quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um agora

Como se eu estivesse grávida de todas as dores e de todas as alegrias ao mesmo tempo. E precisasse expressar o conjunto e não houvesse meios, não houvesse quadros nem pincéis nem papel nem voz nenhuma. Como se eu soubesse pintar mas não sei nem lidar com cores. Como se eu estivesse grávida de gritos de desespero e felicidade ao mesmo tempo e tivesse de usa-los todos, sem que me deixassem, sem que eu me permitisse. Como se houvesse muito a dizer mas o melhor a escolher fosse o silêncio casmurro. Como se eu precisasse sorrir e me sentisse bem em fazê-lo enquanto sinto que posso explodir a qualquer momento e ir pelos ares e ir embora. Como se eu precisasse ir embora. Como se eu nunca tivesse me sentido tão confortável nesse lugar. Como se eu tivesse encontrado meu lugar no mundo. Como se eu tivesse aceitado que não pertenço a lugar nenhum. Como se eu precisasse de novas pessoas e como se eu precisasse ficar sozinha. Como se eu tivesse tanto o que escrever e não saísse coisa alguma, e não brotasse e nem viesse nada. Como se meu coração estivesse também grávido, repleto, tão grande, e como se houvesse sentimento de quase nada por dentro. Ou sentimento do que não fosse bom. E eu gritando para que eles fossem embora e a fala presa no meio duma garganta seca. Como se eu precisasse falar mais. Enquanto só faço repetir as mesmas frases e contar histórias idênticas e não me fazer mais. Só me desfaço. Fingindo que refaço e repito. Como se eu estivesse grávida de mim mesma sem conseguir dar a luz. A tudo o que sou agora.

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