quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Acordo tarde

Só depois de tomar um banho frio, que as manhãs foram feitas pra isso.
Depois de tomar café preto, coado e feito em excesso. Para que sobre. A falta de café é sinal de dias ruins.
Só depois de ver que cor o céu quis estar hoje. Se o que estava mais forte era o calor ou o sol ou os dois vieram com força juntos dessa vez. Sim, isso varia.
Então depois de chegar perto da janela e sentir a temperatura do dia e o vento acalantando. A pressa lá embaixo. Tem que olhar pra baixo, uns minutos. Perceber a pressa enquanto se mantém parado. É um sentimento sutilmente desesperado: observar a pressa alheia quando você deveria estar dentro dela, mas não está. E fica assistindo à quem corre e buzina.
Só depois de abrir um livro e de escrever umas frases horríveis no caderno amassado. "Escreva tudo, mesmo que pareça idiota, isso pode te servir lá na frente." Já serviu. Então eu tenho um monte de cadernos cheios de frases idiotas que não deveriam pertencer a uma pessoa adulta e supostamente normal - mas pertencem.
Depois de o pensamento acelerar e parar. Acelerar e parar.
O coração sentir dor. Os joelhos pedirem uma caminhada e você se recusar.
Depois que a segunda xícara de café pedir um cigarro olhando pela janela. E você ficar com a xícara de café olhando para a parede e esperando que algo extraordinário aconteça - mas não muito extraordinário, que a velocidade ainda é fraca.
Depois de não ler os jornais de manhã, que ler jornal no começo do dia é coisa de maluco. Nunca tem notícia boa.
Depois de pensar em ler, e ter sono outra vez.
Dirigir quilômetros ouvindo músicas que não tocam na rádio e imaginando cenários futuros improváveis e acontecimentos extraordinários - mas nem tanto.
Depois de já ter cansado de pensar esse tanto e deitar de novo.
O dia começa.

Eu abro os olhos cedo. Levanto logo. Mas acordo tarde. Acordo muito tarde.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Suspender o tempo,

Suspender o tempo

para embalar as dores
de presente
pro passado.

Um agora

Como se eu estivesse grávida de todas as dores e de todas as alegrias ao mesmo tempo. E precisasse expressar o conjunto e não houvesse meios, não houvesse quadros nem pincéis nem papel nem voz nenhuma. Como se eu soubesse pintar mas não sei nem lidar com cores. Como se eu estivesse grávida de gritos de desespero e felicidade ao mesmo tempo e tivesse de usa-los todos, sem que me deixassem, sem que eu me permitisse. Como se houvesse muito a dizer mas o melhor a escolher fosse o silêncio casmurro. Como se eu precisasse sorrir e me sentisse bem em fazê-lo enquanto sinto que posso explodir a qualquer momento e ir pelos ares e ir embora. Como se eu precisasse ir embora. Como se eu nunca tivesse me sentido tão confortável nesse lugar. Como se eu tivesse encontrado meu lugar no mundo. Como se eu tivesse aceitado que não pertenço a lugar nenhum. Como se eu precisasse de novas pessoas e como se eu precisasse ficar sozinha. Como se eu tivesse tanto o que escrever e não saísse coisa alguma, e não brotasse e nem viesse nada. Como se meu coração estivesse também grávido, repleto, tão grande, e como se houvesse sentimento de quase nada por dentro. Ou sentimento do que não fosse bom. E eu gritando para que eles fossem embora e a fala presa no meio duma garganta seca. Como se eu precisasse falar mais. Enquanto só faço repetir as mesmas frases e contar histórias idênticas e não me fazer mais. Só me desfaço. Fingindo que refaço e repito. Como se eu estivesse grávida de mim mesma sem conseguir dar a luz. A tudo o que sou agora.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Se é só a educação

Meio milhão de gente zerou a redação do Enem. O susto em todo mundo. 

