segunda-feira, 8 de junho de 2015

Instantes

No pé da Ribeira, na avenida Duque de Caxias, bem logo após sua descida. Um antes início de cidade, agora pedaço abandonado e escuro; com jeito de alguém que maquia o que não presta mais pra nada. A Ribeira já é assim, não mais está assim.

Segunda-feira à noite e estávamos ali no canteiro central, de frente aos carros estacionados – os carros das vagas do canteiro central. De frente para os carros e também para um feriado de dia seguinte, que não significa enforcar mais nada. Não se enforcam dias mais hoje. Só gentes. E tempo, quando o perde fazendo o que não for importante (trabalho em excesso). Segunda-feira tinha sido um dia de trabalho em excesso.

E ali ficamos olhando para cima, pois se estávamos em baixo, abaixo, tão ao pé de tudo. Os prédios não só arranhando como arreganhando todo o céu, à esquerda e à direita; já no alto, mais altos, depois do céu. Falávamos dos prédios à esquerda e à direita e sobre apartamentos. Também os bairros da cidade de ali do entorno.

E fingíamos muito bem falar e se importar com algum futuro, quando devíamos de estar muito mais com nostalgia de passado, ou indiferença ao presente. Com uma preguiça de futuro, por assim dizer, digo mesmo, que acho que é bem isso. Acho que tem sido bem isso. Uma preguiça de futuro e uma vontade de que a cidade fosse uma outra, um pouco outra; as pessoas fossem outras, fossem menos, fossem poucas. Sabemos que tudo podia ser melhor, e que podia ser melhor de um jeito muito simples.

Ali também talvez com uma vontade de que o tempo fosse mais moroso. Ali, dali em diante, e por agora também. Era um momento qualquer, e não realmente importante, mas que era tanto. Não dizia muita coisa e me significava muito. Como se fizesse alguma diferença acontecer por ali. Aliás, tenho memórias de eventos e frases tão aparentemente insignificantes; passam-se os anos e não me saem da cabeça. Acho que o trivial nos repete mais na lembrança do que os grandes dias (que nunca o são).

Duas idades tão longes (assim no plural, porque distâncias e espaços de tempo são quantizados, acho justo) metidas ali no pé duma ladeira, num bairro abandonado da cidade, segunda à noite. Os ônibus passando em barulhos próprios. E uma ambulância que saísse do instituto médico legal sem fazer barulho.

Podia ser que fosse perigoso ficar mais tempo ali. Começa a vir um homem do lado esquerdo do canteiro, carregando um saco nas costas, uma sacola muito grande. Quase ninguém anda por esse bairro a essa hora da noite – é um bairro sem pedestres noturnos. Bairro abandonado. Penso que só pessoas abandonadas andam corajosamente por bairros abandonados por essa hora do dia. E por gente abandonada aqui nessa cidade temos todos.

Lá vem o homem no meio da escuridão com uma sacola imensa e que anda meio trôpego e vem sem medo. A gente não desiste de estar ali e ele vai chegar bem próximo vindo de toda escuridão.

Estamos só nós na calçada falando sobre prédios e livros e o ônibus passa em barulho e uma ambulância sai ou chega sem sirene e nada existe na Ribeira por enquanto. A Ribeira às vezes parece estar em suspenso; suspende-se muito à noite, em silêncio e em abandono muito próprios, muito seus.

Como naqueles minutos.

O poste em cima da gente tem luz e o homem se aproxima para passar direto: é branco, nem velho nem novo, carrega saco nas costas, anda trôpego, e tem um rosto disforme e monstruoso. Ele não nos olha. Tem os olhos claros e pisa firme, anda sem medo, a pele do rosto parece brilhar sob a luz, e há cicatrizes no rosto; a cabeça monstruosa, disforme, bem erguida com um olhar de quem olha muito à frente sem olhar para lugar nenhum. O saco nas costas não lhe pesa, mas ele vai trôpego, e vai assim mesmo.

Nesse bairro abandonado.
Penso que só pessoas abandonadas andam corajosamente por bairros abandonados.
Ele vai. A gente finge se preocupar com algum futuro e não faz muita questão que o tempo passe, apesar do lugar ali pouco propício a qualquer coisa.

Tudo isso dura três minutos.
Me despeço do meu pai e volto pra casa. Acho que quando ele chegou em sua casa, também foi ler literatura. Não pensamos mais em apartamentos nem em futuro nenhum.

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