quinta-feira, 26 de março de 2015

Corredor noturno

Vejo os mesmos rostos de sempre e desconheço todos. Um ex colega de trabalho passa por mim e finge que não me conhece. Sorrio pra ele e ele continua a fingir que não me conhece. Não lembro de ele ter dito que tem prosopagnosia. Mas vai saber, né.

Sento num dos bancos do corredor e continuo a olhar os rostos conhecidos dos desconhecidos que passam. Uma menina muito magra e muito alta passa, usando calças bem justas, tênis. Pernas compridas, um cabelo lisíssimo. Preocupação nenhuma, ela vai. O trio do meu lado esquerdo está pensando em fazer mestrado. Mas uma delas não faz a menor ideia sobre o que.

Senta uma menina do meu lado direito; tinha acabado de passar andando por mim quando eu vinha pro lado de cá. Eu a tinha achado linda. A pele bem branca, o vestido branco também. os cabelos castanhos e meio curtos e presos. Um rosto irretocável com um piercing de argola entre as duas narinas, dando um contraste que cabia em tudo e não se explicava. Enigmaticamente linda, ela.

O trio do meu lado continua discutindo sobre o mestrado e uma delas diz que quer receber bolsa. Eu nunca ouvi ninguém na universidade dizer que não quer receber bolsa. E começa a tocar alto uma música que parece árabe. Não entendo o que diz, muito menos o que significa aquilo, mas tem um balanço bom. Não sei da onde vem - sei que me leva a algum lugar e por isso começo a escrever com pressa - mas ela está tocando alta, muito alto para um corredor de universidade. Mas ninguém se incomoda nem para pra ouvir; será que ninguém tá ouvindo? O problema é que, nesse setor, ninguém mais surpreende nem é surpreendido. Tudo é natural, por mais absurdo que pareça.

Achei que podia ser o toque entre uma aula e outra. A sineta quebrou há semanas, e, nesse nosso setor, não surpreenderia (como disse) uma música meio-árabe cheia de balanço pra avisar que pode sair da sala pra fumar.

Um cara se aproxima e senta do lado direito da menina à minha direita, a menina enigmaticamente linda. O som é dele. Reparo e parece um microssistem (sim), ele abaixa um pouco a música, que agora é outra, é melhor. E a ideia é de que alguém acertou no som ambiente, por inteiro. Assim mesmo.

Ele e a menina enigmaticamente linda começam a conversar. Ela usa um par de havaianas daquelas azuis com branco, e bem encardido. Ela balança um pouco as pernas. Eles parecem nunca ter se falado antes, mas conversam naturalmente - como tudo ali parece ser, natural. Ela deve ter tatuagens - todo mundo nesse corredor tem tatuagens. Procuro e não vejo nada. A música fica cada vez melhor. Eles começam a falar sobre um bar perto da universidade; e eu acabo de voltar de lá. Os amigos dele se aproximam para conversar e elogiam a música, e a noite realmente parece que ganha um ritmo, as pessoas caminham com um balanço, e as cenas perdem o peso, o barulho de vozes, a pressa dos passos. Ninguém anda com pressa nesse corredor. Eu mesmo nunca vejo.

A menina se levanta e vai embora em silêncio. Tem uma tatuagem na panturrilha. Todos saem para o intervalo e ele abaixa ainda mais o som, e os barulhos pesados ficam altos: vozes e passos e um pouco de pressa. Um pouco. Eu volto pra sala de aula; agora tem menos o que ver aqui. E com certeza já estou atrasada, porque fiquei ouvindo ritmos e escrevendo textos naquele banco.

