quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Avesso sem volta

Sim, mas foi porque eu achei e tive muita certeza de que aos vinte e cinco tudo já estaria tão bem encaminhado que não seria mais encaminhado mais. Seria algo como tudo certo e no lugar, caminho terminado, foi isso que achei. Foi isso que tive certeza. Ah, mas eu tive muita certeza disso. Eu sabia que já teria saído de casa, sem neuras, com os nervos no lugar, e também sem dívidas (nem com meus pais nem com o banco). E sabia que eu já estaria lá, no meu lugar, físico e psicológico, no mundo, no mundo inteiro, onde eu quisesse estar - mas sabendo que estaria aqui por perto mesmo. Só que eu continuo morando na casa da minha mãe com todas as neuras e dívidas e sem nervo nenhum no lugar. Ando cada dia pior.

Tive certeza de que já teria um emprego que não me permitiria nenhuma vida extraordinária, mas uma vida minha. E aí eu poderia almoçar no restaurante preferido da comida sem glúten três vezes por semana, por exemplo. E comprar aquela bolsa. Ou aqueles livros da Cosac Naify. Mas todo mês o banco me avisa que eu entrei no cheque especial, e a editora até fechou antes que eu pudesse comprar coleções inteiras de lá. (Os títulos que tenho ganhei, generosamente, de presente.)

Também tive certeza de que seria disciplinada o suficiente para não comer o que eu não devesse, mas sigo ingerindo toda a quantidade de gordura e lactose que eu consiga aguentar sem morrer - só passando mal todos os dias. E nessa minha infantilidade sempre penso que passar mal é ruim, mas eu aguento a irresponsabilidade.

Também, claro, sabia que não estaria mais na terapia. Eu seria bem resolvida, não-ansiosa, não-deprimida, também equilibrada e choraria menos, bem menos. Mas lá vou eu atravessando a década, atingindo quase uma década de psicoterapia em uma caminhada lenta e teimosa. Minha lua deve ser em Áries. Meu Sol também. Tem isso? O Sol da pessoa? Eu devo ter muita coisa em Áries, a lua, o sol, tudo.

Eu achava que aos vinte e cinco haveria a independência física e psicológica, financeira e emocional, e parece que à medida que o tempo passa eu só afundo mais, fazendo um caminho contrário como quem corre numa esteira. O que tenho por agora é um Sigaa 49% integralizado, uma viagem que era a dos meus sonhos mas também está sendo a das minhas dívidas, e uma desistência antecipada de acreditar nos sonhos de antes. Será que eles vão vir? Vejo os amigos casando e tendo filhos, e o máximo que consigo fazer agora é adotar um cachorro sem raça que acabou de nascer e ainda nem abriu os olhos - crendo eu que, daqui pra quando ele abra os olhos, eu tenha melhores condições de cuidar dele. O que não vai acontecer, porque isso é dentro de vinte dias.

Há quem diga que basta eu acreditar mais em mim (nunca acreditei) e menos, bem menos nos outros (eu só acredito nos outros). E alguém mais sincero que diga que basta eu parar de reclamar tanta asneira. Eu só sei que me virei completamente pelo avesso, e não encontro mais nem o final dessa coberta, pra começar a desvirar tudo de volta, e ir andando pra frente.

Vou comer algo gorduroso com lactose.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Fotografias

Finalmente passo as fotos de tantos meses gravadas no celular, passo para o computador. Infelizmente, sou uma pessoa postergadora por natureza, principalmente quando o dever inclui lidar com máquinas, computadores, pen drives, cabos de qualquer ordem. Nasci séculos muito tarde; tenho dificuldades com isso tudo e pouca paciência.

Lá vão as centenas de fotos de um ano inteiro. E passando por elas consigo lembrar e ver que o ano foi melhor do que eu esperava, e muito melhor do que eu penso sobre ele, hoje. A gente nunca tá satisfeito. Eu sempre estou reclamando. Eu vivo ansiosa por tudo que falta e por tudo que não consegui, e assim mal aproveito o caminho, os meses, as centenas de fotos, e tudo o que há neles. Eu sorrindo em todas.

E, passando por elas, vejo tantos livros quanto lançamentos de livros quanto eventos de literatura. Literatura. Eu passo as fotos e vejo a literatura esborrotando, quase. E lembro de quando comecei a fazer Letras, 2013, cinco anos depois de tanta Psicologia. A sensação era única e ainda é: tinha a certeza de que a minha vida tinha começado ali, naquele momento; tinha a sensação nítida de que estava viva, de que tinha vida dentro de mim e dentro dos livros. E, claro, tive ainda maior certeza do quanto estava morta antes.

Muita vida nas fotos. Os sorrisos abertos e os cabelos tantas vezes soltos e bagunçados. Parece que o ano foi de braços abertos, uma sucessão de abraços dos sorrisos, do corpo, dos cabelos, dos encontros. Tudo escancarado e disposto a ser feliz - mesmo que em muitos momentos não fosse.

As viagens e os lugares tão perto e tão incríveis (São Bento). Os lugares distantes que fui de novo: as ruas de Montevidéu. As comidas que provei e repeti nesses lugares, e a lembrança que as fotos trazem do gosto e do cheiro. As fotos trazem gosto e cheiro e sons, tudo muito vívido. E a gente tão empenhado em gravar vídeos... Eu fico com as fotos. Elas congelam e mostram menos do que pode ter dado errado naqueles instantes. Houve mais do que deu certo.

Passo mais fotos. Repito. Tento alocá-las em todos os labirintos do computador e de fora dele - nuvens e pen drives. Não encontro o hd externo. E prometo, pela vigésima vez no ano, que comprarei um amanhã (sempre amanhã). Também prometo, agora pela centésima vez, que irei revelar boa parte dessas fotos. Tenho pen drives com seleções já prontas de fotos de 2012, 2013, 2014. E nada. Postergando pela natureza de postergar. Postergando lembranças vivas e boas.

Eu me envergonho de mim mesma, da minha postergação profissional, e vejo de novo as fotos e lembro de novo de tudo. E percebo como é importante olhar para trás para ter mais vontade de seguir em frente - sempre assim, todos os anos, no clichê. Tenho de respeitar mais essas imagens, e tudo de bom que elas congelaram no tempo. Imagina se eu perco, se fogem, se a nuvem condensa ou os duendes dos pen drives passam por aqui. É preciso resolver isso logo, para não esquecer do que foi, do que tem sido. As imagens melhoram tudo; as lembranças boas melhoram a nós mesmos.

domingo, 29 de novembro de 2015

Daqui de cima

Enquanto por mim fico aqui em cima e ouço os piores barulhos desde o início da noite. Os motores que vibram e os pneus que freiam demais, por tempo demais, e as pancadas das batidas fortes, das batidas perigosas por ali. Por aqui, bem aqui embaixo. Eu continuo aqui em cima.
E logo em seguida ouvimos as sirenes. Me preparo para ouvir algum grito, e nada. A música fica alta, cada fim de semana mais alta, ou eu a cada fim de semana menos disposta a ouvir algum barulho. Por isso aqui em cima. Quanto mais distante, algo melhor.
E às vezes os gritos de quem briga e se manda embora. Ouvi-os também. Não junto à batida e às sirenes, mas à música. Acho que depois do susto prefere que se fique o silêncio. Depois da balbúrdia planejada prefere-se mais balbúrdia. E gritos e raiva.
Os carros freiam de novo. Os motores também gritam e torcem meus ouvidos aqui. Quanto mais distante, melhor. Fico aqui em cima até que o dia amanheça e venha outro, e venha outros. Por mim eu não desço mais. Por mim eu não pulo mais - desisti. Por mim eu escuto os freios longos e as pancadas de quem se espanca. Por mim eu escuto as sirenes e finjo que saber disso tudo é existir de alguma forma. E ouço os gritos, a música ruim, a noite longa que parece começar antes de o sol descer completamente.
Eu aqui em cima. E não há por que ver nem ouvir mais nada de perto. Me deixo ficar. Não vou mais descer, nem pular. Desisti.

domingo, 22 de novembro de 2015

Tudo o que passamos a ser

Isso, porque no início era exatamente o oposto disso tudo aqui. Você era um completo oposto disso tudo aqui. Ou éramos, os dois. Com essas máscaras por cima e essas certezas de que o que devíamos fazer era ficar junto, porque sim, porque vamos, quando fizemos tudo dar certo. E quando cedemos demais. Ouvimos demais. Abraçamos os projetos e dizemos que, claro, eu acredito que vai dar certo, estamos juntos. Vamos seguir em frente.

A gente seguiu. E foi em frente demais. Deixamos passar bastante tempo, deixamos passar bastante o tempo. Tudo passou e ou as máscaras caíram, ou definitivamente nos tornamos dois completos diferentes. Diferentes do antes, diferentes um do outro no agora. E depois de construir uma história, é impossível voltar atrás, por mais que tanto já tenha deixado de fazer sentido. Ninguém volta atrás. Se as coisas mudaram, se nós mudamos, se éramos um outro que nem reconheceríamos mais caso um dia acordemos igual seis anos atrás, não interessa. A gente não volta atrás. A gente insiste e esmurra a mesa. Foi o jeito mais inteligente que encontramos.

E enquanto a gente se pergunta se éramos um outro e se mudamos tanto, ou se estávamos lá no início fingindo ser outro - sem saber - para conseguir o que queríamos - sem ter tanta certeza assim. Enquanto não sabemos se foi certo ceder tanto, brigar tão pouco, fazer-se tão feliz, para agora ser tudo assim, ao contrário, se irritando e irritando um ao outro porque queremos um outro diferente. E nem assumimos isso. Detrás de um "sou exatamente assim" e de uma fingida segurança de que é isso que tu tem que aguentar se quiser que fiquemos juntos, a gente descobre que finge demais, muda demais, assume de menos os riscos, e deixa o tempo passar até que fiquemos completamente intolerantes, até que fiquemos desejando alguém completamente igual à nós, aos nossos desejos, aos nossos ideais. E, tomando consciência disso, tendo toda a vergonha da consciência, a certeza da impossibilidade, a gente mesmo faz o silêncio, a fuga, e dorme de costas um pro outro quando chegar de noite.

Não vamos mudar nada. Não vamos assumir coisa alguma. Vamos ceder um pouco mais agora. E acreditar. Porque existe a certeza de que estar junto é o que se quer, isso fazendo todo ou nenhum sentido. Já faz tempo que é assim. Já faz todo o tempo que é exatamente assim.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Na fila do açaí

Pessoa 01:
Moço, um açaí, por favor. De quanto? Tem de dois, de dois e cinquenta, de três, de três e cinquenta, de quatro, de quatro e cin... De sete reais.  Leite condensado? Sim, leite condensado. Só açaí? Não, açaí e cupuaçu. [Soca açaí e cupuaçu]. No meio? Leite condensado. [Soca leite condensado.] Quê mais? Farinha láctea. Granola. Castanha. Essa bolinha de chocolate. Granulado. Cobertura de morango. Mais leite condensado. [Soca leite condensado.] Leite ninho, também. [Agora soca mais açaí.]. E em cima? Quero... leite condensado. Amendoim. Castanha. Nesquik (?). Negresco. Jujuba, tem? Jujuba. Cobertura de chocolate. Esse que tem escrito "qualquer coisa". E uma colher de beijinho de coco do pote de leite moça. Isso, tá bom. Obrigada. 


Pessoa 02: 
Um açaí, por favor. De quanto?, tem de dois, de dois e cinq. De quatro e cinquenta. Só açaí. Sem cupuaçu. Com leite condensado antes. Agora açaí. Agora mais leite condensado no meio. No meio também vou querer cobertura de chocolate e de morango e de doce de leite. Coloca leite em pó e nescau e nesquik de morango (?!). Agora a granola e o granulado e a castanha. Pronto. Mais açaí. Cupuaçu também. Só um pouco. Agora mais leite condensado por cima, por favor. Tem amendoim? Amendoim. Castanha. Mais granulado, mas esse colorido agora. É. Coco ralado. Esse palitinho do ioiô mix. E um pouco mais de doce de leite por cima, por favor. Brigada. 


