quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Não pense no que você não pára de pensar que fica tudo bem

Faltam vinte e quatro horas pra pegar o avião e já alcancei o surto nível médio e já comecei o chá de camomila depois de comer uma fatia de pizza gordurosa que sobrou do domingo mesmo que estivesse sem fome. Isso depois de lavar chão, a roupa, as havaianas, e de engomar quinze calcinhas. Porque virginianos que não descontam sua ansiedade limpando a casa não são virginianos de verdade ou não sabem como descontar a própria ansiedade. Faltam vinte e quatro horas e minhas costas já doem e meu pescoço dá uns estalos e minha barriga anuncia: não vai descer coisa boa daqui a pouco. O dia inteiro. Porque faltam vinte e quatro horas. Mas por que, gente, essa mania feia de andar de avião em plena madrugada. Sabe se os pilotos andam dormindo? Porque, vocês sabem, né, eles tão igual a motorista da caminhão: sem dormir vários dias, pra dar conta do serviço. Juro a você. Passou num jornal, na Globo, e você sabe que pra tragédia a Globo não ia mentir, né. Pois digo que amanhã eu vou perguntar a eles. Amanhã, já que faltam vinte e quatro horas mais ou menos. Vou perguntar gritando se Moço, pelo amor de Deus, você dormiu, né? Comeu bem? Não brigou com a mulher nem vai se trancar dentro da cabine enquanto o outro sai pra fazer xixi, né isso? O quê que deu teu teste projetivo da última vez que você fez? Será se eles fazem avaliação psicológica regularmente. Imagina. Falar em psicólogo acho que vou ligar pra minha psicóloga enquanto surto. Mas é quase meia noite. Mas amanhã quase meia noite eu não sei se vou estar respirando normalmente, já que agora eu já estou assim: feito uma pessoa que só tem um pulmão funcionando. Respirando com força. Deve ser isso minha dor nas costas. Meus pulmões começaram a sofrer com minha ansiedade. Imagina se eu tenho um negócio lá em cima, então, puta merda, não acredito, imagina se passo mal. Agora mais essa. E eu não sei por que Marina insiste em eu tomar comprimido porque eu já disse a ela que tenho medo de passar mal com o efeito do comprimido e ter consciência disso com o avião lá em cima e tendo consciência eu começar a passar mal três vezes: do efeito do remédio, do medo de avião, da consciência de estar passando mal com o efeito do remédio dentro dum avião. Vai que não tem médico lá em cima. E vai que tem mas ele não consegue me ajudar. Vai que eu morro. Tenho muito medo de morrer, juro. Tenho muito medo de avião, juro demais também. Vai que bate. Noutro avião, quando tá no céu. Eu vou avisar pro piloto na hora de perguntar se ele dormiu: pra ele olhar pra frente, e também pros lados, direitinho. Nunca se sabe, né. Uma contramão. Eu não acredito nesse negócio de "rota", então queria que eles tomassem mais cuidado. Eu não sei se eles tomam realmente cuidado e por isso eu tenho medo porque, né, cê sabe. Vou nem falar pra não ficar mais ansiosa e comer mais pizza e ter de tomar mais chá de camomila. De repente eu nem consigo acordar amanhã de manhã e perco todos os horários e isso vai me deixar mais nervosa pra quando der a hora de viajar. Então também não vou tomar muito chá de camomila. Talvez não tome nem esse. Meu Deus. Acho que eu preciso vomitar um pouco. Tá difícil. Tá bem difícil. Minha mãe me disse que "eu nem pensasse". Imagina, agora sim, ficou tudo bem!!!

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