segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Carta a amigo imaginário

Ou a mim mesma longe daqui. 

Sabe que andei reparando que quase todo mundo que vejo na rua dirige assim e anda assim: com os lábios travados, o rosto tenso, a boca prendendo alguma coisa por dentro, que ninguém deve de saber o que é. Deve ser pressa, isso sim. Dirigindo segurando a pressa por dentro dos dentes - com força. Vejo todo mundo dirigindo desse jeito, e os pedestres atravessando na faixa assim também, e quando me olhei no retrovisor eu estava igualzinha a eles. Há anos já. 

Reparei que alguma coisa aconteceu na cidade que ninguém mais usa as sinaleiras dos carros. Não sei se isso é mais difícil quando você é o motorista de trás ou o pedestre da frente. Não sei por que proibiram todo mundo em Natal de usar a sinaleira dos próprios carros e motos. Ou se os carros estão vindo sem isso. É, porque: o Brasil está em crise, mas aqui em Natal parece ir tudo muito bem. Os carros importados e novos (brilhando) desfilam nas ruas todo dia. Vai que esses modelos novos estão chegando sem sinaleira - porque ninguém já não estava usando mesmo. 

Aí a cidade tá mais nervosa. 

Sabe que entra-ano-sai-ano (e todo mundo continua usando a expressão entra-ano-sai-ano que é realmente detestável) e eu acho tudo mais nervoso e virado por aqui, mas os textos alheios só fazem escrever que tá tudo tão igual. 

O preço do litro da gasolina tá perto de ficar mais caro que um carro zero. O transporte público não só continua ruim como tem experimentado ficar péssimo. Faz anos que não tem ônibus do centro da cidade para o campus da universidade - e pegar dois ônibus daqui pra lá é tudo bem pra prefeitura, dizem. Teve vezes que experimentei a aventura e levei mais de uma hora, perdi todas as calorias da refeição suando no trajeto, tive de recusar dar esmola a três pedintes que entraram pra fazer discurso, e quando cheguei na universidade a professora tinha faltado sem avisar. Sim, achei que só aluno fazia isso, mas na universidade tem dessas coisas. 

Estou no oitavo ano de universidade. Mas é o segundo curso. Vai vendo. 

Nunca pareceu tão difícil fazer amigos. Todo mundo já é amigo de infância em todo lugar que chego - mesmo que tenham se conhecido no mês passado. Nesses dias vou começar a ir ao cinema e ao teatro sozinha, o que não é necessariamente um problema, mas faz com que a gente pense nisso: em não ter companhia para o que não importa tanto.

Todo mundo segue absorto no celular e dia desses puxei um livro na mesa do bar, enquanto ninguém conversava comigo. A solidão tem me incomodado, dá pra ver. Dá pra ver? 

Tem dias que faz um calor insuportável: são quase todos. 

Tem dias que parece tudo tão acelerado e nervoso, que me parece que a cidade ganhou velocidade própria e não estaciona mais. Parece que a cidade também tá assim, prendendo a pressa por dentro dos dentes, franzindo o rosto, pisando firme no acelerador dos dias. Ficando alheia à tudo, suspensa no tempo: sem nenhum sentido. Dias em que Natal não faz muito mais sentido, não respira nem conversa como antes, não olha nos olhos. E corre. Nesses dias eu só planejo ir embora - porque é quando ficar aqui também deixa de fazer sentido. 

E a solidão já expulsa. E aí quem sabe eu te escreva depois de um outro lugar. 

Sem fracasso anunciado

Quando chegamos a conclusão que só demos certo não porque tínhamos boas expectativas ou porque não as tínhamos: e sim porque as nossas expectativas eram as piores possíveis. Porque começamos sem esperança, já com certa apatia e nenhum desespero. Nenhum desespero com nossas vidas, com nós dois, com mais coisa alguma da vida. Era só uma cartada final em forma de ausência de movimento. No começo éramos isso: ausência de movimento.

