segunda-feira, 15 de junho de 2015

Uma coisa de cada vez

Enquanto as pessoas pensam em ter filhos e eu penso em qual país será o próximo que eu vou visitar, e eu penso em ter filhos e em qual país será o próximo que eu vou visitar antes deles e qual será o próximo país a visitar com os filhos, e quais os nomes que eles terão, os filhos, e se serão parecidos comigo ou não (os países), ou com meus pais (os filhos), talvez, quais sobrenomes ficarão e quais sairão, e qual país é melhor de se viajar agora e qual melhor deixar pra depois, e se está certo essa escolha acadêmica de agora e a desescolha de antes, e se eu tenho estudado o suficiente e trabalhado o suficiente e juntado o dinheiro o suficiente para ter filhos, ou viajar para um próximo país, ou fazer as duas coisas, uma de cada vez, as duas juntas, mas uma de cada vez, pois não é possível ter filhos viajando.

Enquanto todas as amigas já sabem cozinhar e já sabem qual o prato preferido do namorado que já é noivo que logo será marido que já tem o emprego dos sonhos (os dois) e o apartamento financiado (os dois) ou já todo pronto em fortuna, e já têm fortuna, tão cedo, e eu penso se estou juntando dinheiro o suficiente, se estou trabalhando realmente duro, e eu sei que sim, eu sei que estou, eu tenho trabalhado cada vez mais, mas acho que não tenho estudado tanto, e esses dias cansei um pouco, não de estar cansada de exausta, mas de estar cansada de saco cheio, e fiquei meio insatisfeita com tudo e só quis ler, e me deitei e me acordei tarde e trabalhei pouco. E teve dias que quase não acordei o dia inteiro. Tive tantos pesos na consciência que nem tive insônia, e isso foi absurdamente esquisito. Trabalhei pouco e estudei nada e juntei pouco dinheiro porque não recebi nada esse mês também. E fiquei apreensiva por dez minutos e depois não mais. E me perguntei onde estava minha idade adulta, se ela já tinha começado e parado, ou se realmente tinha pelo menos começado. E enquanto isso todas as minhas amigas sabem cozinhar e conduzir casamentos e eu só frito ovos e faço suco verde às seis da manhã antes do pilates, e pareço fazer tudo errado no meu relacionamento que vai bem.

E enquanto minhas amigas planejam o apartamento com varanda e eu digo que quero muito uma casa cheia de cachorros e também com jardim e quintal elas gritam assustadas se eu estou louca, que a violência é uma coisa impossível de lidar hoje, e como que eu ainda sonho com algo tão irreal como uma casa e jardim e cachorros e uma vida feliz e não apreensiva dentro disso. E eu só fico apreensiva porque não tenho dinheiro nenhum pra comprar uma casa nem a grama do jardim nem a ração do cachorro pois eu vou ser professora, digo e penso e nem digo mais, e penso logo que melhor ir embora e mudar de cidade, ir para o interior, e lá ter os filhos e os cachorros, e a vida vai ser simples e boa, não vai, amor?, e ao mesmo tempo penso em qual país eu devo ir agora viajar, e se lá vou estudar ou trabalhar ou fazer filhos para tê-los na volta, mas e a casa como vamos comprar, será que estou estudando e trabalhando o suficiente, fazendo as duas coisas de uma vez?, todas as coisas duma vez?, todas as coisas de uma só vez.

2 comentários:

Júlio Cézar disse...

Cadê seu direito a preguiça?

Vanessa Augusta disse...

Tudo muito confuso. Quero pedir pra essas pessoas pararem de casar e comprarem apartamentos e terem filhos, pra que eu possa ter direito de viver a minha vida sossegada. Hahaha