quarta-feira, 4 de março de 2015

Apalavrado

Comecei a ler quando começou a doer mais. Continuei a ler quando passou a doer demais. E quando não conseguia mais me concentrar em palavra nem trabalho, fui ler. Parei e escrevi. Li mais. Quando achei que não ia suportar mais nada, li capítulos inteiros, repeti livros, reli histórias ficcionais com enredos tristes, evitei os finais ruins. Quis telefonar pro autor e saber se ele poderia me ajudar. Se ele lesse aquele capítulo em voz alta já me seria terapêutico o suficiente. Peguei outro livro. Escrevi sobre ele. Perdi o sono por ler e ouvir palavras dos outros. Perdi o sono para ler e escrever palavras que inventei todas. 
Quando deu tudo errado, deixei as palavras saírem em voz alta, e quando deu tudo certo eu escrevi-as em voz alta e acreditei em muitas mentiras que disse com elas. Faço isso. Quando perdi os sonhos, abri novos livros e escancarei uns poemas. Escrevi versos ruins. Li mais poemas bons. Quando perdi mais sonhos, escrevi mais, li de novo. Quando me dei conta e me convenci que não há muito que realmente importa: deitei a ler. 

Só as palavras que ficam, importam, e têm vida própria. O resto é tudo morto. 

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