quinta-feira, 18 de junho de 2015

Carta a voinha

Oi, Vó.

Olhe, escrevo pra dizer que, depois que a senhora foi embora, eu tomei algumas decisões desimportantes na vida muito importantes pra mim. Tudo a favor da sua melhor memória, que foi a decisão principal (e realmente importante) por cima de todas elas.

Depois que a senhora foi embora, eu nunca mais comi cozido. Toda semana, quando vou no self-service aqui da rua, uma das duas ou três vezes em que passo por lá, tem cozido pra comer com pirão. Igualzinho na sua casa - que também tinha toda semana ou a cada duas, talvez. Porque já não basta eu não poder mais almoçar com a senhora todo dia, e ter que comer em self-service, eu ainda me dobrar ao cozido dos outros! Ou ao cozido dos outros mas sem ser na sua mesa de madeira de frente pra você. Nam! Resisto todas as vezes. Aliás, nem me dá vontade: a senhora não tá ali mesmo.

Porque, também, assim que a senhora foi embora, eu quase que me recusava a almoçar. Exatamente porque tinha que comer em tudo quanto é lugar, menos na casa da senhora. Achava horrível. A comida descia ruim ou nem descia. Botava quase nada no prato e deixava tudo. Quase que tomei a decisão de pular essa refeição pro resto da vida, que não fazia mais sentido nenhum todo dia ter que parar pra almoçar se não era pra parar vendo a senhora. Eu não.

Também não como mais rabanadas. Dias depois que a senhora partiu, sentei pra comer umas e me arrependi. Estavam horríveis! Na verdade deviam estar bem boas, mas o gosto foi quadrado, como se dissesse: você teve o atrevimento de achar que o gosto seria o mesmo das fatias douradas de Naide? Coitada! E pegue gosto ruim na boca.

Estou cheia de roupa rasgada sem mandar ninguém costurar. Sim, porque, se não for a senhora, vou pedir a quem? A uma costureira? Eu não! Não faço isso de jeito nenhum. Não vai ter a graça de roupa remendada recebida com o carinho de quem costura nossas dores. As avós fazem isso - a minha geração vai ser de avós que só vão fazer torradas com esse carinho. Porque costurar a gente já não faz. Eu devia ter aprendido a costurar com a senhora, pra agora não ficar com aquela saia preta rasgada no cós, a saia azul caindo da cintura, a barra da calça do kung fu com o elástico desfeito (fui treinar e quase caio). Também tem vestido folgado no busto. Nada disso eu conserto nem costuro; não quero que mais ninguém faça isso pra mim, nem sei fazer. E se soubesse: não ia fazer não. Se não for a senhora, não pode nem tem graça. Parece traição, coisa feia. E não me dá nas vontades.

Hoje quando me reconheceram como sua neta e começaram a desmanchar os olhos em lágrimas eu me segurei, voinha. Chorei não. Ri. Sorri bem aberto e bem muito. Porque também decidi que eu ia ser mais alegre, alegre que nem a senhora, e que a saudade, mesmo doendo, tinha que ser bonita.

Decidi tudo isso quando a senhora foi embora. Decidi sem pensar; decidi fazendo, entende? Quando a gente se encontrar de novo, vou querer rabanadas - e por isso espero que seja num vinte e cinco de dezembro, porque fica mais garantido comê-las assim que chegar. Vou levar as saias e os vestidos pra senhora costurar. Pra senhora me costurar.

Beijo, vó!

3 comentários:

Bia Araújo disse...

Perfeito.

Ridan disse...

Quanta beleza, poesia, sentimento...

jacqueline disse...

Que carta linda! De uma simplicidade tocante...