domingo, 2 de agosto de 2015

Como tudo vai

A gente tem ficado mais teimoso e mais difícil de aceitar que estamos assim. Já mergulhamos naquele momento crítico da vida onde nos damos conta de que absolutamente nada do que tínhamos planejado para esse momento da idade está acontecendo. Está tudo desacontecendo. Está tudo meio errado e completamente incerto, eu penso. Tento me segurar como quem segura os pensamentos para não pensar em nada mais. Tá tudo errado, eu penso de novo. Parece certo, mas não tem nada no lugar. E eu não sei como fazer isso funcionar. (Quando pensei que sabia e fui fazendo, não fiz nada certo outra vez.)

Mas já ficamos teimosos demais para aceitar que não sabemos fazer as coisas, que não conseguimos colocar os passos nos eixos. E a culpa dos outros, e vai ser sempre dos outros, não vai? Que a essa altura a gente já evita e diz que não dá mais pra se olhar no espelho. 

Acho que vou me desfazer de quase todas as minhas roupas, eu disse. Até as que eu uso às vezes, até as que eu gosto, as que eu acho bonitas. Por que?, ele disse perguntando. Porque sim. Porque nada mais cai bem, nada mais fica como eu quero nem dá certo. Tá tudo folgado ou apertado demais. Tudo feio e fora de época, fora de mim. Tudo fora do meu controle. Quando reparei na metáfora.

E depois que mergulhamos na teimosia sem aceita-la (porque senão não seria teimosia) passamos a ter uma certeza absoluta de que nós somos realmente o fracasso completo, desde o começo. E também começamos a achar que é melhor parar de falar em primeira pessoa do plural e assumir a primeira pessoa do singular. Assumindo a certeza de que você está sozinho nisso tudo, mesmo que haja mais alguém na mesma situação. 

Tá tudo errado, eu penso. Nada vai muito pra frente, e eu fico mais pra dentro de um caverna a cada dia. Não saio de uma caverna que mal conheço. 
Tá tudo errado, porque não consegui consertar nada da lista de atitudes-a-analisar, e a solidão ainda é desesperada. 
Tudo está completamente errado, se a solidão ainda é desesperada. 

Um comentário:

Maíra D disse...

não gosto de abandono, a não ser que seja abandono de planos.