domingo, 24 de maio de 2015

Onde o tempo passa parado

Essa semana a aula de latim foi interrompida por dois palhaços profissionais. "Professor, o senhor me dá três minutos?". Se ele conhecesse nosso professor de latim ele saberia como um pedido desse era abusado. Mas não conhecia. Abusou e entrou.

Eu já conhecia os dois palhaços. Quando eu fazia psicologia, tive duas aulas interrompidas por eles, em semestres diferentes do curso. Eles têm um texto ensaiado sobre consciência ambiental, interagem com a turma, e no final se apresentam. São de um grupo de teatro que se formou pelos corredores duma universidade paulista. E frisam: pelos corredores mesmo, porque não assistíamos às aulas. Depois pedem que a gente assista às aulas, que a gente estude, se dedique, enfrente as greves, e, como eles, se forme. Porque é assim que vamos terminar um dia: e eles posam pra foto olhando pra gente.

No oitavo ano pelos corredores do mesmo setor, e encontrando pessoas que também pisaram ali há dez anos atrás, ou mais, nossas conclusões são iguais. O tempo passa pelo setor II, as pessoas também passam pelo setor II, mas tudo continua igual. Os personagens continuam os mesmos.

Os hippies que, periodicamente, aparecem para vender colares e pulseiras, eles mudam, mas sempre reaparecem. Famílias hippies, um casal e um bebê; um cara hippie sozinho; uma moça hippie sozinha; um casal de amigos hippies. São hippies diferentes, mas são os mesmos hippies. E agora vendem filtro dos sonhos também, não só colares e pulseiras.

Um cara que leve um som com alguma música muito alternativa para tocar no corredor. Ele também muda, mas sempre está lá. Sempre aparece. E parece gostar mais das quinta-feiras, um dia quase fim de semana. Aliás, no setor dois, especialmente durante a noite, a aura parece sempre ser de fim de semana - o tempo passa, as pessoas passam, isso nunca muda.

Alguém pra tocar violão muito alto em pleno corredor. Juntando com mais cinco, seis pessoas, que não necessariamente se conheçam, mas que queiram cantar e tocar violão muito alto em pleno corredor. Um grupo que sempre se faz presente. Mudam as pessoas e o tempo, o violão e a música alta está lá.

Um cara pra vender bolinho mágico de banana ou um bolo com título parecido. Ele aparece com a cesta, e termina seu expediente encostado no muro de trás dos banheiros femininos, fumando um, com um grupo que sempre esteve e vai estar por ali. Por um tempo, o espaço preferido era por trás do banheiro feminino do bloco D.

Alguém pra começar um jogo de peteca em dupla que evolua para um jogo de peteca em grupo. Que evolua para uma brincadeira que pareça muito mais uma festa, e que seja ligeiramente escandalosa mas muito natural. As petecas não faltam nem falham no setor.

As pessoas passam e os personagens ficam. O tempo passa e vai ficando tudo igual como antes, como sempre.

Eu já conhecia o texto pronto que os palhaços tinham, e as piadas que iam contar. E ri mesmo assim, em todas elas. O humor bom a gente sempre ri, mesmo repetido. Ele não falha. E passar tanto tempo pelo setor dois é o mesmo conforto da piada boa repetida: tudo continua passando, fica muito errado, e, invariavelmente, dá muito problema pela universidade. Mas fica igual a antes. Cada coisa em seu lugar, cada personagem em seu papel. O tempo passa parado, e isso não desespera ninguém. Por isso alguns personagens ficam tanto tempo, apertando baseados e consumindo amizades que possam durar a vida inteira ou acabar aquela noite. Por isso os palhaços voltam, a turma ri, eles passam o chapéu, e seguem a vida, de novo, pelos corredores de uma universidade. E a gente vai ficando por ali, onde o tempo passa parado, e ninguém sabe se vai rápido ou sem pressa. Os personagens e as pessoas reais não se importam tanto com isso naquele lugar. Eu mesma não sei se oito anos passaram rápido ou se arrastaram. O tempo foi. E tudo continua igual.

sábado, 16 de maio de 2015

A nossa cara

Quarta-feira saí de casa pela manhã, para ir buscar o Terron no aeroporto. Saí com mais de uma hora de antecedência, com água, biscoito, paciência, e cabelo lavado, sem me preocupar com o caminho da volta, que eu sempre erro. E que de fato errei de novo.

Não vou reclamar da construção arbitrária e supérflua de um novo aeroporto da cidade. Nem do acesso nem do trânsito nem comentar que a Zona Norte continua com jeito de abandonada pelo poder público - como sempre foi. Agora eles vão até tirar umas areias de cima duma duna, ali no pé da ponte nova, construir um nova sede para a Câmara Municipal, e usar disso um argumento concreto para fingir bem uma aproximação e uma preocupação com a zona norte da cidade.

Lá vou eu. A parte da cidade com menor planejamento de trânsito continua caótica. Quem tinha esperança de que a construção do aeroporto fosse fazer o poder público preocupar-se com isso, não tem mais, porque na verdade essa pessoa sem o menor senso crítico e com tanto amor no coração nunca existiu. Não por aqui em Natal.

Enquanto se atravessa avenidas, as placas indicando o aeroporto têm como companhia placas que indicam condomínios horizontais de luxo, penso eu na hora. Palm Springs, Best Springs, Best Palms ou sei lá o que mais consigam inventar com nomes em inglês. Também não sei até quando as construtoras vão continuar acreditando que qualquer nome em inglês num imóvel significa bom gosto.

