segunda-feira, 8 de junho de 2015

Mas isso não é bem postergar

Eu queria só um tempo a mais pra escrever, eu disse, que não tem sobrado tempo, e quando sobra eu escrevo, e mesmo sem sobrar eu tenho tentado escrever um pouco, falei. Mas é difícil. O ato de escrever é muito mais pensar e imaginar do que escrever, e enquanto se pensa e escreve: quem estiver por perto tem certeza de que você não faz nada de importante e que por isso tudo bem interromper. Uma, duas, várias vezes. A campainha, o telefone, e a mesma pessoa várias vezes. Melhor seria estar em um país estrangeiro, pensei. Quando estive em país estrangeiro escrevi muito, na cabeça e no papel e no computador. Aliás escrevi textos inteiros e grandes na cabeça e quando voltei consegui colocar tudo por inteiro no papel. Não teve telefone nem campainha. E eu não tive vontade de berrar ESTOU TRABALHANDO quando alguém interrompia meu pensamento porque não foi preciso. Mas só fiz histórias curtas. Agora tenho pensado em duas grandes histórias e no que isso pode virar. Muita coisa ou simplesmente nada. Especialmente quando eu coloco a história dentro da minha cabeça e começo a desenhar um personagem e BRÁ a reforma no andar de cima recomeça e BLÃM alguém bate a porta aqui enquanto fala qualquer coisa inútil. As pessoas gastam energia demais a dizer inutilidades e isso cansa a mim e não a elas. Repeti: queria só um tempo a mais pra escrever, agora tenho, tenho só um pouco mais. É provisório. Não é em país estrangeiro. A reforma lá em cima não acaba (nunca), dura meses, perturba qualquer coisa que eu faça e nesses dias eu subo e esgano o pedreiro mas antes pergunto pela proprietária que ainda não se mudou e vou por favor esganá-la e pisar no pescoço dela todo. Vou, sim. Esse enredo eu tramo todos os dias e não escrevo nem faço. Porque o barulho me interrompe todos os enredos que crio e que ficam pelo caminho, e que recomeçam ao silêncio, e que no próximo BRÁ e PÁ eles se perdem tudo de novo. Grandes sustos e ira. Meus pedaços de textos não são mais publicados por falta de tempo do editor. Não me escrevo nada de novo por falta de tempo que é o mesmo que falta de vergonha na cara. Vou fazer as histórias grandes ganharem um corpo, mesmo que feio. Se não gostar, que se dane, escrevo mais depois. Tanta coisa guardada. Tanta coisa guardada que devia já ter publicado porque texto velho perde o sentido se a gente não conseguir melhorá-lo quando pegá-lo mais umas quinze vezes. Não sei se posso muito mais. Quero mais tempo pra escrever e um texto publicado. Vou tentar aquela revista - mas gastar munição (conto) dum próximo livro eu não quero. Vou tentar pensar na história gigante. Mas tem que haver um pouco todo dia. E o trabalho me esperou hoje o dia inteiro enquanto pensei e vivi e não escrevi isso tudo.

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