terça-feira, 21 de abril de 2015

Para baixo da terra

Era uma espécie de feriado de Carnaval e eu havia subido ao apartamento e chamado Fernanda para sair de novo. A gente iria para algum evento e isso já estava combinado. Não era nada demais, me lembro. Mas não lembro o que seria.

Já fim de tarde, início da noite. O lugar de onde saímos não era minha casa, mas era completamente igual. A cidade onde estávamos não parecia ser a minha, mas também era completamente igual. Entramos no elevador idêntico ao do prédio onde moro.

Uma porta que abre para fora, uma porta que corre. As teclas dos andares amareladas, antigas, quadradas saltadas para fora. A porta que abre para fora tem um retângulo na altura dos olhos, feito janela. Apertamos o andar para onde iríamos, o térreo. Mas o elevador sobe. Sobe, e sobe, sobe. Ao que parece chegar ao topo, ele retoma a descer: e parece estacionar antes do térreo. Sinto desespero, mas Fernanda tá calma, aparentemente. Assim que o elevador estaciona, a porta que abre para fora, essa que fica aparente assim que a porta de correr também se afasta, é um pouco diferente das outras. As outras são metálicas e velhas. Acinzentadas. Essa é de um amarelo bege, mas mais vivo, mais novo. E ao invés de haver o retângulo na altura dos olhos para podermos ver do lado de fora: um retângulo com a inscrição FUNERAL.

Me sinto mal.

O elevador finge que estaciona nesse andar, não fica alinhado corretamente, se mexe, parece que está a nos prender ali, Fernanda calma, eu prestes a explodir uma crise de choro verdadeira, o elevador não fica no andar no funeral, e desce, e desce. Não sei onde ele vai parar. Ele parece ter passado do térreo e vamos muito mais abaixo do que deveríamos. Fernanda está calma, eu quero chorar, e tudo isso parece muito lento mas acontece em poucos minutos. Lembro de tudo em detalhes pois o momento fez-se longo. O elevador pára, estaciona, e em um andar que aparentemente não existe. O retângulo na altura dos olhos não nos diz nada. O elevador desliga, não abre a porta de correr, não abre a porta para fora, os teclados quadrados não funcionam nem respondem, a ventilação também pára. Não há ninguém olhando por nós. O ar falta, me falta, sufoca. Olho para cima e pareço ir encolhendo. Devia estar me acocorando e chorando com poucas lágrimas e muita dor. O ar me falta. Fernanda parece um pouco preocupada mas não entende o tamanho do meu desespero. Eu tenho certeza que estou morrendo. O ar me falta, eu me desespero em mostra-lhe como o ar me falta. Começo a morrer sufocada e muito rápido.

Acordo imediatamente. Sem ar.

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