Pessoa 03: 
Um açaí. De . De sete reais. Leite condensado antes. Mais. Isso. Mais um pouquinho de leite condensado. Tem cupuaçu? Pronto, faz assim. Coloca uma colher de cupuaçu, isso, agora uma de açaí, isso, agora duas de cupuaçu, mais uma de açaí. Ótimo. 
E no meio? 
No meio você coloca mais leite condensado. Coloca leite ninho. Coloca farinha láctea. Granola. Amendoim. Farinha láctea de novo porque mistura por baixo e por cima com a granola e o amendoim e fica bom e faz toda a diferença. Tem granulado? Granulado. Aquelas bolinhas preta e branca que não têm gosto de nada e só de açúcar. Pronto. No meio tá bom. Cobertura de morango. E cobertura de doce de leite.
Mais açaí? 
Mais açaí e mais cupuaçu. Mas você põe o açaí embaixo. 
Embaixo não dá, já botei o leite condensado e o açaí e o cupuaçu e o recheio de 
Não, digo agora em cima do recheio. Açaí embaixo. Por cima cupuaçu. Por cima açaí. Pronto. 
Cobertura?
Quero leite condensado. Chocolate. Nesquik. Negresco. Leite em pó. Farinha láctea. Amendoim. Agora salpica um pouquinho de granola. Mais leite condensado. Cobertura de chocolate. Coco ralado. Leite em pó de novo. Esse beijinho da Leite Moça - uma colherzinha só. E uma colherada de doce de leite!!! 



Onde é que vocês vão parar?

terça-feira, 3 de novembro de 2015

No meio dos erros

Foi enquanto eu almoçava sozinha no meio de um restaurante vazio, já pelas duas da tarde. No meio de um dia absolutamente ruim, em que os acontecimentos iam de maus a péssimos, e eu ficava duplamente cansada a cada instante. Um dia que poderia não se repetir, mas que nenhuma tragédia, realmente, acontecia. Eu só me dava conta da tragédia em que eu tinha enfiado minha vida: no meio do nada, parece. E não havia nada o que fazer quanto a isso - no momento do restaurante.

E enquanto eu via o que tudo aquilo podia significar. Se a cada semana tem ficado mais difícil ter alguém para almoçar em companhia, como que deverá ser dentro de alguns anos. Como que deverá ser quando eu ficar velha. E como vou me sentir depois de envelhecer, se estiver no meio de um restaurante vazio, em plena terça-feira, levando um dia ruim e uma vida que não é uma tragédia, mas é, por isso mesmo, um plano que saiu completamente errado. Eu com a sensação e a convicção de estar assim, completamente sozinha.

E me pergunto até quando dá pra aguentar tendo consciência disso tão claramente. Escrevi pra ele: estou tendo um dia péssimo. "Normal demais", ele me respondeu me deixando pior, mas na verdade me fez rir na hora. A intenção era essa - funcionou. Mas o sushi também veio ruim, agora lembro.

E assim mesmo tive de pensar se era por isso que os dias eram ruins: porque andamos tão sozinhos. Porque somos tão sozinhos e não temos consciência disso; ou porque estamos sempre tão sozinhos e temos absoluta compreensão do que está acontecendo. Eu tenho absoluta compreensão do que está acontecendo - pode perguntar à minha terapeuta. Tô prestes a receber um parabéns (nunca uma alta terapêutica) por isso. E perguntei se não era por isso somente que nos metíamos em relacionamentos errados, em amizades que não nos trazem conforto, em telas de celulares que nos dizem, a todo instante, que ninguém está sozinho, e que todos são felizes em excesso.

Percebo que nunca acreditei nos felizes em excesso. Que não acredito mais em pessoa nenhuma, nem em mim, que me traio todo dia - desde o dia em que prometi a mim mesma dizer não aos outros, eu nunca ouvi um não sair de minha boca. Tudo pra evitar a solidão. É só em busca disso que a gente vai, corre desesperadamente, compartilha os sonhos como vitórias, as fotografias dos feitos heroicos, ouve os aplausos, e assim continuamos vidrados nas telas, nos olhos, nos abraços vazios de todo mundo. De quase todo mundo.

Fiquei pensando se ia aguentar aquilo ali por muito tempo. A consciência disso tudo, da solidão que reina sobre nós enquanto a gente pensa que reinamos sobre nós mesmos - e que temos alguma companhia na vida. Não temos. Não me restou mais otimismo para acreditar que sim. E fiquei me perguntando até quando consigo aguentar essa certeza cotidiana. E, no meio de um dia ruim, no restaurante vazio, com uma comida que não descia bem desde a primeira garfada (em hashi), pedi um café com uma certa segurança de que, sim, eu devo aguentar ainda mais. Contanto que eu não lute tanto contra a solidão dos dias ruins, dos planos errados, dos restaurantes vazios em que a comida não é tão boa. É tudo tão "normal demais", na verdade, no riso só.

Dá pra seguir, assim, pensei no último gole. Dá pra seguir. E fui terminar o dia que acabava comigo.

Desassossegos e alguns sossegos pelo sul

1. Sim, era pra eu ter trazido mais roupa de frio.

2. Era pra eu ter trazido mais roupa pra chuva.

3. Não acreditei que a chuva não pararia nem por cinco minutos.

4. Não parou.

5. Era pra eu ter trazido luvas.

6. Doze horas de viagem de ônibus passam rápido.

7. Quatro horas de viagem de ônibus duram uma eternidade.

8. Oito horas de viagem de ônibus foi razoável, não tivesse terminado com trovoadas.

9. Não acredito que vou ter de viajar de avião pra poder voltar pra casa.

10. Faz de conta que não é de avião que vou voltar pra casa.

11. Quando é que vou voltar pra casa? Tá frio.

12. Diz pro pessoal que Norte e Nordeste são bem diferentes.

13. Não sou do Norte, não, senhora.

14. E Montevidéu tem aroma canabinense. Achei agradável.

15. Na capital uruguaia eu substituiria a noção de entardecer por anoitecer, simplesmente. Porque é mais bonito. Porque significa mais assim.

16. Não é o sol indo, mas a escuridão chegando que torna tudo mais bonito.

17. Também não sinto meus pés - o que favorece a persistência dos calos.

18. Não é possível que se tenha de vestir tanta roupa pra ir até a esquina. Até a esquina.

19. E ainda assim as pessoas (?) gostam (?) tanto do frio (?).

20. Não dá pra ser feliz no frio.

21. Mas dá pra tomar cerveja no frio e sentir alguma felicidade.

22. Eu não sou do Norte.

23. Mas queria ser. Lá tem tacacá. Sorvete Cairú. Você já tomou sorvete da Cairú?

24. Penso no calor e quero voltar pra minha casa - que fica no Nordeste.

25. A primeira vez num lugar nem sempre surpreende, Porto Alegre.

26. A segunda vez num lugar pode deixar tudo melhor, Montevidéu.

27. Eu repetiria a viagem inteira,

28. Incluindo a volta pra casa.

29. Que chegar de volta é tão bom quanto partir.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Não pense no que você não pára de pensar que fica tudo bem

Faltam vinte e quatro horas pra pegar o avião e já alcancei o surto nível médio e já comecei o chá de camomila depois de comer uma fatia de pizza gordurosa que sobrou do domingo mesmo que estivesse sem fome. Isso depois de lavar chão, a roupa, as havaianas, e de engomar quinze calcinhas. Porque virginianos que não descontam sua ansiedade limpando a casa não são virginianos de verdade ou não sabem como descontar a própria ansiedade. Faltam vinte e quatro horas e minhas costas já doem e meu pescoço dá uns estalos e minha barriga anuncia: não vai descer coisa boa daqui a pouco. O dia inteiro. Porque faltam vinte e quatro horas. Mas por que, gente, essa mania feia de andar de avião em plena madrugada. Sabe se os pilotos andam dormindo? Porque, vocês sabem, né, eles tão igual a motorista da caminhão: sem dormir vários dias, pra dar conta do serviço. Juro a você. Passou num jornal, na Globo, e você sabe que pra tragédia a Globo não ia mentir, né. Pois digo que amanhã eu vou perguntar a eles. Amanhã, já que faltam vinte e quatro horas mais ou menos. Vou perguntar gritando se Moço, pelo amor de Deus, você dormiu, né? Comeu bem? Não brigou com a mulher nem vai se trancar dentro da cabine enquanto o outro sai pra fazer xixi, né isso? O quê que deu teu teste projetivo da última vez que você fez? Será se eles fazem avaliação psicológica regularmente. Imagina. Falar em psicólogo acho que vou ligar pra minha psicóloga enquanto surto. Mas é quase meia noite. Mas amanhã quase meia noite eu não sei se vou estar respirando normalmente, já que agora eu já estou assim: feito uma pessoa que só tem um pulmão funcionando. Respirando com força. Deve ser isso minha dor nas costas. Meus pulmões começaram a sofrer com minha ansiedade. Imagina se eu tenho um negócio lá em cima, então, puta merda, não acredito, imagina se passo mal. Agora mais essa. E eu não sei por que Marina insiste em eu tomar comprimido porque eu já disse a ela que tenho medo de passar mal com o efeito do comprimido e ter consciência disso com o avião lá em cima e tendo consciência eu começar a passar mal três vezes: do efeito do remédio, do medo de avião, da consciência de estar passando mal com o efeito do remédio dentro dum avião. Vai que não tem médico lá em cima. E vai que tem mas ele não consegue me ajudar. Vai que eu morro. Tenho muito medo de morrer, juro. Tenho muito medo de avião, juro demais também. Vai que bate. Noutro avião, quando tá no céu. Eu vou avisar pro piloto na hora de perguntar se ele dormiu: pra ele olhar pra frente, e também pros lados, direitinho. Nunca se sabe, né. Uma contramão. Eu não acredito nesse negócio de "rota", então queria que eles tomassem mais cuidado. Eu não sei se eles tomam realmente cuidado e por isso eu tenho medo porque, né, cê sabe. Vou nem falar pra não ficar mais ansiosa e comer mais pizza e ter de tomar mais chá de camomila. De repente eu nem consigo acordar amanhã de manhã e perco todos os horários e isso vai me deixar mais nervosa pra quando der a hora de viajar. Então também não vou tomar muito chá de camomila. Talvez não tome nem esse. Meu Deus. Acho que eu preciso vomitar um pouco. Tá difícil. Tá bem difícil. Minha mãe me disse que "eu nem pensasse". Imagina, agora sim, ficou tudo bem!!!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Não faz muito tempo

Não faz tempo que tenho medo de avião. Começou depois.

A gente estava indo para o Chile quando o avião, lá no aeroporto de Parnamirim, ainda, nos trancou dentro dele por uma hora e meia. Depois de cinquenta minutos, metade das pessoas respirava acelerado, suava acelerado, tinha batimentos cardíacos acelerados. Ninguém entendia o que estava acontecendo, mas todo mundo tinha certeza que era só uma tripulação atrasada que não se importava nem um pouco com a síndrome claustrofóbica irreversível que eles estavam produzindo numa centena de passageiros. "Foi mal aí, gente, o avião tá com um problema no motor, vamos trocar de aeronave."

Como que mandam a gente entrar no avião assim, gente? Como que deixam a gente preso por duas horas pra dizer que quase tínhamos voado num avião quebrado que quase podia ter caído que quase podia ter matado todos nós assim tão rápido? Foram olhar o motor depois que tava todo mundo lá dentro? Então foi por acaso. Suspeitassem de algo errado não teriam feito a gente entrar ali. Tenho certeza. Num tenho? Né verdade?

Pânico inicial.

Na volta do Chile, entre Santiago e São Paulo, depois de ter atrasado mais de três horas, garantindo a perda do nosso voo para Natal e uma espera de mais de sete horas em Guarulhos, o avião aguçou nossas emoções dizendo: gente, vou cair. Mas era só (?) uma zona de turbulência. Lembro de nesse dia eu e Otávio termos nos olhado como quem diz que sabe o que vai acontecer (a morte) mas que é melhor não falar sobre e apenas dar as mãos em sinal de nosso amor. Não caiu. Perdemos nosso voo. Tivemos péssimas horas em Guarulhos (parece pleonasmo) e um voo nunca mais foi o mesmo depois daquilo.