terça-feira, 24 de março de 2015

Vejo luz

Chegou em casa cedo da noite. As dores junto. As dores bem perto do peito e o peso delas afundando tudo em direção ao chão. 11º andar. Afundando em direção ao chão. Em direção ao chão. Botou uma única música pra tocar em repeat. Vejo luz. Usou a tinta velha para improvisar aquarela e improvisar novos quadros que não terminavam nunca. Mas pintou em papéis, no chão. O silêncio e as dores junto. A música em repeat. Vejo luz. Vejo luz em todo lugar. Os borrões azuis nos papéis e a cor nenhuma do chão e das folhas de ofício. As dores empurrando em direção ao chão. 11º andar. O chão longe perto. Vejo luz. Fez céus. Pintou céus em aquarela como se fosse dia, como se houvesse luz agora. Vejo luz. A música repetia. Nem lembro quanto tempo levei pra chegar aqui. Amanhã vai tentar se alimentar do que vivi. Até aqui. Até aqui, as dores pisando no peito e empurrando para o chão. Empurrando-a para o chão. Eram já mais de dez céus. A música repetia. Vejo luz. Sei que onde estiver, os meus passos vão levar a algum lugar. Tinha estado menos estática. Pintava mais. Usava os dedos. Mais azul. A tinta acaba e os céus iam acabar logo. Vejo luz. A música não ia parar de repetir. A noite ficava mais noite. Vejo luz. Vejo em todo lugar. O silêncio pesava junto com as dores e as costas por cima das folhas de ofício. Azuis. Um chão azul. As dores empurrando ao chão. 11º andar. Talvez fizesse isso até o amanhecer. Vejo luz.

Um céu sem azul nem luz tinha uma lua que sorria um sorriso amarelo.

Aos ciclos

Pensei mesmo que podia ser bom mudar as imagens, as cores, os móveis, os hábitos. Ter mais dia e menos noite também literalmente, para que mais dias claros viessem, ou estivessem por vir. Pensei mesmo que era bom confiar, que era necessário, inclusive, ter alguma esperança. Pensei que confiar em mudanças era um sentimento bom e quase concreto. E comecei por fazê-las.

Não demora para a cena repetir, a história ser a mesma, o pesadelo vir de novo, a noite ficar mais longa e cada vez mais escura - porque isso é possível. Que as cores e as imagens vão é voltar a atrapalhar, que as mudanças não resistem a ordem absoluta dos fatos. Que as pessoas estão as pisar cada dia mais forte, que cada recomeço é repetição absoluta e o fim é só para dar a impressão de alívio e de que pode ser diferente. O fim é só um estágio para manipular expectativas e mudanças. Porque tudo vai continuar igual: parando e repetindo.

Pensei mesmo que podia não me acomodar e apostar de novo nas mudanças de ares de fora e de dentro. Queimei papéis e comprei flores. Dormi menos. Mas não mudei nada muito mais. Hoje já não mudo quase nada. Quando penso em fazê-lo, meu freio é rápido. Não adianta insistir, a cena vai repetir, o sofrer se repete sempre, floreia seus ciclos, tem estadias diferentes, mas repete e fica. Ele sempre está por aqui. Silencia para nós pensarmos que somos poderosos, que podemos seguir donos de nós mesmos.

Lembro de tudo isso e freio. Não acelero mais. Não tem muito o que fazer. Acho mesmo que já andamos de mãos dadas, ou pelo menos lado a lado, os cotovelos se batendo. E isso nem incomoda mais.

o tempo não é linear

o anísio foi quem se meteu comigo depois do almoço a ver se eu espevitava. eu estou bem, dizia-lhe, estou bem. e ele queria saber se estar bem era andar de trombas. eu respondi que o tempo não era linear. preparem-se os sofredores do mundo, o tempo não é linear. o tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas e que se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. é fácil de entender. quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha-tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injeta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.


valter hugo mãe, 
a máquina de fazer espanhóis.

Duas vozes

Eu fui dar uma entrevista para ser gravada em vídeo e áudio e para ser espalhada por aí depois: pelas redes sociais. Eu não queria porque: eu tenho vergonha até de me olhar no espelho, imagine de me assistir dando uma entrevista. E mais porque: era para lançar meu primeiro livro em e-book, que eu nunca achei que merecesse tanto portfólio. Mas vamos, eu disse. Topei.