Lá vai. Várias placas do Palm Springs e do seu concorrente ainda mais luxuoso pelo caminho. Mas de vez em quando, ainda bem que vi, placas lá pro aeroporto.

Quando entro para São Gonçalo: sabe o "acesso", "novo", em caminho para o aeroporto, aquele trecho mão dupla onde só cabe uma fileira de carros em cada lado, mas que deveria ser um trecho duas ou três vezes mais largo, conforme nos enganaram (disseram) na época da construção do trambolho (aeroporto)? Já vai todo esburacado. Não está nenhuma estrada para Campestre (ainda), mas segue a tendência. O lugar está claramente sem manutenção, com um asfalto de segunda (como quase todos os da cidade), enfeitado de buracos aqui e ali e aqui de novo.

Chegando aos guichês da entrada do aeroporto, agora um outdoor: Bem Vindo ao Aeroporto de São Gonçalo. Nosso aeroporto tem nomes variados, múltiplas identidades. Ele pode ser Aluísio Alves ou Aeroporto de Natal (que fica em São Gonçalo) ou Aeroporto de São Gonçalo mesmo. Esse outdoor é novo.

Chego no aeroporto mas não chego: a gente pega o tíquete do estacionamento não para entrar no estacionamento, mas para dirigir mais quilômetros até chegar ao estacionamento ou à área de embarque e desembarque. Imagino quem vai até lá só para deixar ou buscar alguém: os carros aceleram os cem quilômetros por hora para chegar a tempo de dar um (só um!) abraço na área de embarque, e voltar para o guichê e devolver o tíquete. A (in)tolerância é de vinte minutos. A primeira hora de estacionar custa dez reais. A segunda hora já vai para quatorze reais.

Cheguei lá e tentei pôr o carro próximo à entrada do aeroporto, já que, apesar dos dez reais bem pagos e mal gastos, o estacionamento não tem nenhuma árvore ou cobertura que dê algum alento a quem ande por ali. Não consegui, e parei o carro longe. No caminho do carro à entrada do aeroporto acho que cheguei a ficar desidratada.

O aeroporto tem uma beleza monumental. Por fora. Por dentro é um aeroporto como qualquer outro, de mais mal gosto do que muitos que já vimos por aí, vocês sabem, mas onde pelo menos puseram cadeiras, finalmente. Ouviu? Agora tem onde sentar no aeroporto novo. Porque eles inauguraram sem colocar lugar para a gente sentar - viajei dias depois da inauguração e estávamos pelo chão, lá, todo mundo.

Na hora de ir embora, trinta minutos depois, dou dez reais pelo estacionamento sem árvores nem coberturas nem vagas próximas, ando o bastante para desidratar de novo, dirijo um bocado do estacionamento à entrada verdadeira (?) do aeroporto, sigo pela estrada ruim, pelo acesso que não foi construído. Atravessamos a zona mais abandonada e prejudicada da cidade (ou uma das - reconheço como é difícil escolher esse posto), e vimos sem nenhuma maquiagem o que pode haver de caótico e ignorado aqui pela cidade.

Quando tinha voltado de viagem em janeiro, peguei uma van do aeroporto até minha casa, e o motorista pegou caminhos por dentro de São Gonçalo que eu nunca descobri como entrar nem sair dali. Os turistas meio surpresos, falando do acesso do aeroporto para a cidade, o caminho tão longo e tão cheio de percalços, buracos, ruas de barro e de paralelepípedos mal postos. Um caminho feio. Ele desembocou em Santos Reis, Rocas, subiu pela Ribeira, para depois seguir o itinerário turístico verdadeiro: via costeira e Ponta Negra.

Nesse dia, fiquei assim, concordando com eles, sobre como esse cartão de visitas prejudicava quem vinha uma primeira vez. Depois me dediquei a ser menos hipócrita, e fiquei assim, de outro jeito: o aeroporto de São Gonçalo é providencial, é ótimo!, porque é o cartão de visitas mais honesto que a gente agora tem.

Tudo o que ele representa já consegue dizer tão fácil o que o natalense já é, o que o turismo em Natal tem sido, e, mais ainda, o que o poder público na cidade e no estado tem se esforçado por construir aqui: uma cidade-ostentação por fora, ruída por dentro; uma paisagem que só existe para a fotografia; um lugar caro, cujo custo-benefício é uma equação de resultado horroroso, de tão discrepante; uma morada de construções públicas desnecessárias e arbitrárias, feitas por um poder público que ostenta, fotografa, e que tem dificuldade até para nomear o que faz.

Uma cidade confusa, que vende uma imagem de uma zona sul vendida, imobiliariamente* prostituída, planejada de um jeito que agrade aos olhos e às câmeras de celulares. E que agora recebe os turistas pelo lado oposto (literalmente) de tudo isso, pelo lado oposto desse pedaço bonito, e que, do aeroporto para fora, se denuncia inteira. Da construção monumental, passando pelo preço do tíquete e a precariedade em planejar uma cidade real (e não de folder turístico).

O aeroporto de São Gonçalo (ou qualquer que seja o nome que ela tenha ou possa vir a ter) é tudo o que a gente é e sabe, e esconde, e teme que descubram de nosso lugar. Ele agora é nosso arquétipo, nossa metonímia absoluta. A melhor metáfora natalense, nosso mais sincero cartão de visitas. E todo mundo que chega agora sabe muito rápido tudo isso.

Pensei em tudo isso e fiquei satisfeita com o aeroporto novo.



* Eu sei que esse advérbio não existe.