Olha que dezembro passado eu estava em Montevidéu e o pessoal quis ir no museu onde tem os destroços daquele desastre de avião que os migo ficaram em cima da montanha e tiveram de comer as carnes dos que morreram porque estavam passando fome e porque escutaram pelo rádio que as buscas iam ser suspensas porque ninguém encontrava os rapazes e daí o cara fez um museu sobre isso (que eu não vou procurar no google para contar essa história direito, por motivos óbvios de ainda querer dormir e viajar ao longo da minha vida) e as pessoas vão lá visitar e se emocionar com a história dele. Eu pedia para meus companheiros de viagem não falassem sobre isso porque, durante uma viagem, eu preciso esquecer que ela é uma viagem já que isso implica em andar de avião para voltar pra casa, mas isso só reforçou o contrário, é claro: e fui obrigada a ouvir os relatos minuciosos que, até hoje, o cara do museu conta para seus visitantes que não têm medo de entrar numa aeronave e acham essa visita uma parte especial duma ida a Montevidéu.


Me vejo lá sentada confiando minha viagem e minha vida a um máquina e a um grupo de pessoas que andam com a roupa mais engomada que já vi, elas garantindo que tudo vai ficar bem, que é muito normal levantar voo, atravessar oceanos, desacelerar e pousar. Natural.
Imagino se a gente fica no prego, de repente. O motor pára. Não tem ninguém pra empurrar. No avião tem embreagem? Fico preocupada de se falta embreagem. Uma vez aconteceu isso no meu carro e foi bem ruim e fiquei imaginando se me acontecia enquanto eu descia a ladeira da Ribeira, por exemplo. Imagino se isso pode acontecer com um avião. Por cima do mar, ainda mais. Acredito piamente na possibilidade de colisão entre dois aviões e sinto que não devia estar escrevendo esse texto, agora, porque estou ficando mais ansiosa. Mas sim. Esse monte de gente voando, avião pra tudo que é lado, a tantos quilômetros por hora. Não tem como bater não, gente? Falo sério. Sem piada. Eu sento na cadeira do corredor (nunca na janela) e tento olhar mais à frente e conferir se tá tudo limpinho por ali mesmo, se não vem ninguém na contra mão (ou se não é a gente que tá na contra mão). "Mas tem a rota". Que rota, gente? Como é que vocês acreditam tanto nisso.

Minha psicóloga tentou conversar comigo sobre isso, já. Minha mãe não quer que eu fale nem pense sobre essas coisas porque "atrai". Pra minha mãe tudo "atrai". Que é melhor só pensar nas coisas boas da viagem.

Semana que vem vou viajar e estou aqui meditando coisas boas. E penso. Mas há dias que já comecei a respirar mais rápido, a dormir menos, a ter uma vontade saudável de gritar o mais alto que eu puder, levantando os braços ao mesmo tempo, transmitindo o desespero que já é real. É quando começo a pedir para que o avião não caia, não bata, não perca o freio quando precisar do freio, que o motorista não cochile, MEU DEUS, nem tinha lembrado disso. O cochilo.

Mas como eu disse, não faz muito tempo que tenho medo de avião. Quem sabe dá pra reverter, ainda.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Agora, sim, pode começar

Não seja radical. Não tenha nem fale ideias radicais. Aliás não fale demais. Nem fale de menos. Não seja calado, principalmente não seja calado. E não diga tudo o que você pensa. Seja mais discreto. Seja mais amigo. E tolere, tolere muito. Tolere as pessoas e as ame um pouco mais, mesmo sem recíproca. Você precisa delas. Você não pode ser sozinho. Então não diga o que você (realmente) pensa. Não acredite que as pessoas querem que você seja realmente sincero. Ninguém quer sinceridade. Ninguém quer a sua sinceridade. Não seja muito diferente. Se for pra ser muito diferente, procure um grupo onde todos tenham por objetivo serem muito diferentes e se aceitam assim mesmo. Fica mais fácil. Exato, sempre vai ser difícil, sempre vai ser impossível de tolerar, mas tolere. Seja você mesmo alguém mais fácil. Não fale de si. Qualquer pessoa pode usar qualquer uma de suas frases contra você. E vai usar. E você não vai ter quem te defenda. Você nunca vai ter quem te defenda. No fim das contas você sempre vai estar sozinho mas tem que se esforçar para não estar sendo alguém que você não é realmente que é para ser menos sozinho. Ou acreditar que não é tão sozinho quanto de fato o é. E você vai ser o último a saber. Mas não se importe. Não chore demais. Não reclame muito. Não fique perdido! Decida logo onde você vai estar e o que vai fazer e por quê. Pessoas indecisas não hão de ser aceitas, e não dá pra ser assim. Ninguém tem paciência com a sua tristeza, também. Só desejam que você tenha paciência com a tristeza delas. Então não espere muito. Não espere nada. Elas não se importam. A regra principal é esperar quase nada que hão de lhe dar - não hão de lhe dar nada, no mais das vezes, e quando isso acontece o preço pode ser caro. E nunca deixe que saibam que você sabe desse tudo. Guarde e vá em frente. Que seja assim desde o começo.


Agora que a vida terminou, já pode começar.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A pior parte de ser adulto

Assim mesmo. Cresci achando e tendo certeza absoluta de que a vida adulta seria isso: uma rotina meio vazia e meio chata depois da faculdade, uma corrida atrapalhada e horrorosa atrás de um bom emprego, uma dificuldade infinita em conciliar felicidade e ganhar dinheiro (dois expoentes da vida que têm grandes dificuldades de se encontrar, quando ficamos adultos), uma ali tendo filho e outra tendo dois filhos, um amigo casando com outro amigo, os pais envelhecendo e a gente ficando parecidos com as caras que nossos pais tinham quando conhecemos nossos amigos de infância e eles tinham aquela cara das fotos que vemos hoje e não nos reconhecemos mais nas crianças, e sim neles.

Um caminho absolutamente previsível e com percalços previsíveis, e não muito estimulante, caindo pro tédio de vez em quando, mas com a certeza de que ele iria por aí mesmo. E vai. O problema foi que não me avisaram que o início da vida adulta (de verdade) significava uma sucessão de despedidas. Porque todo mundo vai embora. Ninguém me avisou, mas todo mundo vai morar fora. Todo mundo.

O irmão sai de casa quando você tem 15, outra amiga sai quando você tem 18, e mais alguns anos à frente ela volta, sendo que quando ela volta, o amigo vai embora pro intercâmbio que termina ficando por lá e o intercâmbio dura para toda a vida, e mais outro amigo muda de cidade pra começar um emprego novo, e a amiga que tinha ido e tinha voltado vai embora de novo, e quando vemos não restou mais ninguém. E ainda tem mais gente indo embora depois que não restou mais ninguém - porque até isso é possível.

Se eu me mudasse pra Finlândia ou pro Acre agora mesmo não acho que faria tanta diferença na minha vida: não teria quase nenhum amigo na mesma cidade que eu, porque não sobrou mais nenhum aqui. Mentira, ainda tem, é claro. Só não sei até quando.

Mas nesse meu estágio de maturidade da idade adulta, veja só o que chamo de maturidade, nesse meu estágio de maturidade da idade adulta eu já sei que não vai sobrar mais ninguém. E me lembro bem daqueles dias que passei na Suécia: numa cidade que quase não tinha gente e as gentes que tinham mal falavam porque não abriam a boca nem pra dizer um obrigado e havia algumas gentes que eram amigos e se conheciam mas eles ficavam mais calados que conversando e tudo era um silêncio só. Fiquei surda de tanto silêncio que ouvi na Suécia. E senti quase o mesmo vazio que sinto agora, exatamente por causa disso: o silêncio.

Pra eu ver meus melhores amigos eu agora tenho de pegar aviões (no plural, por conta das escalas), e aviões diferentes, e escalas diferentes. Parece que faz cinquenta anos quando eu conseguia ver todos no mesmo fim de semana, às vezes no mesmo lugar, no máximo em dois lugares diferentes. Esforço nenhum. Vida boa em excesso. Lembro disso com a nostalgia dum velho que lembra da infância que não volta nunca mais. Sinto saudade e raiva por estar todo mundo tão longe e mais raiva por estar todo mundo longe enquanto eu penso que quando estavam perto eu deveria ter aproveitado ainda mais porque deveria ter adivinhado que ia todo mundo embora.

Só eu vou ficando. E isso é o mesmo que ir embora pra não voltar mais, ou pra voltar poucas vezes. Agora é ver todo mundo partir pra um mundo grande demais. É só nisso que penso agora. E esse negócio de ser adulto está só começando.

domingo, 16 de agosto de 2015

Raduan

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo. 


Aí pelas três da tarde.
Conto de Raduan Nassar.

domingo, 2 de agosto de 2015

Como tudo vai

A gente tem ficado mais teimoso e mais difícil de aceitar que estamos assim. Já mergulhamos naquele momento crítico da vida onde nos damos conta de que absolutamente nada do que tínhamos planejado para esse momento da idade está acontecendo. Está tudo desacontecendo. Está tudo meio errado e completamente incerto, eu penso. Tento me segurar como quem segura os pensamentos para não pensar em nada mais. Tá tudo errado, eu penso de novo. Parece certo, mas não tem nada no lugar. E eu não sei como fazer isso funcionar. (Quando pensei que sabia e fui fazendo, não fiz nada certo outra vez.)

Mas já ficamos teimosos demais para aceitar que não sabemos fazer as coisas, que não conseguimos colocar os passos nos eixos. E a culpa dos outros, e vai ser sempre dos outros, não vai? Que a essa altura a gente já evita e diz que não dá mais pra se olhar no espelho. 

Acho que vou me desfazer de quase todas as minhas roupas, eu disse. Até as que eu uso às vezes, até as que eu gosto, as que eu acho bonitas. Por que?, ele disse perguntando. Porque sim. Porque nada mais cai bem, nada mais fica como eu quero nem dá certo. Tá tudo folgado ou apertado demais. Tudo feio e fora de época, fora de mim. Tudo fora do meu controle. Quando reparei na metáfora.

E depois que mergulhamos na teimosia sem aceita-la (porque senão não seria teimosia) passamos a ter uma certeza absoluta de que nós somos realmente o fracasso completo, desde o começo. E também começamos a achar que é melhor parar de falar em primeira pessoa do plural e assumir a primeira pessoa do singular. Assumindo a certeza de que você está sozinho nisso tudo, mesmo que haja mais alguém na mesma situação. 

Tá tudo errado, eu penso. Nada vai muito pra frente, e eu fico mais pra dentro de um caverna a cada dia. Não saio de uma caverna que mal conheço. 
Tá tudo errado, porque não consegui consertar nada da lista de atitudes-a-analisar, e a solidão ainda é desesperada. 
Tudo está completamente errado, se a solidão ainda é desesperada. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Instavelmente

Amanhã de manhã mesmo vou direto na agência e vou saber dessa viagem, vou fazer essa viagem, vou com medo de avião mas vou, tenho certeza de que posso fazer isso e mais, vou viajar, vou parar de perder tempo. /
Não vou a lugar nenhum. Não quero ir a lugar nenhum. Não quero viajar, não quero entrar num avião, não quero andar de avião. Não quero que me perguntem quando vou viajar e andar de avião.

Hoje à tarde vou trabalhar e cumprir a lista inteira, e fazer os check-check-check, porque a melhor parte de trabalhar é fazer uma lista com tarefas fáceis e rápidas e fazer o check-check-check em uma tarde e se sentir um ser humano de verdade quando se faz isso (risca um papel). /
Hoje à tarde vou dormir. Não quero nem vou trabalhar (nunca mais).

Passei a escrever todos os dias. Vou terminar de ajeitar o livro. Falta pouco, o livro é pouco, vou terminar. Vou também rascunhar alguma coisa nova. Vou rascunhar um texto novo todos os dias, para algo sair bom dentro de uma semana, por exemplo, e o livro novo já sai, e o romance já se desenha, e as coisas andam melhor assim. /
Não escrevo nada. Não quero escrever. Não tenho nada pra escrever agora. Não acredito em rascunhos cotidianos.

Vou ler esses três livros ao mesmo tempo. Já estou fazendo isso e está dando certo porque eles são de tamanhos diferentes, épocas diferentes, estilos diferentes. Vou ler três livros ao mesmo tempo e terminar um deles em uma semana. /
Não leio nada há dias.

Melhor começar logo uma dieta. Dá pra ver que depois dos vinte e quatro um ritual de passagem pelo qual não passamos destruiu toda a capacidade de emagrecimento rápido só com exercícios físicos. Hoje mesmo vou preparar uma salada e /
Café. Chocolate. E vou pular o almoço, porque almoçar é um saco, sinceramente.

