sábado, 3 de janeiro de 2015

Ônibus pelo mundo

1. Eu andava quase vinte minutos para pegar o primeiro ônibus do dia, em Dublin. O ar estava sempre úmido e o dia estava quase sempre com vontade de chover nas primeiras horas da manhã. Eu chegava na parada da O´Connel e via praticamente as mesmas pessoas todos os dias. Também via passar praticamente as mesmas pessoas por ali.

Todo os ônibus em Dublin têm primeiro andar. No andar de baixo, há menos lugares, e espaço para malas e para carrinhos de bebê. No andar de cima é onde vai quase todo mundo. Eu via a cidade de cima em uma velocidade amigável, e isso era bom. Com os pés no chão, Dublin é apressada. De cima do ônibus a cidade se mostrava para mim sem pressa, com os prédios baixos e as copas das árvores bem verdes.

Em dias ensolarados, o irlandês vivia um certo êxtase. E eu tive a sorte de ter muitos dias assim enquanto estive lá. Não eram dias comuns: homens andavam sem camisa pela rua - porque sim, o humor das pessoas ficava diferente e eu via mais gente sorrindo dentro e fora do ônibus. O dia ficava mais leve. Mas os sunny days eram quase sempre seguidos por dias nublados e feios. No dia seguinte do sol escaldante (17ºC), o tempo chuvoso fazia todo mundo espirrar, tossir e fungar dentro do ônibus. Todos os passageiros assoavam os narizes em lenços de papel e  ficavam subitamente soturnos. Rotina.


2. Em Umea, na Suécia, não se usa dinheiro em ônibus. Você tem de ir ao centro da cidade comprar um cartão e abastecê-lo com passagens. O que te faz ir andando ou de táxi até o centro da cidade para poder ter esse cartão e, só então, poder andar de ônibus. Em três dos nossos doze dias de verão sueco, pegamos um ônibus da linha do centro com um motorista da Etiópia. Ele usava um chapéu sem abas, anéis de ouro e pedras, dirigia com a mão esquerda e a apoiava o cotovelo direito na grade baixa que o separava da entrada de passageiros. Camisa de botão aberta na parte de cima. E nos ajudava com o leitor de cartão sem dizer palavra: pegava o cartão da nossa mão, metia no leitor, autorizava a passagem, e devolvia o cartão. Como se fosse nosso irmão mais velho fazendo algo muito fácil pra gente, algo que a gente nunca acerta em fazer. (A gente nunca acertava o cartão no leitor, lá na Suécia).

Mas porque me lembro dele: colocava um reggae em alto e bom som pra tocar dentro do ônibus. Não só para ele, perto da direção, e sim em todos os alto falantes, e por todo o trajeto. Nas três vezes que pegamos ônibus com ele, era o mesmo cd. Um reggae que embalava, que dava vontade de balançar nem que fosse o pescoço, que fazia imaginar (aos profissionais em devaneio - eu) se aquela música era da cidade de onde ele vinha, se ele tinha ido a algum show daquela banda quando estava no seu país, ou mesmo se aquela banda era dele). Pra mim, foi um pouco mais do que eu precisava: era barulho no meio de uma cidade afundada em silêncio. Era som que me embalava e conseguia me dar algum sossego. E me deixava mais à vontade num lugar tão longe e tão diferente de casa.


3. Eu e meu irmão estávamos em Buenos Aires e tínhamos acabado de assistir a um tango, no centro. Era sábado à noite, umas oito horas. Paramos no quiosque "25horas" para perguntar qual linha iria para Palermo. O atendente deu dois números, mas sugeriu que confirmássemos com alguém que estivesse no ponto, pois ele não tinha muita certeza.

Quando chegamos na parada de ônibus, meu irmão pediu informações a uma senhora de meia-idade, argentina, cabelos loiros crespos e cheios: eloquente como muitos argentinos conseguem ser. Ela disse que o 140 iria. Um cara ao lado dela confirmou. Ela começou a falar muito e muito rápido, pedindo informações de onde a gente estava, para onde queríamos ir, exatamente. Fiquei com o pé atrás. Meu irmão estava com os dois pés na frente mesmo e começou a explicar, e tirou o iphone do bolso para mostrar no mapa. Ela olhou e confirmou que era o 140, e falou ainda mais rápido: "guarda, guarda! Aqui é muito perigoso! Aqui, no centro, muito perigoso, muito perigoso!". E com uma velocidade ainda maior, nos falou de quando tinha sido roubada ali no centro, semanas antes (foi o que entendi). Ela contava a história e repetia, cada vez mais rápido e com menos palavras. Fiquei com o outro pé atrás.

Vem vindo um ônibus em total escuridão: não tem letreiro aceso, não tem luz dentro do ônibus, mal vemos o motorista. Assim que o ônibus chega, acende o letreiro e mostra: 140. A mulher vai entrando, junto com o outro cara que nos confirmou que deveríamos pegar esse. E ela nos chama.

Vou até o primeiro batente e pergunto ao motorista se aquela linha vai até Palermo. O motorista está nervoso e responde com agonia que sim, vai sim, entre, entre, entrem logo; manda todo mundo entrar com gestos apressados na mão, cara franzida de preocupação e agonia. Falou muito rápido. Todo mundo entrou rápido.

Entro no ônibus e me deparo com alças de plástico para os passageiros segurarem: parece um corredor cheio de bolsas de soro, cada uma pendurada em um suporte metálico. Poucas pessoas dentro do ônibus, na parte de trás. Ônibus ainda escuro do lado de dentro. A gente entra sem passar por nenhum cobrador nem dar dinheiro ao motorista, que arranca. Olhamos pra trás e vemos a mulher e seu colega entrando no ônibus; ele com a filha pequena. Ela olha para a gente com certa expectativa e ao mesmo tempo algum sorriso no rosto. Tive certeza que algo de muito grave ia acontecer com dois estrangeiros desavisados que estavam ali: nós.

Depois de alguns segundos, nos sentamos perto dos outros, ficando na frente do cara que iria nos mostrar onde deveríamos descer. O motorista dirigia com uma pressa absurda e usava o freio no último minuto. O ônibus lotou. Depois de dez ou quinze minutos, o cara nos mostrou onde deveríamos descer. Quase todo mundo de dentro do ônibus ia para Palermo - era sábado à noite. A gente agradeceu aos dois companheiros de viagem e fomos andando até o hotel. Não pagamos nada por esse trajeto.

Um comentário:

Maíra D disse...

tenho um carinho por diários (de viagem, ainda mais)

mas que situação essa em buenos aires. :~~~ sinistra

bela narrativa :)