Susto tenho eu quando ainda escuto "redação", porque acho essa palavra inadequada além de feia. 'Redação' é uma palavra feia, eu acho. Só combina com jornal. Mas eu sou, como diria minha mãe, muito radical nas ideias. Deixa isso pra depois. 

A gritaria agora é em cima da educação. O ministro da educação está preocupado (ou aparenta estar). Os pais dos alunos estão com nojo. E o brasileiro tá na frente da tv 'Alá a merda que é esse país, uma educação que não presta'. Aí depois de dizer isso ele fica no instagram e no facebook escrevendo errado para legendas de imagens, muitas imagens. 

Eu ainda não sou professora, mas ainda sou estudante (tenho prolongado essa parte da minha vida ao máximo). Não vim da escola pública. E também não fiz o Enem. Mas na minha época já tinha redação (sou antiga). 

Eu estudei em escola particular a vida toda. Tenho casa cheia de livros. Tenho família de leitores (nem todos, mas vamos). Tive e ainda tenho todos os incentivos possíveis para fazer boas provas e para me comunicar bem com o mundo - escrevendo e falando. Todo esse pano de fundo deve ter me ajudado a não ter problemas com redação. Mas praticamente todos os meus colegas na escola tinham o mesmo pano de fundo, e poucos, muito poucos, encaravam a redação (o texto, ai, o texto) com naturalidade. Nós tínhamos os mesmos professores, o mesmo nível socioeconômico, e muitos também tinham pais leitores e casas com livros. Quase todos tinham dificuldade com a redação. (Nesse momento eu pareço pedante, mas eu não sou assim. Só pareço.)

Eu passei cinco anos no ensino superior e passei cinco anos me assustando: com os erros ortográficos e os textos incompreensíveis de muita gente. Que se formou e pegou o diploma junto comigo. O background da turma da faculdade era bem mais variado, é verdade. Mas os erros grosseiros e a pouca habilidade de se comunicar escrevendo: eu via nos alunos que tinham história como a minha. 

Saber escrever (ou, nos termos técnicos desse Enem, fazer uma redação) não é consequência de escola boa nem de país com educação modelo. Uma educação modelo não faz ninguém saber escrever; é só um pedaço muito pequeno do bolo. 

A gente lê pouco. É pouco livro por mês, é pouco livro por ano. Livro é muito caro, mas celular é barato, tablet é ok, podia usar o celular e o tablet pra ler livros, mas não usa, e continua lendo pouco. Cada ano menos ainda. Assim segue.

A gente não escreve. Ninguém nunca me disse que era bom escrever, que eu deveria ficar escrevendo para organizar meus sentimentos e minhas ideias e minhas loucuras sobre o futuro. Eu experimentei isso um dia e não parei mais. E quando vi, esse hábito só me ajudava a expressar melhor o que eu quisesse: os argumentos na redação, por exemplo.

A gente não lê jornal nem revista. Eu leio pouquíssimo. Acho chato demais ler jornal. E 217,3 mil alunos leram quase nenhum jornal ano passado: porque fugiram do tema ao falar de publicidade infantil. Provavelmente não sabiam nem do que se tratava, e foram lá falando qualquer coisa, pra preencher o vazio da redação e da falta de leitura prévia. 

A gente ouve menos, presta menos atenção, olha menos para quem fala, e para tudo o que acontece do lado da gente: porque o celular anda nos ocupando demais. Qualquer um acha que isso é bobagem, claro, mas, para manter o hábito de escrever, e melhorá-lo, é preciso treinar olhos e ouvidos e prestar atenção no que a gente sente, no que a gente vive, no que vai acontecendo. Aqui entram as notícias sobre publicidade infantil. Mais todos os comportamentos e fatos que a gente veja, e que depois podem virar história e texto. A gente não tem hábito de escrever. E vai ter menos ainda com menos atenção no mundo de fora. 