Acho que a gente podia dar uma fugida no fim de semana, e ir pra algum lugar só a gente. A gente devia viajar mais, sair mais daqui. Abrir mais as janelas e a porta da frente (pra sair e ir embora). /
Não vamos a lugar nenhum. Não quero ir a lugar nenhum.

Quando me deu uma súbita consciência de que eu deveria abraçar mais os outros, literal e não literalmente. E fazer mais sorrisos enquanto isso. A vida passa rápido, o tempo é pouco demais. /
Não vejo ninguém há cinco dias. Não quero ver ninguém nos próximos cinco anos. E milênio.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Tentativa e muito erro

Tentei.

Era sábado à noite e eu não cozinhava (porque não sei cozinhar) e Otávio cozinhava pra mim enquanto eu pensava sobre tudo o que tinha pra fazer e que já poderia ter feito há dias, pois: estou de férias da faculdade e as horas do dia sobram. (Do trabalho não tenho férias porque meu trabalho não é normativo nem vou pra empresa nenhuma nem preciso colocar uma roupa decente pra trabalhar. Fico de pijama fazendo o que devo. Mas às vezes atraso. E tava tudo atrasado.)

Eu tava vendo o Hypeness (sim, eu faço isso, me desculpa se te desapontei) e tava lá: Desafio Parar de Procrastinar. Vamos. Vamos ler, né. Fazer agora não, porque é sábado à noite e lá vem da cozinha um petit gateau no meio da dieta que é pra vida ficar boa. Eu procrastino a dieta, avalie a vida real.

Li e era bem plausível e bem real e bem dá-pra-acreditar-que-vou-conseguir. Fiz a lista antes que o petit gateau saísse do forno e já tinha: Desafio Parar de Procrastinar do domingo até a sexta (amanhã que já é hoje).

A ideia não era só listar o que você tinha que fazer que vinha adiando. Mas colocar pequenas metas para cada dia, desmembrá-las em muitas. Cada etapa da tarefa adiada era um item a ser riscado. Cada risco produziria uma sensação de felicidade, um mini-orgasmo, uma endorfina pós treino. E assim sua vida entraria nos eixos e você entraria finalmente onde já deveria estar há anos: na vida adulta. Finalmente responsável.

Dos dez itens do domingo, cumpri nove.
Dos oito itens da segunda, cumpri seis, mais um do domingo, aí seriam sete, só que ainda assim seis.
Dos nove ou dez itens da terça, não olhei pra nenhum e fiz o que deu e me esforcei durante o dia e posterguei pouco e tive até alguém me ajudando (eu ia reler o livro novo; um anjo apareceu querendo fazer isso pra mim pra gastar a sinceridade). Risquei a metade, no final.
Dos sete itens da quarta e dos oito da quinta: não sei quais fiz nem o que eram porque hoje arranquei os papéis da parede, rasguei, amassei, e joguei no lixo. Tudo. Inclusive com os adesivos do Pequeno Príncipe que eu tinha emoldurado.

Me imagino sem necessariamente procrastinar por um dia e só penso que no fim do dia vou ter uma sensação de que fiz muito mais pelos outros do que por mim. Na minha lista de procrastinar não coloquei ler livros. Nem estudar línguas. Nem descansar nem falar mal das pessoas. Nem ver receitas que nunca conseguirei fazer mas que sempre vejo porque sempre acho que serei capaz um dia. Não coloquei nenhum filme pra assistir. E coloquei pra escrever todos os dias, mas fiz isso só no domingo.

A lista de evitar procrastinar só me deu mais insônia, gordura localizada, nervosismo, e só me deu vontade de fazer o que sempre faço quando tenho uma lista muito extensa de coisas a fazer: limpar a casa ou organizar a gaveta de calcinhas.

Depois que arranquei os papéis da parede, rasguei a lista aos prantos de ódio (mentira), e comemorei o alívio em seguida com um sorriso no rosto (mentira), trabalhei em paz, reclamei da vida, xinguei as pessoas que me interromperam enquanto eu fazia essas duas coisas, e o dia passou e rendeu. E terminou bem.

Agora me dá licença que vou comer chocolate. Amanhã eu volto pra dieta.

Ou segunda-feira.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Carta a voinha

Oi, Vó.

Olhe, escrevo pra dizer que, depois que a senhora foi embora, eu tomei algumas decisões desimportantes na vida muito importantes pra mim. Tudo a favor da sua melhor memória, que foi a decisão principal (e realmente importante) por cima de todas elas.

Depois que a senhora foi embora, eu nunca mais comi cozido. Toda semana, quando vou no self-service aqui da rua, uma das duas ou três vezes em que passo por lá, tem cozido pra comer com pirão. Igualzinho na sua casa - que também tinha toda semana ou a cada duas, talvez. Porque já não basta eu não poder mais almoçar com a senhora todo dia, e ter que comer em self-service, eu ainda me dobrar ao cozido dos outros! Ou ao cozido dos outros mas sem ser na sua mesa de madeira de frente pra você. Nam! Resisto todas as vezes. Aliás, nem me dá vontade: a senhora não tá ali mesmo.

Porque, também, assim que a senhora foi embora, eu quase que me recusava a almoçar. Exatamente porque tinha que comer em tudo quanto é lugar, menos na casa da senhora. Achava horrível. A comida descia ruim ou nem descia. Botava quase nada no prato e deixava tudo. Quase que tomei a decisão de pular essa refeição pro resto da vida, que não fazia mais sentido nenhum todo dia ter que parar pra almoçar se não era pra parar vendo a senhora. Eu não.

Também não como mais rabanadas. Dias depois que a senhora partiu, sentei pra comer umas e me arrependi. Estavam horríveis! Na verdade deviam estar bem boas, mas o gosto foi quadrado, como se dissesse: você teve o atrevimento de achar que o gosto seria o mesmo das fatias douradas de Naide? Coitada! E pegue gosto ruim na boca.

Estou cheia de roupa rasgada sem mandar ninguém costurar. Sim, porque, se não for a senhora, vou pedir a quem? A uma costureira? Eu não! Não faço isso de jeito nenhum. Não vai ter a graça de roupa remendada recebida com o carinho de quem costura nossas dores. As avós fazem isso - a minha geração vai ser de avós que só vão fazer torradas com esse carinho. Porque costurar a gente já não faz. Eu devia ter aprendido a costurar com a senhora, pra agora não ficar com aquela saia preta rasgada no cós, a saia azul caindo da cintura, a barra da calça do kung fu com o elástico desfeito (fui treinar e quase caio). Também tem vestido folgado no busto. Nada disso eu conserto nem costuro; não quero que mais ninguém faça isso pra mim, nem sei fazer. E se soubesse: não ia fazer não. Se não for a senhora, não pode nem tem graça. Parece traição, coisa feia. E não me dá nas vontades.

Hoje quando me reconheceram como sua neta e começaram a desmanchar os olhos em lágrimas eu me segurei, voinha. Chorei não. Ri. Sorri bem aberto e bem muito. Porque também decidi que eu ia ser mais alegre, alegre que nem a senhora, e que a saudade, mesmo doendo, tinha que ser bonita.

Decidi tudo isso quando a senhora foi embora. Decidi sem pensar; decidi fazendo, entende? Quando a gente se encontrar de novo, vou querer rabanadas - e por isso espero que seja num vinte e cinco de dezembro, porque fica mais garantido comê-las assim que chegar. Vou levar as saias e os vestidos pra senhora costurar. Pra senhora me costurar.

Beijo, vó!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Uma coisa de cada vez

Enquanto as pessoas pensam em ter filhos e eu penso em qual país será o próximo que eu vou visitar, e eu penso em ter filhos e em qual país será o próximo que eu vou visitar antes deles e qual será o próximo país a visitar com os filhos, e quais os nomes que eles terão, os filhos, e se serão parecidos comigo ou não (os países), ou com meus pais (os filhos), talvez, quais sobrenomes ficarão e quais sairão, e qual país é melhor de se viajar agora e qual melhor deixar pra depois, e se está certo essa escolha acadêmica de agora e a desescolha de antes, e se eu tenho estudado o suficiente e trabalhado o suficiente e juntado o dinheiro o suficiente para ter filhos, ou viajar para um próximo país, ou fazer as duas coisas, uma de cada vez, as duas juntas, mas uma de cada vez, pois não é possível ter filhos viajando.

Enquanto todas as amigas já sabem cozinhar e já sabem qual o prato preferido do namorado que já é noivo que logo será marido que já tem o emprego dos sonhos (os dois) e o apartamento financiado (os dois) ou já todo pronto em fortuna, e já têm fortuna, tão cedo, e eu penso se estou juntando dinheiro o suficiente, se estou trabalhando realmente duro, e eu sei que sim, eu sei que estou, eu tenho trabalhado cada vez mais, mas acho que não tenho estudado tanto, e esses dias cansei um pouco, não de estar cansada de exausta, mas de estar cansada de saco cheio, e fiquei meio insatisfeita com tudo e só quis ler, e me deitei e me acordei tarde e trabalhei pouco. E teve dias que quase não acordei o dia inteiro. Tive tantos pesos na consciência que nem tive insônia, e isso foi absurdamente esquisito. Trabalhei pouco e estudei nada e juntei pouco dinheiro porque não recebi nada esse mês também. E fiquei apreensiva por dez minutos e depois não mais. E me perguntei onde estava minha idade adulta, se ela já tinha começado e parado, ou se realmente tinha pelo menos começado. E enquanto isso todas as minhas amigas sabem cozinhar e conduzir casamentos e eu só frito ovos e faço suco verde às seis da manhã antes do pilates, e pareço fazer tudo errado no meu relacionamento que vai bem.

E enquanto minhas amigas planejam o apartamento com varanda e eu digo que quero muito uma casa cheia de cachorros e também com jardim e quintal elas gritam assustadas se eu estou louca, que a violência é uma coisa impossível de lidar hoje, e como que eu ainda sonho com algo tão irreal como uma casa e jardim e cachorros e uma vida feliz e não apreensiva dentro disso. E eu só fico apreensiva porque não tenho dinheiro nenhum pra comprar uma casa nem a grama do jardim nem a ração do cachorro pois eu vou ser professora, digo e penso e nem digo mais, e penso logo que melhor ir embora e mudar de cidade, ir para o interior, e lá ter os filhos e os cachorros, e a vida vai ser simples e boa, não vai, amor?, e ao mesmo tempo penso em qual país eu devo ir agora viajar, e se lá vou estudar ou trabalhar ou fazer filhos para tê-los na volta, mas e a casa como vamos comprar, será que estou estudando e trabalhando o suficiente, fazendo as duas coisas de uma vez?, todas as coisas duma vez?, todas as coisas de uma só vez.
a-mor
te
amo

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Instantes

No pé da Ribeira, na avenida Duque de Caxias, bem logo após sua descida. Um antes início de cidade, agora pedaço abandonado e escuro; com jeito de alguém que maquia o que não presta mais pra nada. A Ribeira já é assim, não mais está assim.

Segunda-feira à noite e estávamos ali no canteiro central, de frente aos carros estacionados – os carros das vagas do canteiro central. De frente para os carros e também para um feriado de dia seguinte, que não significa enforcar mais nada. Não se enforcam dias mais hoje. Só gentes. E tempo, quando o perde fazendo o que não for importante (trabalho em excesso). Segunda-feira tinha sido um dia de trabalho em excesso.

E ali ficamos olhando para cima, pois se estávamos em baixo, abaixo, tão ao pé de tudo. Os prédios não só arranhando como arreganhando todo o céu, à esquerda e à direita; já no alto, mais altos, depois do céu. Falávamos dos prédios à esquerda e à direita e sobre apartamentos. Também os bairros da cidade de ali do entorno.

E fingíamos muito bem falar e se importar com algum futuro, quando devíamos de estar muito mais com nostalgia de passado, ou indiferença ao presente. Com uma preguiça de futuro, por assim dizer, digo mesmo, que acho que é bem isso. Acho que tem sido bem isso. Uma preguiça de futuro e uma vontade de que a cidade fosse uma outra, um pouco outra; as pessoas fossem outras, fossem menos, fossem poucas. Sabemos que tudo podia ser melhor, e que podia ser melhor de um jeito muito simples.

Ali também talvez com uma vontade de que o tempo fosse mais moroso. Ali, dali em diante, e por agora também. Era um momento qualquer, e não realmente importante, mas que era tanto. Não dizia muita coisa e me significava muito. Como se fizesse alguma diferença acontecer por ali. Aliás, tenho memórias de eventos e frases tão aparentemente insignificantes; passam-se os anos e não me saem da cabeça. Acho que o trivial nos repete mais na lembrança do que os grandes dias (que nunca o são).