Fui assistir a entrevista e tomei um susto. Peguei o celular e telefonei (mentira, mandei recado no whatsapp) para o entrevistador e perguntei o que tinha acontecido: que voz era aquela que tinham colocado no lugar da minha. "É a sua mesmo, minha filha". "Claro que não é. Eu não escuto assim". Acho que ele suspirou do outro lado: coitada.

Sofri. Fiquei sem acreditar que as pessoas de fato ouviam aquela voz saindo de mim, e não a que eu escuto - que é bem melhor, é algo de normal. A voz que eu escutava na entrevista era outra coisa. Aliás, não assisti a entrevista até o final. Baixei em muito o volume. Fiz outras coisas enquanto ela rolava. E tudo isso foi uma única vez. Nunca dei replay nessa entrevista, nunca assisti de novo.

Passei a cultivar o hábito de ouvir meus áudios enviados por wazap. Otávio diz que isso é coisa de gente abestalhada. Expliquei que é uma demanda existencial minha. Não me reconheço quando ouço minha voz. Não sei quem é essa pessoa, o que ela faz, porque ela está dentro de mim, usando outras cordas vocais no lugar das minhas. Eu tenho repetido esse hábito e, sim, descobri outras pessoas que fazem o mesmo. (E todas escondem isso.)

O problema foi que o e-book saiu tanto que virou livro de papel, que por ter sido lançado como livro de papel e isso ser ainda tão chique, o cara da rádio me ligou e me pediu que fosse lá, gravar uma entrevista. Aí eu fui. Cheguei lá e quis voltar. Menina, como é que eu faço isso comigo e com as pessoas e vou obrigar mais desconhecidos a ouvir a minha voz falando de um livro que sabe-lá se alguém que ouvir a entrevista vai querer comprar? Provavelmente não, né, com uma voz dessa.

A audiência da rádio vai minguar em um minuto - ainda mais que a entrevista tem três minutos. E nessas horas até agradeço meus pais por terem me proibido fazer Jornalismo - eu teria desistido de qualquer forma. Ou perceberia logo como não sei falar direito em público, ou perderia rápido todos os empregos e seria obrigada a fazer qualquer outra coisa da vida - como Psicologia, por exemplo.

E agora mesmo penso em escrever pro cara da rádio para ele desistir de soltar a entrevista. Mas também acho que ele já pode ter desistido antes mesmo de eu pedir. Porque... né. Mas amanhã não vou ligar o rádio, também, para evitar novos traumas.

terça-feira, 17 de março de 2015

Lamento sem panelas

Faltavam poucos dias para a presidente ser reempossada no cargo, e os comentários sobre o ministério que ela escolhia eram daquele tipo: assustados, temerosos, em tom de lamento. Alguém disse: "nós teremos um governo muito difícil, o Brasil nesses próximos anos será terrível, viu". Ou algo como isso. A resposta que eu ouvi, sem titubeios, foi um "tomara que seja!, espero que seja assim mesmo!". E o ódio inflado dentro do peito. Fiquei assustada com a torcida contra. Ainda me assusto com atitudes assim - não sei por que.

E nesses dias quando vejo pessoas batendo colheres em panelas eu só consigo pensar na verdade que elas estão comemorando. Quando eu vejo os comentários estupidamente odiosos nas redes sociais eu penso o mesmo: que por dentro elas comemoram, vibram mais. E que não por acaso uma manifestação parece mais uma confraternização generalizada. Me parece realmente que ninguém está indo às ruas nem às panelas gritar desesperadamente por mudanças, mas gritar em comemoração ao fato de estar tudo tão ruim - para eles.

Sempre lamentei ene posturas do governo da presidente, porque, ainda bem, me resta um pouco de inteligência mesmo passando tanto tempo na frente do facebook hoje em dia. Mas nunca aceitei uma discussão que acusa o partido da presidente de corrupção, enquanto defende o principal partido da oposição com o argumento da estabilidade econômica. Fico esperando pelas outras acusações (já que a corrupção, alguém avise a eles, não foi inventada pelo partido da presidente, nem acontece somente dentro dele) e pelas outras defesas (porque com estabilidade econômica conto uma).

