segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Se me encontrar por aí

De vez em quando, passa um filme no cinema ou ouço um disco bom. De vez em quando, gosto de levar a menina para dançar e às vezes dá para ir a um lugar que não esteja cheio de babacas. Fazemos um casal bonito e a amo como um pobre desesperado. Eu a transformei em personagem de crônica e os leitores gostam mais dela do que de mim. Pedem crônicas e mais crônicas sobre a menina triste de olhos verdes. Estão certíssimos. Eu também gosto mais dela. 

Você contou que viu um cara muito parecido comigo no metrô de Londres. Pois talvez tenha sido eu. Se o encontrar de novo, diga que preciso de uma horinha comigo mesmo. Sabe quando o céu escurece, as nuvens pesam sobre as nossas cabeças, o ar e a luz do sol ficam de um jeito estranho e o pessoal fala "vai chover pra burro"? Ando assim: quase chovendo pra burro. 

(Trecho de Carta aberta para um amigo além-mar, uma das crônicas de João Paulo Cuenca das mais belas.)


Se me encontrar por aí, diga que preciso de muito mais que uma hora comigo mesma.
Se me encontrar por aí, chovendo pra burro, por dentro e por fora, diga que não preciso parar de chover agora, mas que preciso um dia parar de chover tanto assim. Diga que preciso de mais de uma hora comigo mesma para isso.
Se me encontrar por aí, diga que preciso ter comigo uma vida quase toda - a vida que deixei pra trás.
Diga que preciso deixar de imaginar o que poderia ter sido e o como poderia estar sendo. Que nada importa que não esteja sendo. E mesmo o que está sendo, por agora mesmo, chovendo tanto ou não: nem esse importa tanto. Porque passa.
Diga pra mim que tudo passa. Mesmo que eu diga que é mentira, que eu não acredito nisso. Aliás, continuo sem acreditar nem um pouco. Mas diga. Pode ser que eu acredite, quem sabe.
Diga que eu escreva mais e acredite mais nas mentiras que escrevo. Na ficção que de fantástica não tem nada: mas é tão absurda quanto.
Diga a mim que eu me despeça de quase tudo, e que fique mais tempo sozinha comigo mesma quando eu me despedir.
Se me encontrar por aí, diga que não preciso ter medo de ficar sozinha, porque isso vai acontecer de qualquer modo: e não vai ser ruim.
Diga que eu não pare de sonhar, mas que não sonhe tanto. E quando eu responder que não tenho esse meio termo, me dê uns tapas na cara. Não dói. Alivia outra dores. Pode bater.
Diga que eu pegue esse tempo comigo mesma, essas despedidas, e me dê outros tapas iguais. Enquanto acordo.
Diga a mim que eu acorde, e que acelere: me avise que eu estou só perdendo tempo. Enquanto chovo pra burro.

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