Duas idades tão longes (assim no plural, porque distâncias e espaços de tempo são quantizados, acho justo) metidas ali no pé duma ladeira, num bairro abandonado da cidade, segunda à noite. Os ônibus passando em barulhos próprios. E uma ambulância que saísse do instituto médico legal sem fazer barulho.

Podia ser que fosse perigoso ficar mais tempo ali. Começa a vir um homem do lado esquerdo do canteiro, carregando um saco nas costas, uma sacola muito grande. Quase ninguém anda por esse bairro a essa hora da noite – é um bairro sem pedestres noturnos. Bairro abandonado. Penso que só pessoas abandonadas andam corajosamente por bairros abandonados por essa hora do dia. E por gente abandonada aqui nessa cidade temos todos.

Lá vem o homem no meio da escuridão com uma sacola imensa e que anda meio trôpego e vem sem medo. A gente não desiste de estar ali e ele vai chegar bem próximo vindo de toda escuridão.

Estamos só nós na calçada falando sobre prédios e livros e o ônibus passa em barulho e uma ambulância sai ou chega sem sirene e nada existe na Ribeira por enquanto. A Ribeira às vezes parece estar em suspenso; suspende-se muito à noite, em silêncio e em abandono muito próprios, muito seus.

Como naqueles minutos.

O poste em cima da gente tem luz e o homem se aproxima para passar direto: é branco, nem velho nem novo, carrega saco nas costas, anda trôpego, e tem um rosto disforme e monstruoso. Ele não nos olha. Tem os olhos claros e pisa firme, anda sem medo, a pele do rosto parece brilhar sob a luz, e há cicatrizes no rosto; a cabeça monstruosa, disforme, bem erguida com um olhar de quem olha muito à frente sem olhar para lugar nenhum. O saco nas costas não lhe pesa, mas ele vai trôpego, e vai assim mesmo.

Nesse bairro abandonado.
Penso que só pessoas abandonadas andam corajosamente por bairros abandonados.
Ele vai. A gente finge se preocupar com algum futuro e não faz muita questão que o tempo passe, apesar do lugar ali pouco propício a qualquer coisa.

Tudo isso dura três minutos.
Me despeço do meu pai e volto pra casa. Acho que quando ele chegou em sua casa, também foi ler literatura. Não pensamos mais em apartamentos nem em futuro nenhum.

Mas isso não é bem postergar

Eu queria só um tempo a mais pra escrever, eu disse, que não tem sobrado tempo, e quando sobra eu escrevo, e mesmo sem sobrar eu tenho tentado escrever um pouco, falei. Mas é difícil. O ato de escrever é muito mais pensar e imaginar do que escrever, e enquanto se pensa e escreve: quem estiver por perto tem certeza de que você não faz nada de importante e que por isso tudo bem interromper. Uma, duas, várias vezes. A campainha, o telefone, e a mesma pessoa várias vezes. Melhor seria estar em um país estrangeiro, pensei. Quando estive em país estrangeiro escrevi muito, na cabeça e no papel e no computador. Aliás escrevi textos inteiros e grandes na cabeça e quando voltei consegui colocar tudo por inteiro no papel. Não teve telefone nem campainha. E eu não tive vontade de berrar ESTOU TRABALHANDO quando alguém interrompia meu pensamento porque não foi preciso. Mas só fiz histórias curtas. Agora tenho pensado em duas grandes histórias e no que isso pode virar. Muita coisa ou simplesmente nada. Especialmente quando eu coloco a história dentro da minha cabeça e começo a desenhar um personagem e BRÁ a reforma no andar de cima recomeça e BLÃM alguém bate a porta aqui enquanto fala qualquer coisa inútil. As pessoas gastam energia demais a dizer inutilidades e isso cansa a mim e não a elas. Repeti: queria só um tempo a mais pra escrever, agora tenho, tenho só um pouco mais. É provisório. Não é em país estrangeiro. A reforma lá em cima não acaba (nunca), dura meses, perturba qualquer coisa que eu faça e nesses dias eu subo e esgano o pedreiro mas antes pergunto pela proprietária que ainda não se mudou e vou por favor esganá-la e pisar no pescoço dela todo. Vou, sim. Esse enredo eu tramo todos os dias e não escrevo nem faço. Porque o barulho me interrompe todos os enredos que crio e que ficam pelo caminho, e que recomeçam ao silêncio, e que no próximo BRÁ e PÁ eles se perdem tudo de novo. Grandes sustos e ira. Meus pedaços de textos não são mais publicados por falta de tempo do editor. Não me escrevo nada de novo por falta de tempo que é o mesmo que falta de vergonha na cara. Vou fazer as histórias grandes ganharem um corpo, mesmo que feio. Se não gostar, que se dane, escrevo mais depois. Tanta coisa guardada. Tanta coisa guardada que devia já ter publicado porque texto velho perde o sentido se a gente não conseguir melhorá-lo quando pegá-lo mais umas quinze vezes. Não sei se posso muito mais. Quero mais tempo pra escrever e um texto publicado. Vou tentar aquela revista - mas gastar munição (conto) dum próximo livro eu não quero. Vou tentar pensar na história gigante. Mas tem que haver um pouco todo dia. E o trabalho me esperou hoje o dia inteiro enquanto pensei e vivi e não escrevi isso tudo.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma segunda-feira de 2015

Na minha timeline, uma mulher está revoltada contra o feminismo, que pra ela não existe de jeito nenhum. Ela define feminismo como feminazismo, chama as feministas de feminazis, afirma que feministas são mulheres querendo ser diferentes de homens, e que elas têm as tetas caídas. Eu não sabia que ela tinha algo a ver com as tetas das outras mulheres, mas consigo perceber que faltam-lhe habilidades cognitivas necessárias para entender e lembrar o que é feminismo.

Ela diz que esse papo de que mulher ganha menos que homem é mentira. Que, se assim fosse, os homens estariam todos desempregados e as mulheres todas empregadas, que é para a empresa lucrar mais. Infelizmente o espaço em branco que ela tem no lugar do senso crítico não deu nem o estalo para pensar sobre licença maternidade e paternidade - que, no Brasil, já é um ato sexista em si mesmo: a mulher fica meses com a criança em casa, enquanto o pai fica alguns dias. A desproporcionalidade de uma licença para outra se apóia num tradicionalismo que eu não vou falar aqui porque essa mulher anti-feminismo nunca vai ler esse post e as três pessoas que lêem esse blog entendem o que eu tô falando sem que eu me estenda e percebem o impacto que ambas as licenças podem ter no mundo corporativo.

Também conta que não somos oprimidas. E que se quisermos ver uma real opressão à figura feminina nós deveríamos ir ao Oriente Médio!!! É como o médico que vê nosso filho doente, ardendo em febre alta, e, quando a gente diz "mas ele podia estar lá fora brincando", ele responde "mas ele podia estar morto, minha senhora, ave maria!". Eu fiquei assustada mas depois fiquei feliz por ela porque, se ela disse isso, muito provavelmente nunca foi assediada verbal nem moralmente por ser mulher, nunca foi destratada por ser mulher, e nunca teve um tratamento diferenciando estando sozinha e quando está acompanhada de um homem. Eu, que passo por isso todos dias, fiquei feliz por ela, realmente. Quem sabe ela já viva um cotidiano que o feminismo (que ela repudia) conseguiu conquistar.

Nessa segunda-feira de 2015, uma mulher ataca o feminismo e sugere o Oriente Médio como real parâmetro da opressão às mulheres.

Finalmente um dia dos namorados se passa com uma propaganda cujos casais-propaganda não são somente casais héteros. Aqui na cidade, o shopping famoso não fez isso, por exemplo. E não consigo lembrar agora de nenhuma outra empresa fazendo algo parecido. Nessa segunda-feira de 2015, um único comercial de televisão assume publicamente o que todo mundo já sabe: as pessoas se amam. (?)

Mas, nesse mesmo dia e ano, lá vamos: ler quem diga que "o comercial banaliza a família tradicional brasileira". Fiquei sem entender; por que que uma família que banaliza o amor entre duas pessoas do mesmo gênero seria tradicional. Eu achando que eles deveriam receber outro adjetivo no lugar.

"Um comercial onde aparecem famílias homossexuais como se isso fosse normal". Mas anormal não seria escrever um comentário desses achando que está dizendo algo que faz sentido?

E o arremate clássico: "não tenho preconceito contra homossexuais, mas estou preocupada com meus filhos pequenos assistindo a esse comercial" e crescendo sem preconceitos. Imagine! Deus me livre! Aliás.

Quem sabe em 3015 isso tudo não fica diferente. Eu e um monte de gente que é, assim, pra-frente demais - é o que os fatos dessa segunda-feira de 2015 nos dizem. E parece que nada muda. Mas muda: quem sabe fica um pouco diferente em 3015, como disse. Quem sabe.

Desespero normativo

Tem que estudar um pouco mais. Tem que ser o melhor aluno da sala. Tem que tirar dez. Tem que passar de primeira. Tem que estudar e trabalhar agora. Tem que trabalhar muito e ser muito bom no que faz. Tem que ser prodígio. Tem que fazer sucesso rápido. Tudo bem não fazer dinheiro tão rápido, mas tem que fazer dinheiro. Um dia, que seja muito. Tem que fazer muito dinheiro. Porque tem que comprar um carro novo. Tem que trocar o carro usado por um carro novo. Tem que comprar um carro ainda melhor porque tem que não regredir de carro e sempre ter um melhor que o anterior (que já era bom). Tem que trabalhar mais. E tem que estudar e nunca parar de estudar porque tem que ser muito inteligente. Viu? Isso, tem que fazer tudo ao mesmo tempo. Tem que passar no concurso público e tem que fazer mestrado e tem que abrir o próprio negócio mas só se for algo inédito e incrível. Tem que fazer tudo ao mesmo tempo. Tem que ir pra academia às seis da manhã. Não pode ser gorda. Tem que ser saudável. Tem que ser magra e tem que ser saudável. Não adianta ser magra sem ser saudável. Onde já viu, tá proibido comer mal assim. Tem que saber cozinhar. Ave maria. Deus me livre ficar perto de alguém que não sabe cozinhar. Não interessa se é difícil pra você, não interessa se você não tem tempo, não interessa se você não gosta da sua comida. Tem que saber cozinhar e cozinhar muito bem. Porque tem que fazer tudo bem feito. Tem que acordar cedo. Porque, que horror: gente que acorda tarde. Tem que acordar cedo e ir pra academia e comer a comida saudável que você mesma cozinhou tão bem. Tem que comprar a casa própria. Como assim você ainda não comprou seu apartamento? Tem que ser um apartamento. Depois vocês se mudam pra uma casa. Ainda não te pediu em casamento? Tem que casar. Quando ficam noivos? Quando vão se casar? Quando vão se casar (2)? Quando vão se casar (349)? Quantos filhos? Um ou dois ou três? Hoje em dia é muito complicado ter filhos. Mas tem que ter. Tem que ter filhos. Tem que ter filhos e trabalhar muito e ir pra academia e cozinhar muito bem e ser uma mãe e um pai muito presentes na educação das crianças. Isso, tem que levar pra escola e assistir ao futebol e à ginástica rítmica. Tem que ganhar muito dinheiro (quanto mais, melhor). Tem que fazer mais dinheiro e agora se mudar para uma casa maior e comprar outro carro. Tem que cozinhar para as crianças e viajar com todo mundo nas férias. Tem que ser uma esposa excepcional. Tem que dar atenção à família. Tem que não pensar só em você. Você tem que pensar em você também! Porque tem que se cuidar e ser bonita. Não pode embarangar. Não pode ganhar pouco dinheiro. Não pode esquecer das crianças. Tem que estudar mais. Tem que acordar cedo e ir pra academia. Tem que ficar mais bonita, que o tempo tá passando. Que o tempo tá passando: e tem que ser tudo isso sem esquecer de nada.

Enquanto as pessoas piram. Sem que nada desse tudo que possa acontecer na sua vida faça alguma diferença na vida delas.

domingo, 24 de maio de 2015

Onde o tempo passa parado

Essa semana a aula de latim foi interrompida por dois palhaços profissionais. "Professor, o senhor me dá três minutos?". Se ele conhecesse nosso professor de latim ele saberia como um pedido desse era abusado. Mas não conhecia. Abusou e entrou.

