sexta-feira, 3 de julho de 2015

Tentativa e muito erro

Tentei.

Era sábado à noite e eu não cozinhava (porque não sei cozinhar) e Otávio cozinhava pra mim enquanto eu pensava sobre tudo o que tinha pra fazer e que já poderia ter feito há dias, pois: estou de férias da faculdade e as horas do dia sobram. (Do trabalho não tenho férias porque meu trabalho não é normativo nem vou pra empresa nenhuma nem preciso colocar uma roupa decente pra trabalhar. Fico de pijama fazendo o que devo. Mas às vezes atraso. E tava tudo atrasado.)

Eu tava vendo o Hypeness (sim, eu faço isso, me desculpa se te desapontei) e tava lá: Desafio Parar de Procrastinar. Vamos. Vamos ler, né. Fazer agora não, porque é sábado à noite e lá vem da cozinha um petit gateau no meio da dieta que é pra vida ficar boa. Eu procrastino a dieta, avalie a vida real.

Li e era bem plausível e bem real e bem dá-pra-acreditar-que-vou-conseguir. Fiz a lista antes que o petit gateau saísse do forno e já tinha: Desafio Parar de Procrastinar do domingo até a sexta (amanhã que já é hoje).

A ideia não era só listar o que você tinha que fazer que vinha adiando. Mas colocar pequenas metas para cada dia, desmembrá-las em muitas. Cada etapa da tarefa adiada era um item a ser riscado. Cada risco produziria uma sensação de felicidade, um mini-orgasmo, uma endorfina pós treino. E assim sua vida entraria nos eixos e você entraria finalmente onde já deveria estar há anos: na vida adulta. Finalmente responsável.

Dos dez itens do domingo, cumpri nove.
Dos oito itens da segunda, cumpri seis, mais um do domingo, aí seriam sete, só que ainda assim seis.
Dos nove ou dez itens da terça, não olhei pra nenhum e fiz o que deu e me esforcei durante o dia e posterguei pouco e tive até alguém me ajudando (eu ia reler o livro novo; um anjo apareceu querendo fazer isso pra mim pra gastar a sinceridade). Risquei a metade, no final.
Dos sete itens da quarta e dos oito da quinta: não sei quais fiz nem o que eram porque hoje arranquei os papéis da parede, rasguei, amassei, e joguei no lixo. Tudo. Inclusive com os adesivos do Pequeno Príncipe que eu tinha emoldurado.

Me imagino sem necessariamente procrastinar por um dia e só penso que no fim do dia vou ter uma sensação de que fiz muito mais pelos outros do que por mim. Na minha lista de procrastinar não coloquei ler livros. Nem estudar línguas. Nem descansar nem falar mal das pessoas. Nem ver receitas que nunca conseguirei fazer mas que sempre vejo porque sempre acho que serei capaz um dia. Não coloquei nenhum filme pra assistir. E coloquei pra escrever todos os dias, mas fiz isso só no domingo.

A lista de evitar procrastinar só me deu mais insônia, gordura localizada, nervosismo, e só me deu vontade de fazer o que sempre faço quando tenho uma lista muito extensa de coisas a fazer: limpar a casa ou organizar a gaveta de calcinhas.

Depois que arranquei os papéis da parede, rasguei a lista aos prantos de ódio (mentira), e comemorei o alívio em seguida com um sorriso no rosto (mentira), trabalhei em paz, reclamei da vida, xinguei as pessoas que me interromperam enquanto eu fazia essas duas coisas, e o dia passou e rendeu. E terminou bem.

Agora me dá licença que vou comer chocolate. Amanhã eu volto pra dieta.

Ou segunda-feira.

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