Eu muitas vezes lamentei, por exemplo, a postura dessa presidência em adiar (ou não se importar com) discussões como o aborto (é a nossa primeira mulher presidente), e discussões sobre a violência covarde da polícia contra manifestantes até, principalmente, 2014 (pois ela só chegou até aqui por ter ido fazer o mesmo nas ruas, décadas atrás). Dentre outras questões humanas sempre abandonadas por presidentes e governadores e prefeitos do país inteiro.

Mas eu nunca lamentei tanto que as pessoas torcessem contra e vibrassem pelo quadro negativo. Porque é isso que acontece, enquanto elas forjam uma indignação generalizada. Vejo quem consegue fingir decepção quando na verdade torce para que o país saia ainda mais do prumo, a corrupção esteja cada vez mais entranhada, e as panelas soem nos ouvidos dos vizinhos pelos próximos quatro anos: tudo para termos um próximo governo dito de oposição. Esse governo de oposição que tinha como uma das principais bandeiras: a redução da maioridade penal. Esse governo de oposição cujo um de seus principais líderes reclamou em plenário semana passada: sobre o salário do professor para quarenta horas, pois são trinta horas de aula, e dez são "horas não trabalhadas" para "supostamente" preparar aulas. As aspas é porque ele falou assim mesmo.

Somos um país que torce contra si mesmo, que cuida mal de si mesmo, que fala mal do que não sabe e fala bem do que sabe menos ainda. Somos um país lamentável a essa altura do campeonato. E é só. É só isso que conseguimos ser agora.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Bartolomeu

Meu avô me convidou, naquela tarde, para me assentar ao seu lado nesse banco cansado. Pegou minha mão e, sem tirar os olhos do horizonte, me contou: 

O tempo tem uma boca imensa. Com sua boca do tamanho da eternidade ele vai devorando tudo, sem piedade. O tempo não tem pena. Mastiga rios, árvores, crepúsculos. Tritura os dias, as noites, o sol, a lua, as estrelas. Ele é o dono de tudo. Pacientemente ele engole todas as coisas, degustando nuvens, chuvas, terras, lavouras. Ele consome as histórias e saboreia os amores. Nada fica para depois do tempo. 

As madrugadas, os sonhos, as decisões, duram pouco na boca do tempo. Sua garganta traga as estações, os milênios, o ocidente, o oriente, tudo sem retorno. E nós, meu neto, marchamos em direção à boca do tempo. 

Meu avô foi abaixando a cabeça e seus olhos tocaram em nossas mãos entrelaçadas. Eu achei serem pingos de chuva as gotas rolando sobre meus dedos, mas a noite estava clara, como tudo mais.


Bartolomeu Campos Queirós, em Por Parte de Pai.

Apalavrado

Comecei a ler quando começou a doer mais. Continuei a ler quando passou a doer demais. E quando não conseguia mais me concentrar em palavra nem trabalho, fui ler. Parei e escrevi. Li mais. Quando achei que não ia suportar mais nada, li capítulos inteiros, repeti livros, reli histórias ficcionais com enredos tristes, evitei os finais ruins. Quis telefonar pro autor e saber se ele poderia me ajudar. Se ele lesse aquele capítulo em voz alta já me seria terapêutico o suficiente. Peguei outro livro. Escrevi sobre ele. Perdi o sono por ler e ouvir palavras dos outros. Perdi o sono para ler e escrever palavras que inventei todas. 
Quando deu tudo errado, deixei as palavras saírem em voz alta, e quando deu tudo certo eu escrevi-as em voz alta e acreditei em muitas mentiras que disse com elas. Faço isso. Quando perdi os sonhos, abri novos livros e escancarei uns poemas. Escrevi versos ruins. Li mais poemas bons. Quando perdi mais sonhos, escrevi mais, li de novo. Quando me dei conta e me convenci que não há muito que realmente importa: deitei a ler. 

Só as palavras que ficam, importam, e têm vida própria. O resto é tudo morto.