Não havia pretexto e o fim era próximo. O fracasso estava anunciado e a gente só lambia as próprias feridas enquanto fingia se importar um com o outro. Éramos bons nisso. Em fingirmos em nos importar e em parecer viver quando já se está semi-morto.

Inflamos algum ar e energia por dentro dos balões. Sorrimos sem querer e vivemos alegrias sem sentir nem perceber, é claro. Só vivemos. Anunciamos mais fracassos. Lambemos as feridas velhas que não precisavam mais disso. E ligamos o som um pouco alto, não arrumamos a casa nem o que éramos. Fizemos questão de perseguir um fracasso que nunca veio, buscando uma auto-afirmação que nunca soubemos qual era. Nem qual é.

Continuamos juntos enquanto o fracasso anunciado não se anunciava e nossa ausência de desespero dava lugar a alguma fantasia. E permanecemos porque não havia razão para não, e só para sim.

Estamos ainda sendo. O fracasso não veio. E as expectativas, ruins, não avisam coisa alguma.

Se me encontrar por aí

De vez em quando, passa um filme no cinema ou ouço um disco bom. De vez em quando, gosto de levar a menina para dançar e às vezes dá para ir a um lugar que não esteja cheio de babacas. Fazemos um casal bonito e a amo como um pobre desesperado. Eu a transformei em personagem de crônica e os leitores gostam mais dela do que de mim. Pedem crônicas e mais crônicas sobre a menina triste de olhos verdes. Estão certíssimos. Eu também gosto mais dela. 

Você contou que viu um cara muito parecido comigo no metrô de Londres. Pois talvez tenha sido eu. Se o encontrar de novo, diga que preciso de uma horinha comigo mesmo. Sabe quando o céu escurece, as nuvens pesam sobre as nossas cabeças, o ar e a luz do sol ficam de um jeito estranho e o pessoal fala "vai chover pra burro"? Ando assim: quase chovendo pra burro. 

(Trecho de Carta aberta para um amigo além-mar, uma das crônicas de João Paulo Cuenca das mais belas.)


Se me encontrar por aí, diga que preciso de muito mais que uma hora comigo mesma.
Se me encontrar por aí, chovendo pra burro, por dentro e por fora, diga que não preciso parar de chover agora, mas que preciso um dia parar de chover tanto assim. Diga que preciso de mais de uma hora comigo mesma para isso.
Se me encontrar por aí, diga que preciso ter comigo uma vida quase toda - a vida que deixei pra trás.
Diga que preciso deixar de imaginar o que poderia ter sido e o como poderia estar sendo. Que nada importa que não esteja sendo. E mesmo o que está sendo, por agora mesmo, chovendo tanto ou não: nem esse importa tanto. Porque passa.
Diga pra mim que tudo passa. Mesmo que eu diga que é mentira, que eu não acredito nisso. Aliás, continuo sem acreditar nem um pouco. Mas diga. Pode ser que eu acredite, quem sabe.
Diga que eu escreva mais e acredite mais nas mentiras que escrevo. Na ficção que de fantástica não tem nada: mas é tão absurda quanto.
Diga a mim que eu me despeça de quase tudo, e que fique mais tempo sozinha comigo mesma quando eu me despedir.
Se me encontrar por aí, diga que não preciso ter medo de ficar sozinha, porque isso vai acontecer de qualquer modo: e não vai ser ruim.
Diga que eu não pare de sonhar, mas que não sonhe tanto. E quando eu responder que não tenho esse meio termo, me dê uns tapas na cara. Não dói. Alivia outra dores. Pode bater.
Diga que eu pegue esse tempo comigo mesma, essas despedidas, e me dê outros tapas iguais. Enquanto acordo.
Diga a mim que eu acorde, e que acelere: me avise que eu estou só perdendo tempo. Enquanto chovo pra burro.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Começos e fins

É como se estivesse muito perto do fim sem saber nem por onde começar. É assim mesmo. Estar bem perto do fim, de terminar com tudo, e ainda assim não saber por onde começa nem onde coloca as mãos e pés. Eu vivo trocando esses dois de lugar certo, por isso ando falando tanto sobre eles. (Não por acaso, tenho sentido grandes dores nas minhas mãos e nos meu pés ultimamente. Preciso marcar um médico. Mas, aqui em Natal, se eu telefonar para a clínica na quarta-feira de cinzas é capaz de só conseguir consulta para depois da semana santa - do ano que vem.)