Eu já conhecia os dois palhaços. Quando eu fazia psicologia, tive duas aulas interrompidas por eles, em semestres diferentes do curso. Eles têm um texto ensaiado sobre consciência ambiental, interagem com a turma, e no final se apresentam. São de um grupo de teatro que se formou pelos corredores duma universidade paulista. E frisam: pelos corredores mesmo, porque não assistíamos às aulas. Depois pedem que a gente assista às aulas, que a gente estude, se dedique, enfrente as greves, e, como eles, se forme. Porque é assim que vamos terminar um dia: e eles posam pra foto olhando pra gente.

No oitavo ano pelos corredores do mesmo setor, e encontrando pessoas que também pisaram ali há dez anos atrás, ou mais, nossas conclusões são iguais. O tempo passa pelo setor II, as pessoas também passam pelo setor II, mas tudo continua igual. Os personagens continuam os mesmos.

Os hippies que, periodicamente, aparecem para vender colares e pulseiras, eles mudam, mas sempre reaparecem. Famílias hippies, um casal e um bebê; um cara hippie sozinho; uma moça hippie sozinha; um casal de amigos hippies. São hippies diferentes, mas são os mesmos hippies. E agora vendem filtro dos sonhos também, não só colares e pulseiras.

Um cara que leve um som com alguma música muito alternativa para tocar no corredor. Ele também muda, mas sempre está lá. Sempre aparece. E parece gostar mais das quinta-feiras, um dia quase fim de semana. Aliás, no setor dois, especialmente durante a noite, a aura parece sempre ser de fim de semana - o tempo passa, as pessoas passam, isso nunca muda.

Alguém pra tocar violão muito alto em pleno corredor. Juntando com mais cinco, seis pessoas, que não necessariamente se conheçam, mas que queiram cantar e tocar violão muito alto em pleno corredor. Um grupo que sempre se faz presente. Mudam as pessoas e o tempo, o violão e a música alta está lá.

Um cara pra vender bolinho mágico de banana ou um bolo com título parecido. Ele aparece com a cesta, e termina seu expediente encostado no muro de trás dos banheiros femininos, fumando um, com um grupo que sempre esteve e vai estar por ali. Por um tempo, o espaço preferido era por trás do banheiro feminino do bloco D.

Alguém pra começar um jogo de peteca em dupla que evolua para um jogo de peteca em grupo. Que evolua para uma brincadeira que pareça muito mais uma festa, e que seja ligeiramente escandalosa mas muito natural. As petecas não faltam nem falham no setor.

As pessoas passam e os personagens ficam. O tempo passa e vai ficando tudo igual como antes, como sempre.

Eu já conhecia o texto pronto que os palhaços tinham, e as piadas que iam contar. E ri mesmo assim, em todas elas. O humor bom a gente sempre ri, mesmo repetido. Ele não falha. E passar tanto tempo pelo setor dois é o mesmo conforto da piada boa repetida: tudo continua passando, fica muito errado, e, invariavelmente, dá muito problema pela universidade. Mas fica igual a antes. Cada coisa em seu lugar, cada personagem em seu papel. O tempo passa parado, e isso não desespera ninguém. Por isso alguns personagens ficam tanto tempo, apertando baseados e consumindo amizades que possam durar a vida inteira ou acabar aquela noite. Por isso os palhaços voltam, a turma ri, eles passam o chapéu, e seguem a vida, de novo, pelos corredores de uma universidade. E a gente vai ficando por ali, onde o tempo passa parado, e ninguém sabe se vai rápido ou sem pressa. Os personagens e as pessoas reais não se importam tanto com isso naquele lugar. Eu mesma não sei se oito anos passaram rápido ou se arrastaram. O tempo foi. E tudo continua igual.

sábado, 16 de maio de 2015

A nossa cara

Quarta-feira saí de casa pela manhã, para ir buscar o Terron no aeroporto. Saí com mais de uma hora de antecedência, com água, biscoito, paciência, e cabelo lavado, sem me preocupar com o caminho da volta, que eu sempre erro. E que de fato errei de novo.

Não vou reclamar da construção arbitrária e supérflua de um novo aeroporto da cidade. Nem do acesso nem do trânsito nem comentar que a Zona Norte continua com jeito de abandonada pelo poder público - como sempre foi. Agora eles vão até tirar umas areias de cima duma duna, ali no pé da ponte nova, construir um nova sede para a Câmara Municipal, e usar disso um argumento concreto para fingir bem uma aproximação e uma preocupação com a zona norte da cidade.

Lá vou eu. A parte da cidade com menor planejamento de trânsito continua caótica. Quem tinha esperança de que a construção do aeroporto fosse fazer o poder público preocupar-se com isso, não tem mais, porque na verdade essa pessoa sem o menor senso crítico e com tanto amor no coração nunca existiu. Não por aqui em Natal.

Enquanto se atravessa avenidas, as placas indicando o aeroporto têm como companhia placas que indicam condomínios horizontais de luxo, penso eu na hora. Palm Springs, Best Springs, Best Palms ou sei lá o que mais consigam inventar com nomes em inglês. Também não sei até quando as construtoras vão continuar acreditando que qualquer nome em inglês num imóvel significa bom gosto.

Lá vai. Várias placas do Palm Springs e do seu concorrente ainda mais luxuoso pelo caminho. Mas de vez em quando, ainda bem que vi, placas lá pro aeroporto.

Quando entro para São Gonçalo: sabe o "acesso", "novo", em caminho para o aeroporto, aquele trecho mão dupla onde só cabe uma fileira de carros em cada lado, mas que deveria ser um trecho duas ou três vezes mais largo, conforme nos enganaram (disseram) na época da construção do trambolho (aeroporto)? Já vai todo esburacado. Não está nenhuma estrada para Campestre (ainda), mas segue a tendência. O lugar está claramente sem manutenção, com um asfalto de segunda (como quase todos os da cidade), enfeitado de buracos aqui e ali e aqui de novo.

Chegando aos guichês da entrada do aeroporto, agora um outdoor: Bem Vindo ao Aeroporto de São Gonçalo. Nosso aeroporto tem nomes variados, múltiplas identidades. Ele pode ser Aluísio Alves ou Aeroporto de Natal (que fica em São Gonçalo) ou Aeroporto de São Gonçalo mesmo. Esse outdoor é novo.

Chego no aeroporto mas não chego: a gente pega o tíquete do estacionamento não para entrar no estacionamento, mas para dirigir mais quilômetros até chegar ao estacionamento ou à área de embarque e desembarque. Imagino quem vai até lá só para deixar ou buscar alguém: os carros aceleram os cem quilômetros por hora para chegar a tempo de dar um (só um!) abraço na área de embarque, e voltar para o guichê e devolver o tíquete. A (in)tolerância é de vinte minutos. A primeira hora de estacionar custa dez reais. A segunda hora já vai para quatorze reais.

Cheguei lá e tentei pôr o carro próximo à entrada do aeroporto, já que, apesar dos dez reais bem pagos e mal gastos, o estacionamento não tem nenhuma árvore ou cobertura que dê algum alento a quem ande por ali. Não consegui, e parei o carro longe. No caminho do carro à entrada do aeroporto acho que cheguei a ficar desidratada.

O aeroporto tem uma beleza monumental. Por fora. Por dentro é um aeroporto como qualquer outro, de mais mal gosto do que muitos que já vimos por aí, vocês sabem, mas onde pelo menos puseram cadeiras, finalmente. Ouviu? Agora tem onde sentar no aeroporto novo. Porque eles inauguraram sem colocar lugar para a gente sentar - viajei dias depois da inauguração e estávamos pelo chão, lá, todo mundo.

Na hora de ir embora, trinta minutos depois, dou dez reais pelo estacionamento sem árvores nem coberturas nem vagas próximas, ando o bastante para desidratar de novo, dirijo um bocado do estacionamento à entrada verdadeira (?) do aeroporto, sigo pela estrada ruim, pelo acesso que não foi construído. Atravessamos a zona mais abandonada e prejudicada da cidade (ou uma das - reconheço como é difícil escolher esse posto), e vimos sem nenhuma maquiagem o que pode haver de caótico e ignorado aqui pela cidade.

Quando tinha voltado de viagem em janeiro, peguei uma van do aeroporto até minha casa, e o motorista pegou caminhos por dentro de São Gonçalo que eu nunca descobri como entrar nem sair dali. Os turistas meio surpresos, falando do acesso do aeroporto para a cidade, o caminho tão longo e tão cheio de percalços, buracos, ruas de barro e de paralelepípedos mal postos. Um caminho feio. Ele desembocou em Santos Reis, Rocas, subiu pela Ribeira, para depois seguir o itinerário turístico verdadeiro: via costeira e Ponta Negra.

Nesse dia, fiquei assim, concordando com eles, sobre como esse cartão de visitas prejudicava quem vinha uma primeira vez. Depois me dediquei a ser menos hipócrita, e fiquei assim, de outro jeito: o aeroporto de São Gonçalo é providencial, é ótimo!, porque é o cartão de visitas mais honesto que a gente agora tem.

Tudo o que ele representa já consegue dizer tão fácil o que o natalense já é, o que o turismo em Natal tem sido, e, mais ainda, o que o poder público na cidade e no estado tem se esforçado por construir aqui: uma cidade-ostentação por fora, ruída por dentro; uma paisagem que só existe para a fotografia; um lugar caro, cujo custo-benefício é uma equação de resultado horroroso, de tão discrepante; uma morada de construções públicas desnecessárias e arbitrárias, feitas por um poder público que ostenta, fotografa, e que tem dificuldade até para nomear o que faz.

Uma cidade confusa, que vende uma imagem de uma zona sul vendida, imobiliariamente* prostituída, planejada de um jeito que agrade aos olhos e às câmeras de celulares. E que agora recebe os turistas pelo lado oposto (literalmente) de tudo isso, pelo lado oposto desse pedaço bonito, e que, do aeroporto para fora, se denuncia inteira. Da construção monumental, passando pelo preço do tíquete e a precariedade em planejar uma cidade real (e não de folder turístico).

O aeroporto de São Gonçalo (ou qualquer que seja o nome que ela tenha ou possa vir a ter) é tudo o que a gente é e sabe, e esconde, e teme que descubram de nosso lugar. Ele agora é nosso arquétipo, nossa metonímia absoluta. A melhor metáfora natalense, nosso mais sincero cartão de visitas. E todo mundo que chega agora sabe muito rápido tudo isso.

Pensei em tudo isso e fiquei satisfeita com o aeroporto novo.



* Eu sei que esse advérbio não existe.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Quem não existe

Foi difícil mas percebi muito rápido naqueles dias como quase nada mais me dá muita alegria. Sobrou pouca coisa. E só sobraram coisas que posso ser com elas sozinha, sempre sozinha.
Tive tanto medo de ficar sozinha e chorei tanto por estar tão assim, que me reduzi a isso no todo, sem perceber. E eliminei as felicidades conjuntas. Felicidades não. Alegrias conjuntas.

Porque nesses mesmos dias percebi finalmente que felicidade não existe coisa nenhuma. Nem a infelicidade. Felicidade e infelicidade são conceito inventado e criado, que é para o nosso desespero de estar vivo acalmar um pouco. A gente vive e se desespera por ser coisa nenhuma, por ir embora sem ter consciência, depois de ter ido, que tudo acabou. E essa ideia em si já deveria acalmar. Mas acelera o destempero. A gente sofre sem saber e cresce inventando felicidade: inventando que ela existe o que ela é.

Não existe nem é nada. A gente inventa o que pode ser felicidade e corre atrás. E consegue e fica vazio: porque, é isso, ela não existe nem está em nada. A gente finge que está. Que é pro exercício da busca manter a gente entretido com muitas merdas, desculpe, sem pensar na existência. Entretido com tantas merdas, isso mesmo, sem pensar na existência.

Saber que felicidade é conceito e é mentira e não vem de lugar nenhum é libertador, angustiante e libertador. Você vive numa angústia de nunca se acabar e numa certeza de felicidade nem infelicidade existir. E vai. Você não espera nem sente mais nada. E vai. Sente muito pouco. Sente alegrias simples e poucas. Tristezas várias, mas agora menos intensas. O salto existencial e a descoberta de não ter felicidade nenhuma, angústia todinha, de só serem certas as sensações de estar alegre ou triste, e nenhuma evidência, nenhuma, de ser feliz ou triste. Ninguém sabe. Ninguém sabe quando realmente é feliz ou não. Ninguém sabe que não é feliz mesmo é nunca. Bem nunca.