Os pais que esbravejam para que o filho estude, estude, estude. Estude, estude. Enrolam o trabalho. Reclamam do trabalho. Querem tudo menos o trabalho. Não fazem silêncio e ligam a tv na hora que o filho começa a estudar (na sala, porque não existe lugar de estudo na casa). Os pais da criança preocupados porque o menino não lê, não lê, cadê a escola, passa um livro pra casa, que meu filho não lê. O senhor lê? A senhora lê? Tem disso também. O exemplo. 

Escrever bem, ser bom aluno, tirar notas boas: não é resultado de escola boa. Porque não é só isso que existe nas boas escolas, nas ótimas, nem nas melhores. Fazer boa redação é muito mais resultado de uma cultura, antes de tudo, doméstica, familiar, e, depois, resultado de uma cultura geracional. Os professores, os pais, os ministros, a presidente têm que se preocupar muito mais em formar bons leitores, bons oradores, e em formar sujeitos que apreciem o conhecimento para além do que isso significa em um exame nacional. Mas, para formar gente assim, todos esses adultos precisam ser isso também. É onde entra o exemplo. E o início de uma cultura estável no tempo. 

A escola é só o eco, ou só o espaço, ou só o pontapé. A ponta do iceberg. A metáfora que vocês quiserem. Mas a escola não é tudo. Ela não é, principalmente, quem te faz tirar zero em redação, nem quem te faz tirar mil. 

Aliás, nunca tirei nota máxima numa redação. Preciso me esforçar mais. (Amanhã vou passar a ler o jornal. Amanhã.)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Pode ser que sim

Pode ser que chegue um momento em que você responde que vai tudo bem, que a vida vai tranquila. Que é assim que você se sente, tranquila, que é assim que você sente que a vida está, em tranquilidade. Mesmo que corra. Mesmo que pule pedaços importantes. Mesmo que se atrapalhe no meio do caminho e não saiba fazer algumas de suas funções com a própria vida - são várias. No fim do dia, e a cada parada ao longo dele, um balanço geral e um panorama para se reunir em uma só palavra será o dessa: tranquilidade.

Quando a ausência incomoda menos e a saudade nem dói mais. A saudade é saudade. Pode ser que você olhe pra trás e sinta tudo de novo. E os buracos enormes, os cortes no peito, os gritos por dentro, nunca pra fora. Tantos gritos guardados. A maior parte deles poderia ter sido expulsa. Mas isso não teria antecipado nem melhorado o estado de agora: esse algo de sublime que a vida vai carregando.

Que os dias vão levando. E a surpresa de, mais do que em todos os anos antes daqui, os dias terem caras diferentes, cores diferentes, jeito de únicos. Os dias um após o outro que não se repetem, de jeito nenhum. E isso acontece sem que a gente force, esforce, esprema o sorriso.

Pode ser que um dia a vida fique mesmo assim: tranquila e única. Com dias que nunca são iguais. Como se houvesse uma imprevisibilidade previsível, e isso não assustasse mais. O passado dói tudo de novo. Mas é tão diferente do agora que ninguém vê mais, ouve mais. Até o passado, agora, consegue ser calmaria.

Os dias vêm vindo. Passando. E a vida consegue estar.

Pode ser que seja o jeito certo. Está sendo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Parem. E corra, Bia, corra.

Eu tinha acabado de assinar os papéis quando, no dia seguinte, sentei na carteira da sala de aula e exclamei muito alto em meus pensamentos: mas que merda eu vim fazer aqui. A Psicologia nunca tinha sido meu lugar, e a pós-graduação em Psicologia era um não-lugar maior ainda - só que mais assustador, porque, quando assinei os papéis, eu disse ao governo que ele poderia me pagar dinheiros enquanto eu ia fazer ciência.

"Mas por que você vai fazer mestrado em Psicologia se você não gosta de Psicologia?". "Porque eu gosto de fazer pesquisa!". Mas gente. Olha o tamanho da inocência da criança. Cinco anos de vida adulta e eu ainda brincando de bonecas e lego.

Fiz tudo errado. Ter acatado em continuar com o mestrado foi só um colocar as mãos no lugar dos pés e os pés em lugar nenhum. Não foi nem uma troca reversível, é o que quero dizer. Foi uma trapalhada em torno de um "fazer pesquisa". Que me rendeu humores ruins e desesperados. Passou. Tá passando. Só que estamos agora na pior parte.