São os últimos meses desse projeto mal feito de vida que comecei sem nem saber por quê, o mestrado. A dissertação pode estar perto do fim, mas não está. Devia estar perto do fim, mas não está. Eu postergo muito por não querer dar conta disso, dar cabo desse negócio. Não era nem para eu ter começado, penso. Depois penso: foi bom ter feito, valeu a pena, tô sacando melhor a função do teste T e dos diagramas de dispersão, olha lá que... grande nada.

A gente se aproxima do fim de grandes projetos e pensa que não sabe nem por onde começar: a própria vida. A gente escolhe caminhos que não se justificam, abandona caminhos e pessoas com ainda menos justificativas, fica sozinho e depois fica com tanta gente ao redor que sufoca. Fica sem trabalho e sem dinheiro e depois ganha tanto dinheiro que não quer mais nem trabalhar nem gastar dinheiro com nada que não valha realmente a pena. E nada que vale realmente à pena se compra com dinheiro. Sufoca o carnaval e o feriado e tantos domingos por que: está escrevendo uma dissertação ou uma tese ou trabalhando para alguém ganhar mais dinheiro que você ou para você ganhar mais dinheiro e não sentir nada de bom ao fazer isso, porque dinheiro não te faz sentir nada de bom por muito tempo. Ontem mesmo gastei dinheiro comprando maquiagem para cobrir as imperfeições: a melhor síntese possível dessa superficialidade toda. Da minha superficialidade toda.

E enquanto eu toco o projeto, finjo que termino, digo que encerro ciclos: a vida continua sem começo certo, sem recomeço, muito menos, com tudo mudando e permanecendo totalmente igual, no fim das contas. Os anos passam e os planos falham e o que não era plano acontece de um jeito melhor e se faz novos planos que só acontecem a metade e a gente se ilude achando que está sempre a fazer algo grandioso com nossas vidas - quando a gente só repete figurinhas dos outros.

Enquanto eu finjo que termino uma grande coisa, fecho o embrulho de uma dissertação cheia de gráficos e tabelas e números da estatística inferencial, achando que fiz grandes avanços só porque finalmente entendi cinco capítulos do livro de estatística, achando que faço coisa maior ainda escrevendo tantas páginas em word para dizer que "não achei nada" na pesquisa inteira: a minha vida segue, sem começo, sem meio, sem recomeço, com fim longe, espero, com significados em outros lugares que eu nunca encontro, que encontro só às vezes, e que perco logo em seguida, com solidões e sufocamentos (metafóricos) ao mesmo tempo. O tempo corre desesperado. Eu não seguro nada. Eu não começo nada. Só toco o passo, a banda, o bloco.

Mais tarde vou fugir dentro de um bloco, um que não seja o meu. De repente é um começo diferente dessa vez. Um começo perto do fim.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Mas acabou

Acabou o dia, a vontade, a fome, o apetite da disposição.
Acabou o abraço, acabou o encontro, nasceu o embaraço e o desencontro porque acabou.
Acabou o barulho, acabaram as palavras. Chegou o silêncio e ficou.
Acabou o como você vai. Acabou o me conta uma novidade qualquer. Acabou o tá tudo bem mesmo. Acabou o interesse.
Acabou a bateria, a energia, e até o desgaste acabou.
Acabou a companhia e o som e o silêncio suspenso de uma companhia que se faz presente sem que se precise falar. Nem ouvir. Basta estar. Acabou o estar.
Acabou o casamento. Acabou. Até o divórcio, também, acabou.
Acabaram vários divórcios que começaram e duraram muito e terminaram logo duma vez.
Acabou tudo para deixar o nada.


Ficou só
com a vida inteira pela frente.