quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Se é só a educação

Meio milhão de gente zerou a redação do Enem. O susto em todo mundo. 

Susto tenho eu quando ainda escuto "redação", porque acho essa palavra inadequada além de feia. 'Redação' é uma palavra feia, eu acho. Só combina com jornal. Mas eu sou, como diria minha mãe, muito radical nas ideias. Deixa isso pra depois. 

A gritaria agora é em cima da educação. O ministro da educação está preocupado (ou aparenta estar). Os pais dos alunos estão com nojo. E o brasileiro tá na frente da tv 'Alá a merda que é esse país, uma educação que não presta'. Aí depois de dizer isso ele fica no instagram e no facebook escrevendo errado para legendas de imagens, muitas imagens. 

Eu ainda não sou professora, mas ainda sou estudante (tenho prolongado essa parte da minha vida ao máximo). Não vim da escola pública. E também não fiz o Enem. Mas na minha época já tinha redação (sou antiga). 

Eu estudei em escola particular a vida toda. Tenho casa cheia de livros. Tenho família de leitores (nem todos, mas vamos). Tive e ainda tenho todos os incentivos possíveis para fazer boas provas e para me comunicar bem com o mundo - escrevendo e falando. Todo esse pano de fundo deve ter me ajudado a não ter problemas com redação. Mas praticamente todos os meus colegas na escola tinham o mesmo pano de fundo, e poucos, muito poucos, encaravam a redação (o texto, ai, o texto) com naturalidade. Nós tínhamos os mesmos professores, o mesmo nível socioeconômico, e muitos também tinham pais leitores e casas com livros. Quase todos tinham dificuldade com a redação. (Nesse momento eu pareço pedante, mas eu não sou assim. Só pareço.)

Eu passei cinco anos no ensino superior e passei cinco anos me assustando: com os erros ortográficos e os textos incompreensíveis de muita gente. Que se formou e pegou o diploma junto comigo. O background da turma da faculdade era bem mais variado, é verdade. Mas os erros grosseiros e a pouca habilidade de se comunicar escrevendo: eu via nos alunos que tinham história como a minha. 

Saber escrever (ou, nos termos técnicos desse Enem, fazer uma redação) não é consequência de escola boa nem de país com educação modelo. Uma educação modelo não faz ninguém saber escrever; é só um pedaço muito pequeno do bolo. 

A gente lê pouco. É pouco livro por mês, é pouco livro por ano. Livro é muito caro, mas celular é barato, tablet é ok, podia usar o celular e o tablet pra ler livros, mas não usa, e continua lendo pouco. Cada ano menos ainda. Assim segue.

A gente não escreve. Ninguém nunca me disse que era bom escrever, que eu deveria ficar escrevendo para organizar meus sentimentos e minhas ideias e minhas loucuras sobre o futuro. Eu experimentei isso um dia e não parei mais. E quando vi, esse hábito só me ajudava a expressar melhor o que eu quisesse: os argumentos na redação, por exemplo.

A gente não lê jornal nem revista. Eu leio pouquíssimo. Acho chato demais ler jornal. E 217,3 mil alunos leram quase nenhum jornal ano passado: porque fugiram do tema ao falar de publicidade infantil. Provavelmente não sabiam nem do que se tratava, e foram lá falando qualquer coisa, pra preencher o vazio da redação e da falta de leitura prévia. 

A gente ouve menos, presta menos atenção, olha menos para quem fala, e para tudo o que acontece do lado da gente: porque o celular anda nos ocupando demais. Qualquer um acha que isso é bobagem, claro, mas, para manter o hábito de escrever, e melhorá-lo, é preciso treinar olhos e ouvidos e prestar atenção no que a gente sente, no que a gente vive, no que vai acontecendo. Aqui entram as notícias sobre publicidade infantil. Mais todos os comportamentos e fatos que a gente veja, e que depois podem virar história e texto. A gente não tem hábito de escrever. E vai ter menos ainda com menos atenção no mundo de fora. 

Os pais que esbravejam para que o filho estude, estude, estude. Estude, estude. Enrolam o trabalho. Reclamam do trabalho. Querem tudo menos o trabalho. Não fazem silêncio e ligam a tv na hora que o filho começa a estudar (na sala, porque não existe lugar de estudo na casa). Os pais da criança preocupados porque o menino não lê, não lê, cadê a escola, passa um livro pra casa, que meu filho não lê. O senhor lê? A senhora lê? Tem disso também. O exemplo. 

Escrever bem, ser bom aluno, tirar notas boas: não é resultado de escola boa. Porque não é só isso que existe nas boas escolas, nas ótimas, nem nas melhores. Fazer boa redação é muito mais resultado de uma cultura, antes de tudo, doméstica, familiar, e, depois, resultado de uma cultura geracional. Os professores, os pais, os ministros, a presidente têm que se preocupar muito mais em formar bons leitores, bons oradores, e em formar sujeitos que apreciem o conhecimento para além do que isso significa em um exame nacional. Mas, para formar gente assim, todos esses adultos precisam ser isso também. É onde entra o exemplo. E o início de uma cultura estável no tempo. 

A escola é só o eco, ou só o espaço, ou só o pontapé. A ponta do iceberg. A metáfora que vocês quiserem. Mas a escola não é tudo. Ela não é, principalmente, quem te faz tirar zero em redação, nem quem te faz tirar mil. 

Aliás, nunca tirei nota máxima numa redação. Preciso me esforçar mais. (Amanhã vou passar a ler o jornal. Amanhã.)

Um comentário:

Maíra D disse...

eu ainda tou meio assim com esse resultado mostrando o quão limitado anda o exercício de pensar... :(