quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

De novo

É porque eu só vinha fugindo, eu disse. Porque tudo que me poderia fazer lembrar eu afastei para não lembrar. Não queria lembrar nunca mais.
E não funcionou, ela disse.
Não. O filme se repete o dia inteiro, a semana inteira. Eu lembro de tudo, eu disse. Eu consigo lembrar de tudo, eu disse.
E se você parar de fugir, ela perguntou afirmando.
Eu vou lembrar ainda mais, eu disse.
Você vai começar a esquecer, ela disse. Se você parar de fugir e aceitar sofrer tudo isso, ela disse.
De novo?, eu perguntei, dizendo com raiva, você quer que eu sofra tudo de novo e lembre tudo de novo, eu disse, você é louca, eu disse, completamente louca, repeti.
Você não sofreu ainda, ela disse. Você fugiu, ela disse. Escondeu de todo mundo.
Escondi para que não me achassem louco, eu disse.
Louco você já está. De tanto fugir. Ela disse.
Não tem remédio, eu disse.
Não esconda mais, ela disse.
E vão pensar que eu sou louco, eu disse, querendo berrar. Só disse.
Só vão achar que você amou demais, ela disse.
Ainda amo demais. Eu disse. Ainda amo demais.
Ainda, ela disse.
Ainda, repeti.
E não existe loucura com mais razão do que essa, ela disse. Aceite. E vamos começar pelo começo, ela disse.
Tudo outra vez, eu disse. Comecei.

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