Porque agora eu tenho que ficar estudando estatística e tentando descobrir o que fazer com tanto número e papel (meus dados de pesquisa) sem trocar pés, mãos e cabeças. Na verdade acho que minha dissertação vai ser algo como um boneco anencéfalo, um desenho girino-cefalópode, um retrato bem fiel à alguém que não deveria estar na Psicologia, mas está - e são tantos seres humanos nessa condição, meu Deus, porque logo eu deixo tudo tão na cara.

Esse pior momento é alimentado pelas perguntas de "e aí, terminou a dissertação???". Gente. Não vou nem mostrar em que pé (mão ou cabeça) as coisas (não) estão. Eu tenho respondido a essas questões com "tudo bem, e você?, feliz ano novo". Porque as pessoas esquecem como começar boas conversas.

Agora eu fico trancada numa masmorra, correndo atrás do tempo perdido, com ausência de orientadores (ambos em pós doc há seis meses), sem consultar os colegas sobre o andamento da dissertação deles, porque tenho certeza que com eles já está tudo pronto e com resultados estatísticos significativos e confiáveis. Acho que eles até sorriem e dormem em paz.

Devo retomar o contato social depois da defesa (que não sei quando vai ser). Só pra eu poder responder JÁ, PARE, quando me perguntarem antes de saber se eu estou bem se "já terminou a dissertação???".

Até lá.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Ônibus pelo mundo

1. Eu andava quase vinte minutos para pegar o primeiro ônibus do dia, em Dublin. O ar estava sempre úmido e o dia estava quase sempre com vontade de chover nas primeiras horas da manhã. Eu chegava na parada da O´Connel e via praticamente as mesmas pessoas todos os dias. Também via passar praticamente as mesmas pessoas por ali.

Todo os ônibus em Dublin têm primeiro andar. No andar de baixo, há menos lugares, e espaço para malas e para carrinhos de bebê. No andar de cima é onde vai quase todo mundo. Eu via a cidade de cima em uma velocidade amigável, e isso era bom. Com os pés no chão, Dublin é apressada. De cima do ônibus a cidade se mostrava para mim sem pressa, com os prédios baixos e as copas das árvores bem verdes.

Em dias ensolarados, o irlandês vivia um certo êxtase. E eu tive a sorte de ter muitos dias assim enquanto estive lá. Não eram dias comuns: homens andavam sem camisa pela rua - porque sim, o humor das pessoas ficava diferente e eu via mais gente sorrindo dentro e fora do ônibus. O dia ficava mais leve. Mas os sunny days eram quase sempre seguidos por dias nublados e feios. No dia seguinte do sol escaldante (17ºC), o tempo chuvoso fazia todo mundo espirrar, tossir e fungar dentro do ônibus. Todos os passageiros assoavam os narizes em lenços de papel e  ficavam subitamente soturnos. Rotina.


2. Em Umea, na Suécia, não se usa dinheiro em ônibus. Você tem de ir ao centro da cidade comprar um cartão e abastecê-lo com passagens. O que te faz ir andando ou de táxi até o centro da cidade para poder ter esse cartão e, só então, poder andar de ônibus. Em três dos nossos doze dias de verão sueco, pegamos um ônibus da linha do centro com um motorista da Etiópia. Ele usava um chapéu sem abas, anéis de ouro e pedras, dirigia com a mão esquerda e a apoiava o cotovelo direito na grade baixa que o separava da entrada de passageiros. Camisa de botão aberta na parte de cima. E nos ajudava com o leitor de cartão sem dizer palavra: pegava o cartão da nossa mão, metia no leitor, autorizava a passagem, e devolvia o cartão. Como se fosse nosso irmão mais velho fazendo algo muito fácil pra gente, algo que a gente nunca acerta em fazer. (A gente nunca acertava o cartão no leitor, lá na Suécia).

