terça-feira, 24 de março de 2015

Duas vozes

Eu fui dar uma entrevista para ser gravada em vídeo e áudio e para ser espalhada por aí depois: pelas redes sociais. Eu não queria porque: eu tenho vergonha até de me olhar no espelho, imagine de me assistir dando uma entrevista. E mais porque: era para lançar meu primeiro livro em e-book, que eu nunca achei que merecesse tanto portfólio. Mas vamos, eu disse. Topei.

Fui assistir a entrevista e tomei um susto. Peguei o celular e telefonei (mentira, mandei recado no whatsapp) para o entrevistador e perguntei o que tinha acontecido: que voz era aquela que tinham colocado no lugar da minha. "É a sua mesmo, minha filha". "Claro que não é. Eu não escuto assim". Acho que ele suspirou do outro lado: coitada.

Sofri. Fiquei sem acreditar que as pessoas de fato ouviam aquela voz saindo de mim, e não a que eu escuto - que é bem melhor, é algo de normal. A voz que eu escutava na entrevista era outra coisa. Aliás, não assisti a entrevista até o final. Baixei em muito o volume. Fiz outras coisas enquanto ela rolava. E tudo isso foi uma única vez. Nunca dei replay nessa entrevista, nunca assisti de novo.

Passei a cultivar o hábito de ouvir meus áudios enviados por wazap. Otávio diz que isso é coisa de gente abestalhada. Expliquei que é uma demanda existencial minha. Não me reconheço quando ouço minha voz. Não sei quem é essa pessoa, o que ela faz, porque ela está dentro de mim, usando outras cordas vocais no lugar das minhas. Eu tenho repetido esse hábito e, sim, descobri outras pessoas que fazem o mesmo. (E todas escondem isso.)

O problema foi que o e-book saiu tanto que virou livro de papel, que por ter sido lançado como livro de papel e isso ser ainda tão chique, o cara da rádio me ligou e me pediu que fosse lá, gravar uma entrevista. Aí eu fui. Cheguei lá e quis voltar. Menina, como é que eu faço isso comigo e com as pessoas e vou obrigar mais desconhecidos a ouvir a minha voz falando de um livro que sabe-lá se alguém que ouvir a entrevista vai querer comprar? Provavelmente não, né, com uma voz dessa.

A audiência da rádio vai minguar em um minuto - ainda mais que a entrevista tem três minutos. E nessas horas até agradeço meus pais por terem me proibido fazer Jornalismo - eu teria desistido de qualquer forma. Ou perceberia logo como não sei falar direito em público, ou perderia rápido todos os empregos e seria obrigada a fazer qualquer outra coisa da vida - como Psicologia, por exemplo.

E agora mesmo penso em escrever pro cara da rádio para ele desistir de soltar a entrevista. Mas também acho que ele já pode ter desistido antes mesmo de eu pedir. Porque... né. Mas amanhã não vou ligar o rádio, também, para evitar novos traumas.

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