segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Não faz muito tempo

Não faz tempo que tenho medo de avião. Começou depois.

A gente estava indo para o Chile quando o avião, lá no aeroporto de Parnamirim, ainda, nos trancou dentro dele por uma hora e meia. Depois de cinquenta minutos, metade das pessoas respirava acelerado, suava acelerado, tinha batimentos cardíacos acelerados. Ninguém entendia o que estava acontecendo, mas todo mundo tinha certeza que era só uma tripulação atrasada que não se importava nem um pouco com a síndrome claustrofóbica irreversível que eles estavam produzindo numa centena de passageiros. "Foi mal aí, gente, o avião tá com um problema no motor, vamos trocar de aeronave."

Como que mandam a gente entrar no avião assim, gente? Como que deixam a gente preso por duas horas pra dizer que quase tínhamos voado num avião quebrado que quase podia ter caído que quase podia ter matado todos nós assim tão rápido? Foram olhar o motor depois que tava todo mundo lá dentro? Então foi por acaso. Suspeitassem de algo errado não teriam feito a gente entrar ali. Tenho certeza. Num tenho? Né verdade?

Pânico inicial.

Na volta do Chile, entre Santiago e São Paulo, depois de ter atrasado mais de três horas, garantindo a perda do nosso voo para Natal e uma espera de mais de sete horas em Guarulhos, o avião aguçou nossas emoções dizendo: gente, vou cair. Mas era só (?) uma zona de turbulência. Lembro de nesse dia eu e Otávio termos nos olhado como quem diz que sabe o que vai acontecer (a morte) mas que é melhor não falar sobre e apenas dar as mãos em sinal de nosso amor. Não caiu. Perdemos nosso voo. Tivemos péssimas horas em Guarulhos (parece pleonasmo) e um voo nunca mais foi o mesmo depois daquilo.

Olha que dezembro passado eu estava em Montevidéu e o pessoal quis ir no museu onde tem os destroços daquele desastre de avião que os migo ficaram em cima da montanha e tiveram de comer as carnes dos que morreram porque estavam passando fome e porque escutaram pelo rádio que as buscas iam ser suspensas porque ninguém encontrava os rapazes e daí o cara fez um museu sobre isso (que eu não vou procurar no google para contar essa história direito, por motivos óbvios de ainda querer dormir e viajar ao longo da minha vida) e as pessoas vão lá visitar e se emocionar com a história dele. Eu pedia para meus companheiros de viagem não falassem sobre isso porque, durante uma viagem, eu preciso esquecer que ela é uma viagem já que isso implica em andar de avião para voltar pra casa, mas isso só reforçou o contrário, é claro: e fui obrigada a ouvir os relatos minuciosos que, até hoje, o cara do museu conta para seus visitantes que não têm medo de entrar numa aeronave e acham essa visita uma parte especial duma ida a Montevidéu.


Me vejo lá sentada confiando minha viagem e minha vida a um máquina e a um grupo de pessoas que andam com a roupa mais engomada que já vi, elas garantindo que tudo vai ficar bem, que é muito normal levantar voo, atravessar oceanos, desacelerar e pousar. Natural.
Imagino se a gente fica no prego, de repente. O motor pára. Não tem ninguém pra empurrar. No avião tem embreagem? Fico preocupada de se falta embreagem. Uma vez aconteceu isso no meu carro e foi bem ruim e fiquei imaginando se me acontecia enquanto eu descia a ladeira da Ribeira, por exemplo. Imagino se isso pode acontecer com um avião. Por cima do mar, ainda mais. Acredito piamente na possibilidade de colisão entre dois aviões e sinto que não devia estar escrevendo esse texto, agora, porque estou ficando mais ansiosa. Mas sim. Esse monte de gente voando, avião pra tudo que é lado, a tantos quilômetros por hora. Não tem como bater não, gente? Falo sério. Sem piada. Eu sento na cadeira do corredor (nunca na janela) e tento olhar mais à frente e conferir se tá tudo limpinho por ali mesmo, se não vem ninguém na contra mão (ou se não é a gente que tá na contra mão). "Mas tem a rota". Que rota, gente? Como é que vocês acreditam tanto nisso.

Minha psicóloga tentou conversar comigo sobre isso, já. Minha mãe não quer que eu fale nem pense sobre essas coisas porque "atrai". Pra minha mãe tudo "atrai". Que é melhor só pensar nas coisas boas da viagem.

Semana que vem vou viajar e estou aqui meditando coisas boas. E penso. Mas há dias que já comecei a respirar mais rápido, a dormir menos, a ter uma vontade saudável de gritar o mais alto que eu puder, levantando os braços ao mesmo tempo, transmitindo o desespero que já é real. É quando começo a pedir para que o avião não caia, não bata, não perca o freio quando precisar do freio, que o motorista não cochile, MEU DEUS, nem tinha lembrado disso. O cochilo.

Mas como eu disse, não faz muito tempo que tenho medo de avião. Quem sabe dá pra reverter, ainda.

Um comentário:

Júlio Cézar disse...

Bom é LOST, onde o avião cai na ilha!

Filme sugerido: "O voo", com Denzel Washington. Ele é um piloto de avião que salva a vida de centenas com sua perícia. Detalhe: ele estava bêbado!