E essas coisas deviam me dar uma tristeza danada e nem deram. Fiquei mais leve e também mais fechada pro mundo: que parou de importar tanto. Todo mundo correndo atrás da felicidade que está no carro novo e no apartamento muito pequeno para egos tão grandes. E nos filhos saudáveis e crianças. A gente fica desejando ter filhos sem imagina-los nunca crescidos nem adultos. A gente pensa em ter bebês, e é só. E enfia felicidade nesses bebês que demoram cada dia mais.

Naqueles dias em que não sentia mais prazer quase nenhum, e muito menos buscava prazer quase que nenhum, naqueles dias em que não havia nada pela frente, enquanto a vida inteira, podia ser, podia ser que sim, que houvesse, naqueles dias em que não houve lamento nem tristeza realmente. As emoções se reduziram a ilusão nenhuma, o coração afundou para mais dentro do peito, eu tive certeza de não sermos nunca felizes e de isso nunca haver, nunca vai haver, repeti, pensei nas ilusões de novo, e não havia mais nenhuma, não havia mais nada. Não havia mais nada.

Eu tinha me restado ainda inteira. Mas eu já era pouca, agora bem pouca, um resto de nada.

Que foi o que fui pra sempre.

terça-feira, 21 de abril de 2015

deus é uma cobiça

deus é uma cobiça que temos dentro de nós. é um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. deus é uma inveja pelo que imaginamos. como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida. queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe nem vai existir. e também inventamos deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade. é tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. é tão mais fácil se esta ideia for vendida a cada pessoa com a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para o punir ou premiar pelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou. e a comunidade respira mais de alívio por saber que assim estamos todos policiados da melhor maneira, temos um polícia dentro de nós, um que sendo só nosso também é dos outros e, a cada passo, pode debitar-nos ou acusar-nos e terminar nosso percurso com facilidade. eu sei que a humanidade inventa deus porque não acredita nos homens e é fácil entender por quê. os homens acreditam em deus porque não são capazes de acreditar uns nos outros. e quanto mais assim for, quanto menos acreditarmos uns nos outros, mais solicitamos o policiamento (...).


valter hugo mãe,
a máquina de fazer espanhóis.

Em desilusão

Quando me cobrou um novo texto estive prestes a lhe dizer que não havia mais nenhum, que não haveria mais nenhum, que eu não escreveria mais. Não se trata de um bloqueio criativo clichê e conveniente aos escritores ruins que se dizem escritores. Ia falar-lhe que eu não me dava mais com as palavras, que elas não cabiam mais no meu dia, que não me dou mais com elas. Que parei de acreditar nelas duma vez. Tanto do que já disse foi depois usado contra mim; e mais do que ouvi, usado para o lugar do nada, para os vãos da casa e para o silêncio indiferente de quem diz e escreve.

Tive de voltar ao passado outros dias para buscar palavras de puras verdades – tão verdades, que pareciam sentir, elas mesmas sozinhas, de tão fiéis a mim que foram. Acreditei quando não eram ficção, quando diziam não ser. Por isso abraçava palavras toda noite, dormia com textos inteiros por dentro da cabeça, e só escrevia porque achava que elas esparramavam do meu coração e garganta. Eu vivia sufocada e engasgada por aí.

Agora não mais. Cedi cada vez mais à constatação de que as relações ficam falhas e se arruínam por conta disso: das palavras e dos discursos espontâneos, abruptos – que apaixonam e matam em mesmo tempo, todo o tempo. Mais matam. E as relações se resumem quase sempre a essa morte; o som das letras que a gente nunca esquece.

Quase disse a ele, e que deixaria isso pra lá. Porque tem mais. Porque há um como-se tudo que eu dissesse em primeira pessoa fosse eu sempre falando. Como agora. Como não existisse ficção e como se eu não pudesse mentir nunca mais; como se eu não pudesse mentir só porque escrevo. As palavras mentindo quando juram dizer a verdade, e quando jurei mentir, espalhando verdades pouco inocentes.

Se escrever é a saída mais ordeira para quem adora mentir e inventar tanta coisa. Eu inventei tanta dor e tanta alegria escrevendo, que colecionei personalidades sem enlouquecer. Escrevi textos para serem lidos e serem mais, serem livres. Não existia nenhuma escrita autobiográfica. Quando ela existe: o sujeito real é um personagem. Eu vou desistir, quase disse a ele.

A palavra perdeu o sentido sem perder força: porque ganhou força demais. As pessoas estão usando isso a seu favor e contra tudo e todos. E tenho ficado aqui em posição de vítima, sendo babaca e ligeiramente incompetente.

Parei de acreditar em todas as vozes. E só fico em silêncio há tantas semanas porque não encontro caminho nenhum: tudo que havia por escrever fiz questão que sumisse. É capaz que eu grite de repente. É capaz que eu chore todas as mentiras duma vez, as mentiras que ouvi e que falei. É capaz que eu vire um personagem fictício autobiográfico da vida real. Tudo ao mesmo tempo.

Se antes estava eu sozinha com elas, fiquei sozinha sem elas, sem palavra nenhuma, recuada e sem nenhuma esperança. E por ora e por sempre elas vivem sem precisar de nós. Uma completa desilusão.

Para baixo da terra

Era uma espécie de feriado de Carnaval e eu havia subido ao apartamento e chamado Fernanda para sair de novo. A gente iria para algum evento e isso já estava combinado. Não era nada demais, me lembro. Mas não lembro o que seria.

Já fim de tarde, início da noite. O lugar de onde saímos não era minha casa, mas era completamente igual. A cidade onde estávamos não parecia ser a minha, mas também era completamente igual. Entramos no elevador idêntico ao do prédio onde moro.

Uma porta que abre para fora, uma porta que corre. As teclas dos andares amareladas, antigas, quadradas saltadas para fora. A porta que abre para fora tem um retângulo na altura dos olhos, feito janela. Apertamos o andar para onde iríamos, o térreo. Mas o elevador sobe. Sobe, e sobe, sobe. Ao que parece chegar ao topo, ele retoma a descer: e parece estacionar antes do térreo. Sinto desespero, mas Fernanda tá calma, aparentemente. Assim que o elevador estaciona, a porta que abre para fora, essa que fica aparente assim que a porta de correr também se afasta, é um pouco diferente das outras. As outras são metálicas e velhas. Acinzentadas. Essa é de um amarelo bege, mas mais vivo, mais novo. E ao invés de haver o retângulo na altura dos olhos para podermos ver do lado de fora: um retângulo com a inscrição FUNERAL.

Me sinto mal.

O elevador finge que estaciona nesse andar, não fica alinhado corretamente, se mexe, parece que está a nos prender ali, Fernanda calma, eu prestes a explodir uma crise de choro verdadeira, o elevador não fica no andar no funeral, e desce, e desce. Não sei onde ele vai parar. Ele parece ter passado do térreo e vamos muito mais abaixo do que deveríamos. Fernanda está calma, eu quero chorar, e tudo isso parece muito lento mas acontece em poucos minutos. Lembro de tudo em detalhes pois o momento fez-se longo. O elevador pára, estaciona, e em um andar que aparentemente não existe. O retângulo na altura dos olhos não nos diz nada. O elevador desliga, não abre a porta de correr, não abre a porta para fora, os teclados quadrados não funcionam nem respondem, a ventilação também pára. Não há ninguém olhando por nós. O ar falta, me falta, sufoca. Olho para cima e pareço ir encolhendo. Devia estar me acocorando e chorando com poucas lágrimas e muita dor. O ar me falta. Fernanda parece um pouco preocupada mas não entende o tamanho do meu desespero. Eu tenho certeza que estou morrendo. O ar me falta, eu me desespero em mostra-lhe como o ar me falta. Começo a morrer sufocada e muito rápido.

Acordo imediatamente. Sem ar.

sábado, 11 de abril de 2015

Em feliz ano novo

Nesse ano novo vai ser diferente. Agora sim. Agora será tudo diferente de antes, do antes de sempre.

Nesse novo ano eu tenho a resolução de ler bem mais. De esvaziar as estantes no seu sentido temporário: esvazia-las abrindo os livros que ainda não li. São muitos, estão todos aqui abandonados. 

Mas nesse ano vou reler bastante também. Porque venho esquecendo, porque faz tempo que li, porque há livros que são feitos para reler, e não para ler somente, e também porque eu vou ser professora desses livros então preciso lê-los mais umas quinze vezes, pelo menos. Machado. Zé de Alencar. Rosa. 

Ah, esse ano eu prometo como vou ler Rosa... Em voz alta, é claro. Rosa só pode ser lido em voz alta porque é lindo de morrer e de se reler. Imagine como vai ser bom esse ano novo. Relendo o século dezenove e lendo poesia em voz alta. Vou ler mais poesia também. Preciso aprimorar um negócio desses. 

Também, sim, também vou escrever. Não poesia, quer dizer, poesia sim, é mais ou menos isso que já escrevo, mas, digo, não vou escrever poesia em poemas mesmo - porque esses eu vou ler, quis dizer. Vou escrever mais. Tem um livro pronto antes do livro que lancei e cada vez que releio não acho ele bom. Acho que falta algos. No plural: algos. Então vou me esforçar por ele e escrever com mais carinho e com menos ansiedade. 

Aliás, falar em ansiedade, outra coisa que prometo nesse novo ano é me sentir menos ansiosa quando o assunto for esse: escrever. Porque eu estava falando com o quadrinista famoso, sabe, ele veio aqui e eu conversei com ele sobre o trabalho de escrever histórias - quadrinista é também escritor, mas o povo pensa que é só de desenhar - e sobre a avaliação dos outros. É a parte mais difícil, eu disse, contar com alguém que queira ler o que você está escrevendo e dar uma opinião. Quando você tá famoso todo mundo quer fazer isso. Quando você ainda não sabe escrever direito, ninguém quer. E você fica sem saber se ninguém se dá ao trabalho de ler porque não quer, ou porque o trabalho tá ruim mesmo. Eu discordo de você, Bia, sabe, eu discordo mesmo, ele disse, porque eu não mostro meu trabalho a absolutamente ninguém, e também o fato de alguém dizer que meu trabalho é ruim, não quer dizer que esteja ruim. Assim como quando dizem que é bom não quer dizer que realmente esteja bom, né, eu disse. Ele concordou, pois é, exatamente. O que eu penso é que o trabalho tá feito, ele disse, e que eu dei o meu melhor, ele disse, e isso que importa, sabe. Isso que importa. 

Nesse ano novo vou ler e escrever mais, vou escrever com menos ansiedade, eu vou, vou dar o meu melhor. Principalmente, nesse novo ano, aliás desse novo ano em diante, esse ano novo que é nova vida também, é sim, é daqui pra frente, eu tenho essa resolução principal: fazer o que gosto, e só o que gosto, que é a única forma de viver de verdade. Não digo de ser feliz; ninguém é feliz, assim, feliz mesmo, eu pelo menos não, eu tenho umas tristezas colecionáveis, mas sei que depois que comecei a fazer o que gosto elas ficaram todas menores, e senti que estava viva, realmente, eu que antes estava completamente moribunda. Agora vai. 

É só defender o mestrado, fechar a porta da Psicologia e entregar a chave. Não volta mais. Daqui pra frente, só posso isso, só quero isso: viver de verdade. Agora, sim, feliz ano novo. 

Só faltam dois dias.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Corredor noturno

Vejo os mesmos rostos de sempre e desconheço todos. Um ex colega de trabalho passa por mim e finge que não me conhece. Sorrio pra ele e ele continua a fingir que não me conhece. Não lembro de ele ter dito que tem prosopagnosia. Mas vai saber, né.

Sento num dos bancos do corredor e continuo a olhar os rostos conhecidos dos desconhecidos que passam. Uma menina muito magra e muito alta passa, usando calças bem justas, tênis. Pernas compridas, um cabelo lisíssimo. Preocupação nenhuma, ela vai. O trio do meu lado esquerdo está pensando em fazer mestrado. Mas uma delas não faz a menor ideia sobre o que.

Senta uma menina do meu lado direito; tinha acabado de passar andando por mim quando eu vinha pro lado de cá. Eu a tinha achado linda. A pele bem branca, o vestido branco também. os cabelos castanhos e meio curtos e presos. Um rosto irretocável com um piercing de argola entre as duas narinas, dando um contraste que cabia em tudo e não se explicava. Enigmaticamente linda, ela.

