segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma segunda-feira de 2015

Na minha timeline, uma mulher está revoltada contra o feminismo, que pra ela não existe de jeito nenhum. Ela define feminismo como feminazismo, chama as feministas de feminazis, afirma que feministas são mulheres querendo ser diferentes de homens, e que elas têm as tetas caídas. Eu não sabia que ela tinha algo a ver com as tetas das outras mulheres, mas consigo perceber que faltam-lhe habilidades cognitivas necessárias para entender e lembrar o que é feminismo.

Ela diz que esse papo de que mulher ganha menos que homem é mentira. Que, se assim fosse, os homens estariam todos desempregados e as mulheres todas empregadas, que é para a empresa lucrar mais. Infelizmente o espaço em branco que ela tem no lugar do senso crítico não deu nem o estalo para pensar sobre licença maternidade e paternidade - que, no Brasil, já é um ato sexista em si mesmo: a mulher fica meses com a criança em casa, enquanto o pai fica alguns dias. A desproporcionalidade de uma licença para outra se apóia num tradicionalismo que eu não vou falar aqui porque essa mulher anti-feminismo nunca vai ler esse post e as três pessoas que lêem esse blog entendem o que eu tô falando sem que eu me estenda e percebem o impacto que ambas as licenças podem ter no mundo corporativo.

Também conta que não somos oprimidas. E que se quisermos ver uma real opressão à figura feminina nós deveríamos ir ao Oriente Médio!!! É como o médico que vê nosso filho doente, ardendo em febre alta, e, quando a gente diz "mas ele podia estar lá fora brincando", ele responde "mas ele podia estar morto, minha senhora, ave maria!". Eu fiquei assustada mas depois fiquei feliz por ela porque, se ela disse isso, muito provavelmente nunca foi assediada verbal nem moralmente por ser mulher, nunca foi destratada por ser mulher, e nunca teve um tratamento diferenciando estando sozinha e quando está acompanhada de um homem. Eu, que passo por isso todos dias, fiquei feliz por ela, realmente. Quem sabe ela já viva um cotidiano que o feminismo (que ela repudia) conseguiu conquistar.

Nessa segunda-feira de 2015, uma mulher ataca o feminismo e sugere o Oriente Médio como real parâmetro da opressão às mulheres.

Finalmente um dia dos namorados se passa com uma propaganda cujos casais-propaganda não são somente casais héteros. Aqui na cidade, o shopping famoso não fez isso, por exemplo. E não consigo lembrar agora de nenhuma outra empresa fazendo algo parecido. Nessa segunda-feira de 2015, um único comercial de televisão assume publicamente o que todo mundo já sabe: as pessoas se amam. (?)

Mas, nesse mesmo dia e ano, lá vamos: ler quem diga que "o comercial banaliza a família tradicional brasileira". Fiquei sem entender; por que que uma família que banaliza o amor entre duas pessoas do mesmo gênero seria tradicional. Eu achando que eles deveriam receber outro adjetivo no lugar.

"Um comercial onde aparecem famílias homossexuais como se isso fosse normal". Mas anormal não seria escrever um comentário desses achando que está dizendo algo que faz sentido?

E o arremate clássico: "não tenho preconceito contra homossexuais, mas estou preocupada com meus filhos pequenos assistindo a esse comercial" e crescendo sem preconceitos. Imagine! Deus me livre! Aliás.

Quem sabe em 3015 isso tudo não fica diferente. Eu e um monte de gente que é, assim, pra-frente demais - é o que os fatos dessa segunda-feira de 2015 nos dizem. E parece que nada muda. Mas muda: quem sabe fica um pouco diferente em 3015, como disse. Quem sabe.

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