquíssima gente que lê, não me julga, ou me julga muito pouco. E nessa liberdade eu me viro e brinco que só.

O problema, para quem começa a escrever e começa a gostar de fazer isso para além das fronteiras do desabafo, é querer fazer disso algo mais sério e bem feito. É querer produzir com mais esmero. Aparar as arestas onde elas devem ser aparadas, e deixar umas sobras onde podem ficar algumas sobras. E aí, tudo que a gente mais quer e mais precisa: é ter algum feedback.

Eu fiz uma oficina de contos para descobrir que: tudo o que eu vinha escrevendo até aquele dia não eram contos nem nada perto disso. Meu aporte teórico para aquilo que eu fazia era zero. Mas também fiz essa oficina para terminar descobrindo que: ter quem ouça e quem fale sobre o que você escreve pode ser a parte mais valiosa do processo. Talvez seja a parte mais valiosa do processo.

Em tempos onde curtir e retuitar é o que move nossos dedos e nossos elogios, um comentário virou êxtase. Uma leitura minuciosa é um lucro de milhões. E é algo que você não pode desejar nem esperar - porque é difícil de vir.

Ninguém quer te ler se você não é um escritor famoso. Ninguém faz questão de detalhar sua escrita se não vai ganhar nada com isso. E, mesmo ganhando (não necessariamente dinheiros), pode ser que deixem isso para lá. E deixam mesmo.

A minha maior dificuldade em escrever melhor é não saber, exatamente, como o que eu escrevo consegue chegar nas pessoas. Se a história que eu faço é clichê ou não. Se os personagens falam muito palavrões ou se convencem muito pouco. Se eu sou artificial em excesso ou sou sincera na medida certa. Se eu me revelo demais ou de menos.

Às vezes me pego desejando alguém que fale bem mal de tudo que escrevo, e que odeie meus contos. Porque sei que isso é melhor do que o silêncio absoluto ou o botão do like ativado - já que esse último pode significar muita coisa, inclusive coisa nenhuma. Porque sei que esse é o começo da melhora, do processo mais elaborado, da escrita mais real. Eu não tenho vaidade em ser escritora. Eu só quero continuar escrevendo. Mas, do jeito mais real possível, da forma mais sincera que eu puder. O problema é ter de fazer isso sem feedback nenhum.

A solução é seguir escrevendo. E só.