O trio do meu lado continua discutindo sobre o mestrado e uma delas diz que quer receber bolsa. Eu nunca ouvi ninguém na universidade dizer que não quer receber bolsa. E começa a tocar alto uma música que parece árabe. Não entendo o que diz, muito menos o que significa aquilo, mas tem um balanço bom. Não sei da onde vem - sei que me leva a algum lugar e por isso começo a escrever com pressa - mas ela está tocando alta, muito alto para um corredor de universidade. Mas ninguém se incomoda nem para pra ouvir; será que ninguém tá ouvindo? O problema é que, nesse setor, ninguém mais surpreende nem é surpreendido. Tudo é natural, por mais absurdo que pareça.

Achei que podia ser o toque entre uma aula e outra. A sineta quebrou há semanas, e, nesse nosso setor, não surpreenderia (como disse) uma música meio-árabe cheia de balanço pra avisar que pode sair da sala pra fumar.

Um cara se aproxima e senta do lado direito da menina à minha direita, a menina enigmaticamente linda. O som é dele. Reparo e parece um microssistem (sim), ele abaixa um pouco a música, que agora é outra, é melhor. E a ideia é de que alguém acertou no som ambiente, por inteiro. Assim mesmo.

Ele e a menina enigmaticamente linda começam a conversar. Ela usa um par de havaianas daquelas azuis com branco, e bem encardido. Ela balança um pouco as pernas. Eles parecem nunca ter se falado antes, mas conversam naturalmente - como tudo ali parece ser, natural. Ela deve ter tatuagens - todo mundo nesse corredor tem tatuagens. Procuro e não vejo nada. A música fica cada vez melhor. Eles começam a falar sobre um bar perto da universidade; e eu acabo de voltar de lá. Os amigos dele se aproximam para conversar e elogiam a música, e a noite realmente parece que ganha um ritmo, as pessoas caminham com um balanço, e as cenas perdem o peso, o barulho de vozes, a pressa dos passos. Ninguém anda com pressa nesse corredor. Eu mesmo nunca vejo.

A menina se levanta e vai embora em silêncio. Tem uma tatuagem na panturrilha. Todos saem para o intervalo e ele abaixa ainda mais o som, e os barulhos pesados ficam altos: vozes e passos e um pouco de pressa. Um pouco. Eu volto pra sala de aula; agora tem menos o que ver aqui. E com certeza já estou atrasada, porque fiquei ouvindo ritmos e escrevendo textos naquele banco.

terça-feira, 24 de março de 2015

Vejo luz

Chegou em casa cedo da noite. As dores junto. As dores bem perto do peito e o peso delas afundando tudo em direção ao chão. 11º andar. Afundando em direção ao chão. Em direção ao chão. Botou uma única música pra tocar em repeat. Vejo luz. Usou a tinta velha para improvisar aquarela e improvisar novos quadros que não terminavam nunca. Mas pintou em papéis, no chão. O silêncio e as dores junto. A música em repeat. Vejo luz. Vejo luz em todo lugar. Os borrões azuis nos papéis e a cor nenhuma do chão e das folhas de ofício. As dores empurrando em direção ao chão. 11º andar. O chão longe perto. Vejo luz. Fez céus. Pintou céus em aquarela como se fosse dia, como se houvesse luz agora. Vejo luz. A música repetia. Nem lembro quanto tempo levei pra chegar aqui. Amanhã vai tentar se alimentar do que vivi. Até aqui. Até aqui, as dores pisando no peito e empurrando para o chão. Empurrando-a para o chão. Eram já mais de dez céus. A música repetia. Vejo luz. Sei que onde estiver, os meus passos vão levar a algum lugar. Tinha estado menos estática. Pintava mais. Usava os dedos. Mais azul. A tinta acaba e os céus iam acabar logo. Vejo luz. A música não ia parar de repetir. A noite ficava mais noite. Vejo luz. Vejo em todo lugar. O silêncio pesava junto com as dores e as costas por cima das folhas de ofício. Azuis. Um chão azul. As dores empurrando ao chão. 11º andar. Talvez fizesse isso até o amanhecer. Vejo luz.

Um céu sem azul nem luz tinha uma lua que sorria um sorriso amarelo.

Aos ciclos

Pensei mesmo que podia ser bom mudar as imagens, as cores, os móveis, os hábitos. Ter mais dia e menos noite também literalmente, para que mais dias claros viessem, ou estivessem por vir. Pensei mesmo que era bom confiar, que era necessário, inclusive, ter alguma esperança. Pensei que confiar em mudanças era um sentimento bom e quase concreto. E comecei por fazê-las.

Não demora para a cena repetir, a história ser a mesma, o pesadelo vir de novo, a noite ficar mais longa e cada vez mais escura - porque isso é possível. Que as cores e as imagens vão é voltar a atrapalhar, que as mudanças não resistem a ordem absoluta dos fatos. Que as pessoas estão as pisar cada dia mais forte, que cada recomeço é repetição absoluta e o fim é só para dar a impressão de alívio e de que pode ser diferente. O fim é só um estágio para manipular expectativas e mudanças. Porque tudo vai continuar igual: parando e repetindo.

Pensei mesmo que podia não me acomodar e apostar de novo nas mudanças de ares de fora e de dentro. Queimei papéis e comprei flores. Dormi menos. Mas não mudei nada muito mais. Hoje já não mudo quase nada. Quando penso em fazê-lo, meu freio é rápido. Não adianta insistir, a cena vai repetir, o sofrer se repete sempre, floreia seus ciclos, tem estadias diferentes, mas repete e fica. Ele sempre está por aqui. Silencia para nós pensarmos que somos poderosos, que podemos seguir donos de nós mesmos.

Lembro de tudo isso e freio. Não acelero mais. Não tem muito o que fazer. Acho mesmo que já andamos de mãos dadas, ou pelo menos lado a lado, os cotovelos se batendo. E isso nem incomoda mais.

o tempo não é linear

o anísio foi quem se meteu comigo depois do almoço a ver se eu espevitava. eu estou bem, dizia-lhe, estou bem. e ele queria saber se estar bem era andar de trombas. eu respondi que o tempo não era linear. preparem-se os sofredores do mundo, o tempo não é linear. o tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas e que se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. é fácil de entender. quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha-tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injeta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.


valter hugo mãe, 
a máquina de fazer espanhóis.

Duas vozes

Eu fui dar uma entrevista para ser gravada em vídeo e áudio e para ser espalhada por aí depois: pelas redes sociais. Eu não queria porque: eu tenho vergonha até de me olhar no espelho, imagine de me assistir dando uma entrevista. E mais porque: era para lançar meu primeiro livro em e-book, que eu nunca achei que merecesse tanto portfólio. Mas vamos, eu disse. Topei.

Fui assistir a entrevista e tomei um susto. Peguei o celular e telefonei (mentira, mandei recado no whatsapp) para o entrevistador e perguntei o que tinha acontecido: que voz era aquela que tinham colocado no lugar da minha. "É a sua mesmo, minha filha". "Claro que não é. Eu não escuto assim". Acho que ele suspirou do outro lado: coitada.

Sofri. Fiquei sem acreditar que as pessoas de fato ouviam aquela voz saindo de mim, e não a que eu escuto - que é bem melhor, é algo de normal. A voz que eu escutava na entrevista era outra coisa. Aliás, não assisti a entrevista até o final. Baixei em muito o volume. Fiz outras coisas enquanto ela rolava. E tudo isso foi uma única vez. Nunca dei replay nessa entrevista, nunca assisti de novo.

Passei a cultivar o hábito de ouvir meus áudios enviados por wazap. Otávio diz que isso é coisa de gente abestalhada. Expliquei que é uma demanda existencial minha. Não me reconheço quando ouço minha voz. Não sei quem é essa pessoa, o que ela faz, porque ela está dentro de mim, usando outras cordas vocais no lugar das minhas. Eu tenho repetido esse hábito e, sim, descobri outras pessoas que fazem o mesmo. (E todas escondem isso.)

O problema foi que o e-book saiu tanto que virou livro de papel, que por ter sido lançado como livro de papel e isso ser ainda tão chique, o cara da rádio me ligou e me pediu que fosse lá, gravar uma entrevista. Aí eu fui. Cheguei lá e quis voltar. Menina, como é que eu faço isso comigo e com as pessoas e vou obrigar mais desconhecidos a ouvir a minha voz falando de um livro que sabe-lá se alguém que ouvir a entrevista vai querer comprar? Provavelmente não, né, com uma voz dessa.

A audiência da rádio vai minguar em um minuto - ainda mais que a entrevista tem três minutos. E nessas horas até agradeço meus pais por terem me proibido fazer Jornalismo - eu teria desistido de qualquer forma. Ou perceberia logo como não sei falar direito em público, ou perderia rápido todos os empregos e seria obrigada a fazer qualquer outra coisa da vida - como Psicologia, por exemplo.

E agora mesmo penso em escrever pro cara da rádio para ele desistir de soltar a entrevista. Mas também acho que ele já pode ter desistido antes mesmo de eu pedir. Porque... né. Mas amanhã não vou ligar o rádio, também, para evitar novos traumas.

terça-feira, 17 de março de 2015

Lamento sem panelas

Faltavam poucos dias para a presidente ser reempossada no cargo, e os comentários sobre o ministério que ela escolhia eram daquele tipo: assustados, temerosos, em tom de lamento. Alguém disse: "nós teremos um governo muito difícil, o Brasil nesses próximos anos será terrível, viu". Ou algo como isso. A resposta que eu ouvi, sem titubeios, foi um "tomara que seja!, espero que seja assim mesmo!". E o ódio inflado dentro do peito. Fiquei assustada com a torcida contra. Ainda me assusto com atitudes assim - não sei por que.

E nesses dias quando vejo pessoas batendo colheres em panelas eu só consigo pensar na verdade que elas estão comemorando. Quando eu vejo os comentários estupidamente odiosos nas redes sociais eu penso o mesmo: que por dentro elas comemoram, vibram mais. E que não por acaso uma manifestação parece mais uma confraternização generalizada. Me parece realmente que ninguém está indo às ruas nem às panelas gritar desesperadamente por mudanças, mas gritar em comemoração ao fato de estar tudo tão ruim - para eles.

Sempre lamentei ene posturas do governo da presidente, porque, ainda bem, me resta um pouco de inteligência mesmo passando tanto tempo na frente do facebook hoje em dia. Mas nunca aceitei uma discussão que acusa o partido da presidente de corrupção, enquanto defende o principal partido da oposição com o argumento da estabilidade econômica. Fico esperando pelas outras acusações (já que a corrupção, alguém avise a eles, não foi inventada pelo partido da presidente, nem acontece somente dentro dele) e pelas outras defesas (porque com estabilidade econômica conto uma).

Eu muitas vezes lamentei, por exemplo, a postura dessa presidência em adiar (ou não se importar com) discussões como o aborto (é a nossa primeira mulher presidente), e discussões sobre a violência covarde da polícia contra manifestantes até, principalmente, 2014 (pois ela só chegou até aqui por ter ido fazer o mesmo nas ruas, décadas atrás). Dentre outras questões humanas sempre abandonadas por presidentes e governadores e prefeitos do país inteiro.

Mas eu nunca lamentei tanto que as pessoas torcessem contra e vibrassem pelo quadro negativo. Porque é isso que acontece, enquanto elas forjam uma indignação generalizada. Vejo quem consegue fingir decepção quando na verdade torce para que o país saia ainda mais do prumo, a corrupção esteja cada vez mais entranhada, e as panelas soem nos ouvidos dos vizinhos pelos próximos quatro anos: tudo para termos um próximo governo dito de oposição. Esse governo de oposição que tinha como uma das principais bandeiras: a redução da maioridade penal. Esse governo de oposição cujo um de seus principais líderes reclamou em plenário semana passada: sobre o salário do professor para quarenta horas, pois são trinta horas de aula, e dez são "horas não trabalhadas" para "supostamente" preparar aulas. As aspas é porque ele falou assim mesmo.

Somos um país que torce contra si mesmo, que cuida mal de si mesmo, que fala mal do que não sabe e fala bem do que sabe menos ainda. Somos um país lamentável a essa altura do campeonato. E é só. É só isso que conseguimos ser agora.