terça-feira, 17 de março de 2015

Lamento sem panelas

Faltavam poucos dias para a presidente ser reempossada no cargo, e os comentários sobre o ministério que ela escolhia eram daquele tipo: assustados, temerosos, em tom de lamento. Alguém disse: "nós teremos um governo muito difícil, o Brasil nesses próximos anos será terrível, viu". Ou algo como isso. A resposta que eu ouvi, sem titubeios, foi um "tomara que seja!, espero que seja assim mesmo!". E o ódio inflado dentro do peito. Fiquei assustada com a torcida contra. Ainda me assusto com atitudes assim - não sei por que.

E nesses dias quando vejo pessoas batendo colheres em panelas eu só consigo pensar na verdade que elas estão comemorando. Quando eu vejo os comentários estupidamente odiosos nas redes sociais eu penso o mesmo: que por dentro elas comemoram, vibram mais. E que não por acaso uma manifestação parece mais uma confraternização generalizada. Me parece realmente que ninguém está indo às ruas nem às panelas gritar desesperadamente por mudanças, mas gritar em comemoração ao fato de estar tudo tão ruim - para eles.

Sempre lamentei ene posturas do governo da presidente, porque, ainda bem, me resta um pouco de inteligência mesmo passando tanto tempo na frente do facebook hoje em dia. Mas nunca aceitei uma discussão que acusa o partido da presidente de corrupção, enquanto defende o principal partido da oposição com o argumento da estabilidade econômica. Fico esperando pelas outras acusações (já que a corrupção, alguém avise a eles, não foi inventada pelo partido da presidente, nem acontece somente dentro dele) e pelas outras defesas (porque com estabilidade econômica conto uma).

Eu muitas vezes lamentei, por exemplo, a postura dessa presidência em adiar (ou não se importar com) discussões como o aborto (é a nossa primeira mulher presidente), e discussões sobre a violência covarde da polícia contra manifestantes até, principalmente, 2014 (pois ela só chegou até aqui por ter ido fazer o mesmo nas ruas, décadas atrás). Dentre outras questões humanas sempre abandonadas por presidentes e governadores e prefeitos do país inteiro.

Mas eu nunca lamentei tanto que as pessoas torcessem contra e vibrassem pelo quadro negativo. Porque é isso que acontece, enquanto elas forjam uma indignação generalizada. Vejo quem consegue fingir decepção quando na verdade torce para que o país saia ainda mais do prumo, a corrupção esteja cada vez mais entranhada, e as panelas soem nos ouvidos dos vizinhos pelos próximos quatro anos: tudo para termos um próximo governo dito de oposição. Esse governo de oposição que tinha como uma das principais bandeiras: a redução da maioridade penal. Esse governo de oposição cujo um de seus principais líderes reclamou em plenário semana passada: sobre o salário do professor para quarenta horas, pois são trinta horas de aula, e dez são "horas não trabalhadas" para "supostamente" preparar aulas. As aspas é porque ele falou assim mesmo.

Somos um país que torce contra si mesmo, que cuida mal de si mesmo, que fala mal do que não sabe e fala bem do que sabe menos ainda. Somos um país lamentável a essa altura do campeonato. E é só. É só isso que conseguimos ser agora.

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