Mas porque me lembro dele: colocava um reggae em alto e bom som pra tocar dentro do ônibus. Não só para ele, perto da direção, e sim em todos os alto falantes, e por todo o trajeto. Nas três vezes que pegamos ônibus com ele, era o mesmo cd. Um reggae que embalava, que dava vontade de balançar nem que fosse o pescoço, que fazia imaginar (aos profissionais em devaneio - eu) se aquela música era da cidade de onde ele vinha, se ele tinha ido a algum show daquela banda quando estava no seu país, ou mesmo se aquela banda era dele). Pra mim, foi um pouco mais do que eu precisava: era barulho no meio de uma cidade afundada em silêncio. Era som que me embalava e conseguia me dar algum sossego. E me deixava mais à vontade num lugar tão longe e tão diferente de casa.


3. Eu e meu irmão estávamos em Buenos Aires e tínhamos acabado de assistir a um tango, no centro. Era sábado à noite, umas oito horas. Paramos no quiosque "25horas" para perguntar qual linha iria para Palermo. O atendente deu dois números, mas sugeriu que confirmássemos com alguém que estivesse no ponto, pois ele não tinha muita certeza.

Quando chegamos na parada de ônibus, meu irmão pediu informações a uma senhora de meia-idade, argentina, cabelos loiros crespos e cheios: eloquente como muitos argentinos conseguem ser. Ela disse que o 140 iria. Um cara ao lado dela confirmou. Ela começou a falar muito e muito rápido, pedindo informações de onde a gente estava, para onde queríamos ir, exatamente. Fiquei com o pé atrás. Meu irmão estava com os dois pés na frente mesmo e começou a explicar, e tirou o iphone do bolso para mostrar no mapa. Ela olhou e confirmou que era o 140, e falou ainda mais rápido: "guarda, guarda! Aqui é muito perigoso! Aqui, no centro, muito perigoso, muito perigoso!". E com uma velocidade ainda maior, nos falou de quando tinha sido roubada ali no centro, semanas antes (foi o que entendi). Ela contava a história e repetia, cada vez mais rápido e com menos palavras. Fiquei com o outro pé atrás.

Vem vindo um ônibus em total escuridão: não tem letreiro aceso, não tem luz dentro do ônibus, mal vemos o motorista. Assim que o ônibus chega, acende o letreiro e mostra: 140. A mulher vai entrando, junto com o outro cara que nos confirmou que deveríamos pegar esse. E ela nos chama.

Vou até o primeiro batente e pergunto ao motorista se aquela linha vai até Palermo. O motorista está nervoso e responde com agonia que sim, vai sim, entre, entre, entrem logo; manda todo mundo entrar com gestos apressados na mão, cara franzida de preocupação e agonia. Falou muito rápido. Todo mundo entrou rápido.

Entro no ônibus e me deparo com alças de plástico para os passageiros segurarem: parece um corredor cheio de bolsas de soro, cada uma pendurada em um suporte metálico. Poucas pessoas dentro do ônibus, na parte de trás. Ônibus ainda escuro do lado de dentro. A gente entra sem passar por nenhum cobrador nem dar dinheiro ao motorista, que arranca. Olhamos pra trás e vemos a mulher e seu colega entrando no ônibus; ele com a filha pequena. Ela olha para a gente com certa expectativa e ao mesmo tempo algum sorriso no rosto. Tive certeza que algo de muito grave ia acontecer com dois estrangeiros desavisados que estavam ali: nós.

Depois de alguns segundos, nos sentamos perto dos outros, ficando na frente do cara que iria nos mostrar onde deveríamos descer. O motorista dirigia com uma pressa absurda e usava o freio no último minuto. O ônibus lotou. Depois de dez ou quinze minutos, o cara nos mostrou onde deveríamos descer. Quase todo mundo de dentro do ônibus ia para Palermo - era sábado à noite. A gente agradeceu aos dois companheiros de viagem e fomos andando até o hotel. Não pagamos nada por esse trajeto.