terça-feira, 18 de agosto de 2015

A pior parte de ser adulto

Assim mesmo. Cresci achando e tendo certeza absoluta de que a vida adulta seria isso: uma rotina meio vazia e meio chata depois da faculdade, uma corrida atrapalhada e horrorosa atrás de um bom emprego, uma dificuldade infinita em conciliar felicidade e ganhar dinheiro (dois expoentes da vida que têm grandes dificuldades de se encontrar, quando ficamos adultos), uma ali tendo filho e outra tendo dois filhos, um amigo casando com outro amigo, os pais envelhecendo e a gente ficando parecidos com as caras que nossos pais tinham quando conhecemos nossos amigos de infância e eles tinham aquela cara das fotos que vemos hoje e não nos reconhecemos mais nas crianças, e sim neles.

Um caminho absolutamente previsível e com percalços previsíveis, e não muito estimulante, caindo pro tédio de vez em quando, mas com a certeza de que ele iria por aí mesmo. E vai. O problema foi que não me avisaram que o início da vida adulta (de verdade) significava uma sucessão de despedidas. Porque todo mundo vai embora. Ninguém me avisou, mas todo mundo vai morar fora. Todo mundo.

O irmão sai de casa quando você tem 15, outra amiga sai quando você tem 18, e mais alguns anos à frente ela volta, sendo que quando ela volta, o amigo vai embora pro intercâmbio que termina ficando por lá e o intercâmbio dura para toda a vida, e mais outro amigo muda de cidade pra começar um emprego novo, e a amiga que tinha ido e tinha voltado vai embora de novo, e quando vemos não restou mais ninguém. E ainda tem mais gente indo embora depois que não restou mais ninguém - porque até isso é possível.

Se eu me mudasse pra Finlândia ou pro Acre agora mesmo não acho que faria tanta diferença na minha vida: não teria quase nenhum amigo na mesma cidade que eu, porque não sobrou mais nenhum aqui. Mentira, ainda tem, é claro. Só não sei até quando.

Mas nesse meu estágio de maturidade da idade adulta, veja só o que chamo de maturidade, nesse meu estágio de maturidade da idade adulta eu já sei que não vai sobrar mais ninguém. E me lembro bem daqueles dias que passei na Suécia: numa cidade que quase não tinha gente e as gentes que tinham mal falavam porque não abriam a boca nem pra dizer um obrigado e havia algumas gentes que eram amigos e se conheciam mas eles ficavam mais calados que conversando e tudo era um silêncio só. Fiquei surda de tanto silêncio que ouvi na Suécia. E senti quase o mesmo vazio que sinto agora, exatamente por causa disso: o silêncio.

Pra eu ver meus melhores amigos eu agora tenho de pegar aviões (no plural, por conta das escalas), e aviões diferentes, e escalas diferentes. Parece que faz cinquenta anos quando eu conseguia ver todos no mesmo fim de semana, às vezes no mesmo lugar, no máximo em dois lugares diferentes. Esforço nenhum. Vida boa em excesso. Lembro disso com a nostalgia dum velho que lembra da infância que não volta nunca mais. Sinto saudade e raiva por estar todo mundo tão longe e mais raiva por estar todo mundo longe enquanto eu penso que quando estavam perto eu deveria ter aproveitado ainda mais porque deveria ter adivinhado que ia todo mundo embora.

Só eu vou ficando. E isso é o mesmo que ir embora pra não voltar mais, ou pra voltar poucas vezes. Agora é ver todo mundo partir pra um mundo grande demais. É só nisso que penso agora. E esse negócio de ser adulto está só começando.

domingo, 16 de agosto de 2015

Raduan

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo. 


Aí pelas três da tarde.
Conto de Raduan Nassar.

domingo, 2 de agosto de 2015

Como tudo vai

A gente tem ficado mais teimoso e mais difícil de aceitar que estamos assim. Já mergulhamos naquele momento crítico da vida onde nos damos conta de que absolutamente nada do que tínhamos planejado para esse momento da idade está acontecendo. Está tudo desacontecendo. Está tudo meio errado e completamente incerto, eu penso. Tento me segurar como quem segura os pensamentos para não pensar em nada mais. Tá tudo errado, eu penso de novo. Parece certo, mas não tem nada no lugar. E eu não sei como fazer isso funcionar. (Quando pensei que sabia e fui fazendo, não fiz nada certo outra vez.)

Mas já ficamos teimosos demais para aceitar que não sabemos fazer as coisas, que não conseguimos colocar os passos nos eixos. E a culpa dos outros, e vai ser sempre dos outros, não vai? Que a essa altura a gente já evita e diz que não dá mais pra se olhar no espelho. 

Acho que vou me desfazer de quase todas as minhas roupas, eu disse. Até as que eu uso às vezes, até as que eu gosto, as que eu acho bonitas. Por que?, ele disse perguntando. Porque sim. Porque nada mais cai bem, nada mais fica como eu quero nem dá certo. Tá tudo folgado ou apertado demais. Tudo feio e fora de época, fora de mim. Tudo fora do meu controle. Quando reparei na metáfora.

E depois que mergulhamos na teimosia sem aceita-la (porque senão não seria teimosia) passamos a ter uma certeza absoluta de que nós somos realmente o fracasso completo, desde o começo. E também começamos a achar que é melhor parar de falar em primeira pessoa do plural e assumir a primeira pessoa do singular. Assumindo a certeza de que você está sozinho nisso tudo, mesmo que haja mais alguém na mesma situação. 

Tá tudo errado, eu penso. Nada vai muito pra frente, e eu fico mais pra dentro de um caverna a cada dia. Não saio de uma caverna que mal conheço. 
Tá tudo errado, porque não consegui consertar nada da lista de atitudes-a-analisar, e a solidão ainda é desesperada. 
Tudo está completamente errado, se a solidão ainda é desesperada.